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quarta-feira, 30 de março de 2016

o ex futuro _________

A primeira vez que usei esse termo foi quando larguei o doutorado.
O que eu era? O que eu viria a ser?
A aproximação que cheguei foi trazer o futuro para o presente.
Sou uma ex-futura doutora em Biotecnologia.
A contradição em pessoa... coisa que ouvia desde a época da faculdade, quando alguns (incluindo eu mesma) não conseguiam me compreender.


Seria bem mais fácil se fosse assim não é? 

Então ontem, lendo, relendo, incorporando, confiscando meus trechos de livros, sobre a época genial e as coisas que "só tentam acontecer", ou sobre as viagens de Marco Polo e a fluidez do passado, uma frase me chamou a atenção: 
"Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos."
Isso é o mesmo que um ex futuro qualquer coisa.
Ex futura doutora. Ex futuro projeto de vida. Ex futura família. Ex futuro amor. Ex futuro sonho. Ex futuro.
Algo que chegou a experimentar a realidade. Mas que "logo recuam, com medo de perder a sua integridade na deficiência da realização".
Alguns "ex futuros" são escolhas conscientes, assumidas, estudadas, analisadas. Com meu doutorado foi assim. Assumi que não queria mais aquela estrada. Optei pela curva. Cheguei na encruzilhada e segui pelo caminho menos percorrido. Foi loucura. Uma loucura para não perder a alma. Tchau futura doutora. Olá presente mãe.
Outros não. Outros "ex futuros" nos exigem uma adaptação mais árdua. Resiliência. Mais visceral, mais espiritual. Porque não dependem apenas de nós, de nossos desejos, exclusivamente. Esses são as "manchas brancas, estigmas perfumados, aqueles rastros prateados dos pés descalços dos anjos". Um sonho que não se realizou. Um amor que não vingou. Um projeto de vida que se perdeu na deficiência da realização.
Nos contentamos em guardar a parte boa. Ficamos com a placidez de que tentamos. Aceitamos as circunstâncias. Por que nestes casos insistir é que pode ser a loucura.
Mesmo quando o poeta diz o contrário:
"Mas não crie arrependimentos por aquilo que não foi feito.
Sejamos mais reais em nossas dores.
Tudo o que não aconteceu é perfeito.
Dê chance para a imperfeição. Insista.
Estou cansado de me defender - sou só ataque.
Insisto." Fabrício Carpinejar
Por isso, considero que abrir mão desses "ex futuros" é muito mais difícil. Desapegar, aceitar, com paz no coração é tarefa de uma vida.
Comecei meu aprendizado com a aceitação no yôga. Minha querida Joana dizia: "tens que aceitar teu limite, acolher, para então conseguir transcender. "
Aceitar é uma atitude tão passiva. Eu com meu fogo sagitariano querendo realizar. E tendo que aceitar. Era o início.
Com o tempo fui compreendendo. Além de aceitar, é preciso acolher a dificuldade. É preciso confiar que está se fazendo o seu melhor, dentro das tuas limitações. É o "não olhar o passado com os olhos do presente".
Entrego, confio, aceito, agradeço.
O mantra do Prof. Hermógenes.
O ásana da mente.
Quando aceitamos a dificuldade, percebemos o apego. O apego ao resultado que estávamos a espera. O apego ao "eu não queria que fosse assim", ao invés de: "eu aceito que seja assim" porque não consigo neste momento ver outra coisa a se fazer. Porque nem sempre poderemos fazer coisas.

Lembrei! Outro ex futuro, que foi presente por muito tempo: montar cavalos. Entendê-los. Me comunicar com eles. Tentei. Tentei exaustivamente. Anos... até que aceitei. Não consigo. É minha limitação. Abri mão: não posso ser boa em tudo que quero. E como eu queria ser boa com os cavalos...

Ah, o processo! A complexidade. A sincronicidade.

O apego ao "como eu queria que fosse" (ou às expectativas) é a fonte da dificuldade em aceitar as coisas como são: ex futuros. E isso não é exclusividade minha, ou nossa.
Poetas já traduziram isso:




O remédio para essas dores?
Desapego, aceitação, compreensão. Amor.
Pelo menos é o que estou tomando.

E um pouco de budismo também.









trechos de livros

Alguns livros surgiram na minha vida com propósitos muito específicos.
Seja por toda sua história, seja por trechos que me marcaram profundamente.
O post de hoje vai ser sobre esses trechos. Antes que se percam.
Porque hoje me lembrei deste trecho que vem a seguir e não sabia onde encontrá-lo.
Aqui estarão confiscados!

O mais curioso é que estes livros, nunca cheguei a ler por completo. Como se ao encontrar o tal trecho, não fizesse mais sentido ler o livro todo.
"Então, a época genial existiu ou não? É difícil de responder. Sim e não. Porque há coisas que não podem acontecer totalmente, até o fim. São grandes e magníficas demais para caber num acontecimento. Elas só tentam acontecer, elas só verificam se o solo da realidade as aguenta. E logo recuam, com medo de perder a sua integridade na deficiência da realização. E se elas enfraqueceram o seu capital, se nessas tentativas de reencarnação, perderam uma coisa ou outra, logo, invejosas, retomam a sua propriedade, retiram-na de novo, reintegram-se, e depois, na nossa biografia, aparecem aquelas manchas brancas, estigmas perfumados, aqueles rastros prateados dos pés descalços dos anjos, disseminados por passos gigantescos nos nossos dias e noites, enquanto esta plenitude da glória aumenta e completa-se incessantemente culminando sobre nós e ultrapassando triunfante, êxtase após êxtase."
Sanatório - Bruno Schulz 
Este que vem a seguir foi o mais curioso. Comprei o livro por causa desta citação, que vinha na contracapa do livro. E nunca cheguei a terminar a leitura.
"Com efeito, mesmo que a realidade não fosse inesgotável, bastaria a necessidade
que tem cada geração e mesmo cada um de nós de resolver, por si só, cada
problema, em nossa própria linguagem, para tornar o conhecimento aquilo que ele é
por natureza a tentativa, incessantemente renovada, de explicar o homem e o
mundo. Talvez seja mais exato dizer, aliás, que o importante é tornar a linguagem
comum em carne, e sangue, e ossos, para cada pessoa em particular; e esta é a
tarefa que cada pensamento particular, cada geração, cada pessoa, têm de realizar,
ao serem chamados a repensar o mundo."
Ariano Suassuna - Iniciação a estética
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 "Marco Polo imaginava responder (ou Kublai imaginava a sua resposta) que, quanto mais se perdia em bairros desconhecidos de cidades distantes, melhor compreendia as outras cidades que havia atravessado para chegar até lá, e reconstituía as etapas de suas viagens,e aprendia a conhecer o porto de onde havia zarpado, e os lugares familiares de sua juventude, e os arredores de casa, e uma pracinha de Veneza que corria quando era criança.
Neste ponto, Kublai Khan o interrompia ou imaginava interrompê-lo ou Marco Polo imaginava ser interrompido com uma pergunta como:
- Você avança com a cabeça para trás? - ou então: - O que você vê está sempre às suas costas? - ou melhor: - A sua viagem só se dá no passado?
Tudo isso para que Marco Polo pudesse explicar ou imaginar explicar ou ser imaginado explicando ou finalmente conseguir explicar a si mesmo que aquilo que ele procurava estava diante de si, e, mesmo que se tratasse do passado, era um passado que mudava à medida que ele prosseguia a sua viagem, porque o passado do viajante muda de acordo com o itinerário realizado, não o passado recente ao qual cada dia que passa acrescenta um dia, mas um passado mais remoto. Ao chegar a uma nova cidade, o viajante reencontra um passado que não lembrava existir: a surpresa daquilo que você deixou de ser ou deixou de possuir revela-se nos lugares estranhos, não nos conhecidos.
Marco entra numa cidade; vê alguém numa praça que vive uma vida ou um instante que poderiam ser seus; ele podia estar no lugar daquele homem se tivesse parado no tempo tanto tempo atrás, ou então se tanto tempo atrás numa encruzilhada tivesse tomado uma estrada em vez de outra e depois de uma longa viagem se encontrasse no lugar daquele homem e naquela praça. Agora, desse passado real ou hipotético, ele está excluído; não pode parar; deve prosseguir até uma outra cidade em que outro passado aguarda por ele, ou algo que talvez fosse um possível futuro e que agora é o presente de outra pessoa. Os futuros não realizados são apenas ramos do passado: ramos secos.
- Você viaja para reviver o seu passado? - era, a esta altura, a pergunta do Khan, que também podia ser formulada da seguinte maneira: - Você viaja para reencontrar o seu futuro?
E a resposta de Marco:
- Os outros lugares são espelhos em negativo. O viajante reconhece o pouco que é seu descobrindo o muito que não teve e o que não terá."
Ítalo Calvino - Cidades Invisíveis
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“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver."
Amyr Klink - Mar sem fim
Esse eu li por inteiro. Maravilhoso! _________________________________________________________________________________
“Planava sobre nós uma espécie de vento, de som inaudível que nos dizia mais ou menos isto:
há um tempo para aprender,
um tempo para ignorar e outro para saber;
um tempo para compreender e outro para lembrar”.
Augusto Roa Bastos - Contra a Vida. 
Esse também eu li por inteiro, acho. Se me não engano.

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Confiscado! Sujeito a adições.
O próximo será de textos de blogs... prevejo imensidão.



quarta-feira, 3 de junho de 2015

Laura Gutman me salvando

Li esse texto e foi um alívio. É essa a sensação que tenho quando alguém materializa o que eu sinto ou senti e não conseguia explicar.
Por isso quero transcrevê-lo aqui. Se puder ajudar mais pessoas vai ser ainda melhor <3
Os grifos em negrito são originários do próprio livro. O sublinhado é meu mesmo.

Uma visão feminina da paternidade.
Por Laura Gutman, do livro: Mulheres visíveis, mães invisíveis. Pág. 133 e 134.

Esses não são tempos fáceis para os homens ou para as mulheres. Nós conquistamos o mundo masculino e os homens perderam suas identidades históricas. Serão necessárias algumas gerações para que possamos voltar a nos situar em um mundo sem regras fixas.
A paternidade também deixou os homens deslocados. Há um aparente consenso a respeito dos pais modernos que trocam fraldas, que brincam com as crianças ou que ajudam nas tarefas domésticas. E não muito mais.
No entanto, ser mãe ou pai é, sobretudo, abandonar os interesses pessoais e se colocar a serviço do outro - de maneira interamente altruísta. A mãe sustenta o filho e o pai sustenta a mãe. Pelo menos é isso o que existe dentros dos padrões da família nuclear, que está longe de ser o ideal para a criação dos filhos.
No entanto, as mulheres costumam confundir o "apoio emocional" que recebem com a "ajuda concreta para a educação do filho". São duas situações muito distintas. Uma mãe sustentada poderá sustentar a criança. Uma mãe desamparada se "afogará em um copo d`água". Sentindo-se solitária, pedirá qualquer coisa, a qualquer momento e nunca ficará satisfeita, mesmo que o homem tente banhar a criança, leve-a para passear ou acorde à noite para acalmá-la. Então o homem ficará desconcertado e não saberá mais o que fazer para tranquilizá-la.
É ótimo que o pai troque uma fralda. Mas a condição fundamental para um funcionamento familiar equilibrado é a de que desempenhe o papel de esteio emocional da mãe. Não é necessário que mergulhe no redemoinho emocional, porque esta não é sua função. Ao contrário: é necessário que alguém mantenha sua estrutura emocional intacta e se precoupe com o mundo material para que a mãe não se veja obrigada a abandonar o mundo emocional no qual está submersa. O pai não tem que maternar - tem que apoiar a mãe para cumprir seu papel de maternagem. 
Tenho duas sugestões a fazer aos homens emocionalmente amadurecidos: antes de sair para trabalhar de manhã, faça duas perguntas à sua mulher: "Como você está se sentindo?" e "O que você precisa hoje de mim?" É muito simples.
A maioria dos homens retoma suas atividades profissionais, toma banho, faz a barba todas as manhãs, engole o café e sai exatamente na mesma hora de sempre, "como se nada tivesse acontecido". E, da mesma maneira, acha que nada do que aconteça quando estiver ausente lhe diz respeito, e que sua mulher, eficiente como sempre, conseguirá se virar sozinha com o bebê. É uma ideia falsa. Deveria alterar sua rotina? Não. Entretanto, deveria perguntar à mulher o que precisa dele hoje, aqui, agora.

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É um trabalho de equipe... O pai abandona-se em função da mãe, que abanonda-se em função do filho... Colocando-se ao serviço do outro, a mais sublime forma de expressão do amor. 

Confiscado! 

segunda-feira, 11 de maio de 2015

sobre criar filhos

Hoje é dia das mães.
Mas este não será um texto homenagem às mães. Não que elas não mereçam, mas é que venho percebendo a algum tempo uma dificuldade geral em criar filhos, principalmente no quesito compreensão mútua e paciência. A começar pela minha.
E ontem numa conversa entre amigas mencionei um livro que me ajudou e fiquei de passar mais detalhes para elas depois. Mas achei que talvez fosse melhor escrever algo um pouco mais aprofundado.

Ainda grávida, minha doula me emprestou um livro muito interessante e que foi o princípio da minha mudança na maneira de ver os bebês e crianças.
O livro se chama Besame mucho - Como criar seus filhos com amor, do pediatra espanhol Carlos Gonzalez. Eu até hoje não achei ele para comprar, então só consegui terminar de lê-lo por um pdf que achei na internet (quem quiser me escreve que eu envio). Mas se você procurar pelo nome do autor vai encontrar vários textos dele bastante interessantes.
Para mim foi um mundo novo que se abriu. Coisas como: não pega seu bebê muito no colo senão vai acostumar mal, não pode dormir junto com os pais porque senão vai ser assim pra sempre, tem que desmamar logo porque senão vai ficando pior... tem que deixar chorar um pouco pra não ficar cheio de vontade, entre outros mitos do mesmo estilo foram caindo por terra.
Neste post do blog Potencial Gestante tem um link para download do livro em espanhol se alguém quiser se aventurar.
Um pouco depois conheci a Cientista que Virou Mãe e seu post incrível sobre deixar bebês chorando, clique aqui.  Sobre o uso da chupeta. Entre outros autores sobre ignorar as birras. Sobre o "terrible two".
Depois disso surgiu a Criação com Apego, amamentação em livre demanda, cama compartilhada, sling, e um mundo sem fim de informações e transformações que foram ocorrendo.

Mas esse foi o caminho que eu trilhei, porque eu ia tendo dúvidas, dificuldades, e fazia o que sempre soube fazer. Ia pesquisar e ver as possibilidades de se resolver o problema. Graças a Deus nem todo mundo é assim, e por um tempo eu sofri até aceitar isso. Eu lia um mundaréu de coisas e queria que as outras mães também lessem, pelo potencial transformador dessas informações.
Porém, a transformação é uma porta que só se abre por dentro. E me conscientizei de que não havia chance de eu colocar nada na cabeça de ninguém, e que da mesma maneira eu encontrei essas informações, caso alguém sentisse necessidade de mudar também daria um jeito de encontrá-las ou de encontrar algo que fizesse sentido para cada um.

Conforme o Dudu foi crescendo, outras dificuldades foram surgindo. Suas vontades foram aparecendo, sua curiosidade, e de repente me vi em apuros e gritando com ele. Fiquei transtornada... não era isso que eu queria!! Eu tinha lido e estudado tanto, como que não conseguia colocar em prática?
Primeiro veio a compreensão do que se movimentava dentro de mim.
Depois, eu sendo absolutamente e totalmente contra qualquer tipo de violência contra crianças (incluindo gritos e rótulos), comecei a reconhecer o meu lado que precisava de ajuda. Então muitos textos me ajudaram na época. Esse aqui sobre palmadas da Cientista que virou mãe é um. Este outro da Luzinete. O Livro da Maternagem também é bastante elucidativo. E por fim o livro da Lígia:  Educar sem violência - criando filhos sem palmadas.

Compreender o que meu filho tenta expressar quando faz uma birra é uma experiência fantástica desde que eu aprendi a olhar além da relação de poder (eu mando, você obedece), desde que aprendi a perceber sua necessidade, desde que aprendi a ouvi-lo e a ajudá-lo a se expressar de outra maneira.

Não foi fácil, não é fácil. Ainda tenho imensa dificuldade em inúmeros aspectos. Mas depois disso meu maternar tem sido muito mais tranquilo, prazeroso e com menos remorço.
Para mim o crucial foi entender o que acontecia com ele, de acordo com sua fase de desenvolvimento, e muito mais o que acontecia comigo.
Para isso, recomendo Laura Gutman e seu livro: Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra.

Por isso brinco que a maternidade foi um catalizador das mudanças em mim. Sempre me lembro da explicação clássica do que é um catalizador numa reação química: uma substância que acelera potencialmente uma reação mas que ao final é liberado da mesma maneira que entrou. Ou seja, ele não é transformado, mas sem ele a reação poderia inclusive nunca acontecer.
Assim eu vejo a maternidade: um melhorador de alma, um catalizador do amor, desde que nos entreguemos a ela e permitamos nos ouvir, compreender, amar. Porque não tem força mais poderosa nesse mundo que a do exemplo: se eu não quero que meu filho grite, eu não vou gritar com ele. Se eu não quero que ele bata, eu não vou bater nele. Se eu quero que ele seja compreensivo, tenho que primeiro compreende-lo. E por aí vai... ao infinito e além :)

Outros links úteis:
Criação com apego
http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2012/08/criacao-com-apego-verdades-mentiras.html
http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2012/02/attachment-parenting-criacao-com-apego.html
http://paizinhovirgula.com/
http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2015/07/quando-o-amor-aos-filhos-ressignifica.html

Soluções e dicas
http://paizinhovirgula.com/disciplina-positiva-primeiros-passos/
http://paizinhovirgula.com/cantinho-do-pensamento-por-que-e-uma-porcaria/
http://paizinhovirgula.com/criacao-com-apego-birra-manha-e-afins/
http://paizinhovirgula.com/12-alternativas-para-o-castigo-disciplina-positiva/
http://cirandamaterna.blogspot.com.br/2012/09/supermercado-com-criancas.html?q=compras

Ciência
http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2013/08/filhos-saudaveis-nao-brotam-no-jardim.html

Compreendendo seu filho
http://cirandamaterna.blogspot.com.br/2013/12/nao-me-deixe-para-tras.html
http://portal.aprendiz.uol.com.br/arquivo/2013/08/08/o-dia-em-que-parei-de-mandar-minha-filha-andar-logo/

Blogs e comunidades interessantes
Não pule da janela
Vila Mamífera
Maternar Consciente
Conexão pais e filhos (fanpage)
Maternidade Consciente (grupo)
Bater em Criança é Covardia (fanpage)

Congresso online
http://maternagemconsciente.com.br/
Para pensar:



E para você, o que faz sentido?


quarta-feira, 6 de maio de 2015

Onde se perdeu?

O Dudu fez 3 anos dias atrás. E misteriosamente, algumas coisas se resolvem dentro de mim neste período...
Dessa vez surgiu uma pergunta, referente a certos fatos que demorei a admitir, aceitar, compreender.
Durante boa parte da minha vida eu me senti desconectada de mim mesma. Nunca conseguia discernir muito bem o que dizia minha voz interior. Sempre haviam infinitas perguntas e pouco espaço silencioso para as respostas surgirem. Com isso minha mente se alimentava de perguntas e mais perguntas.
Mas em alguns momentos eu comecei a perceber que simplesmente sentia o que era preciso fazer e ia lá e fazia. Quando decidi não imendar um doutorado foi assim, e o mesmo quando decidi ir para Portugal fazer woofing e conhecer o Júnior. Parecia loucura, havia alguns riscos, mas incrivelmente eu não sentia medo nenhum ou dúvida alguma sobre o que deveria fazer. E tudo corria muito bem.
Exceto no aspecto profissional, mas isso é outro assunto.
Quando engravidei e minha colega de trabalho me emprestou o livro do Ric Jones - Memórias do Homem de Vidro, eu voltei a sentir uma dessas certezas. Ao terminar o livro eu tinha total e absoluta certeza no meu coração que eu queria que o Dudu nascesse em casa. Não queria ter que ir para o hospital. Eu sabia que assim as coisas não iriam correr bem. Me conhecia o suficiente para saber minhas necessidades.
Mas as pessoas ao meu redor não. Então comecei uma "batalha". Primeiro para convencer meu esposo de que eu precisava de uma doula nesse momento. Ele concordou, entrevistamos várias mulheres e encontramos a nossa. Agora eu precisava mostrar a ele porque eu queria ter nosso filho em casa. Eu virei a "maluca" do parto. Mandava-lhe vídeos, textos, conversei com um enfermeiro obstetra, assistimos documentários, inúmeros vídeos de parto. Contei-lhe do meu medo e ir para o hospital. Mas ele disse que não se sentia seguro para que nosso filho nascesse em casa. Preferia que eu fosse para o hospital.
Meu medo só aumentava, junto com a minha barriga. Me lembro de uma vez em que chorei desesperadamente ao falar com meus pais pelo skype explicando-lhes também que eu não queria ir ao hospital para ter o Dudu. Eles concordavam com o Júnior e me senti desamparada e incompreendida. Até quando comentei com a nossa doula que gostaria muito de um parto domiciliar, ao qual ela disse que havia conversado com o Ricardo Jones e que ele havia recomendado um parto hospitalar devido a um problema de tireóide que tenho. O problema em si não exclui a possibilidade de parto domiciliar, o porém seria se eu tivesse alguma complicação e a repercussão que isso poderia ter.
Não me convenceu, só serviu para me sentir ainda mais incompreendida e desamparada.
O resultado eu já contei aqui no meu relato de parto.

Por esses dias então andei pensando: onde estava a menina que ouvia seu coração e cruzava o oceano rumo ao desconhecido?
Eu não tinha confiança suficiente para sustentar minha escolha naquele momento.
Não me "empoderei", por me sentir sozinha, incompreendida, desamparada. Por eu mesma duvidar da minha capacidade de parir.
Junto a isso, eu cedi conscientemente aos desejos alheios por pensar que talvez estivesse sendo intolerante ao querer que fosse feita somente a minha vontade.
Ao tentar (forçosamente) superar esse meu medo, ao não encontrar forças para isso, eu inconscientemente me desconectei.
Me lembro de passada as 41 semanas de gestação, minha doula perguntar se eu estava com medo de alguma coisa, e eu responder que não, que estava tudo bem.
MENTIRA: eu tava morrendo de medo de ir parir no hospital. Eu não queria aquilo! Mesmo sabendo que esse meu medo era pior, pois acabaria tendo que ter o parto induzido, eu não conseguia lidar com isso. Mas eu não conseguia verbalizar isso. Todo o processo até ali já tinha me deixado tão triste, e aflita. Era o momento mais importante da minha vida. E eu não consegui sustentar a minha escolha. Me permiti ser refém dos desejos alheios.

De novo eu me pergunto: onde se perdeu a menina super confiante?

Ainda não encontrei resposta para isso, mas questionar-se é o primeiro passo. Agora é questão de tempo.
Reconhecer que essa voz se perde em alguns momentos é como um insight. Hoje aprendo diariamente como fortalecer, como reconhecer, como buscar, como encontrá-la.
Só assim será possível ser fiel a própria alma.

Confiscado.


sábado, 1 de novembro de 2014

feminismo, política e a ditadura do discurso

Há tempos que estou para escrever este texto! Hoje finalmente acho que consigo registrar e organizar minhas ideias.

Conforme fui me descobrindo feminista, fui percebendo o peso que essa escolha trazia para algumas pessoas.
Era como se eu "automaticamente", aceitasse, praticasse, e vivenciasse todas as "normas da cartilha feminista". Cartilha esta, que era determinada pelo conceito que a pessoa desenvolveu sobre o feminismo.
Pensei, pensei e vi que muitas vezes, além do pré-conceito que desenvolvemos (sim, como interpretamos determinada coisa é responsabilidade nossa) sobre determinados assuntos, criamos também uma coisa que chamei de ditadura do discurso.
Essa limitação imposta pelo outro tem um peso muito grande numa relação, seja de amizade, familiar ou profissional.
Com o tempo fui reparando que essa ditadura existia em outras áreas também, como a política.
É uma espécie de intolerância, de incompreensão de um lado da conversa por não entender como o outro pode pensar de determinada maneira: "Como aquela pessoa pode apoiar a Dilma/Aécio?"
"Será que ela não percebe o mal que ele/ela fez?"

Já comentei aqui como é difícil nos colocarmos no lugar do outro. E acredito que nesta questão política é a mesma coisa. Cada um tem seus argumentos, seu ponto de vista.
Mas no facebook continua pipocando termos, frases, imagens, às vezes irônicos, às vezes "despretenciosos", às vezes escancarados mesmo sobre a política e suas consequências.
Acho saudável e válido a discussão que venho observado recentemente sobre o assunto. Mas me parece que algumas vezes a discussão parte para o sectarismo.
Nos falta perceber que acima de quem está ou não no poder, somos uma nação única, e a divisão clamada por muitos, pode começar assim: "queria ver quem estava comigo", "quero saber quem compactua com a minha opinião".
E minha pergunta é: que diferença isso vai fazer? Se a riqueza de tudo está justamente na troca de opinião. Afinal, é fácil conversar com quem concorda com a gente. O difícil é manter uma conversa respeitosa (sem influência do ego) com quem difere completamente do nosso modo de pensar.
E é aqui que o feminismo entra de novo.
Não é por eu me considerar feminista (em alguns aspectos) que eu acho que o pai não deveria participar da criação do filho por exemplo. É justamente o contrário! Um pai participativo, que divide a ardua tarefa de criar um filho com a mãe, compreendeu que a educação do filho também é responsabilidade dele, ultrapassou as fronteiras do machismo e da divisão de tarefas e com isso exerce o seu papel em plenitude.
Mas muitas vezes, engessados que estamos pela ditadura do discurso, consideramos que as feministas não querem homens por perto, que para elas os homens não prestam e por aí vai morro abaixo. Divisão, sectarismo de novo.

Por isso, considero muito válido, quando em uma conversa polêmica, nos certificamos plenamente do que determinado conceito significa para o outro, e um pouco mais difícil talvez, aceitar o direito do outro de pensar daquela maneira.
Não é porque está no dicionário que "a" também faz parte de "z" que para TODAS as pessoas do mundo "a" será exatamente igual a "z". Existe uma miríade de possibilidades entre "a" e "z"

Outro exemplo que gostaria de mencionar ainda sobre o feminismo e sua suposta "cartilha" é quanto a liberdade de escolha da mulher. Demorei um pouco para compreender o que isso tinha a ver com o aborto.
Então, se a mulher tem plenos direitos sobre seu corpo, teria plenos direitos de fazer um aborto, pois afinal, é o seu corpo!
E este é um ponto crucial em que eu discordo pois considero que acima desse direito, existe o direito a vida, que é superior ao meu direito de escolha (que pode ter sido exercido com irresponsabilidade e a gravidez seria apenas uma consequência dessa escolha).
Um outro ponto que considero interessante é que existem muitas pessoas que defendem a educação não violenta e consideram bater/maltratar/matar crianças um crime (não que não seja, por favor!). Mas consideram que bater/maltratar/matar um embrião/feto seja um direito.
Eu nunca tinha pensado por esse lado, mas não soa incoerente?
De novo, não é tudo vida?
Ou porque me considero feminista eu deveria também ser a favor do aborto?

Por fim, espero que cada um dos que me lêm possam perceber em si próprios onde está a sua intolerância, o seu desrespeito para com as ideias dos outros, enfim, onde temos a ditadura do discurso...

Agradeço as possíveis contribuições que possam surgir a este texto e mais ainda, agradeço o respeito pelas ideias de cada um. :)


quarta-feira, 2 de julho de 2014

o meu, o seu, o nosso lado

Você não consegue ver o meu lado na história.

Estão me julgando sem saber o meu passado, ou o que me levou a ter certas atitudes. 

Será que é tão difícil para você se colocar no meu lugar e imaginar como reagiria? 

Quem você/ele/ela pensa que é para me julgar assim? 

"Você não se lembra da minha história,
 
Você nunca andou pelo meu caminho,
 
Você não viu o que eu vi.
Meu passado me define,
 
Isso é o que eu sou."

Essas são frases que tenho ouvido com certa frequência e curiosamente, em diferentes ocasiões, com diferentes pessoas. E que depois de um tempo me fazem pensar, pois chegou uma hora que parei e pensei: e o meu lado? 

Queremos que entendam o nosso lado. Queremos ser compreendidos. Mas acima de tudo: queremos ser acolhidos. 
Queremos que compreendam o porquê de nossas atitudes, quando em muitos casos, nem nós compreendemos. 
Não compreendemos e muitas vezes nem percebemos nosso julgamento para com o outro.

Será que quando julgamos o outro, inconscientemente dizemos para nós mesmos que somos melhores que ele?

Mas a verdade é que é muito difícil compreender o lado do outro. Justamente pelo que está escrito acima:
"Você nunca andou pelo meu caminho"
É ou não é? 
Quem já andou pelo seu caminho além de vc?

Sabendo que esse caminho nos influencia tão profundamente, como podemos esperar que o outro nos compreenda, quando em muitas ocasiões, nem nós nos compreendemos???
Não faz sentido na minha cabeça...
Mas mesmo assim, continuamos a espera da compreensão.

Porque compreensão também quer dizer aceitação. Quando eu te compreendo quer dizer que te aceito, mesmo que não concorde com a sua atitude. Apenas compreendo que em decorrência da sua história de vida, da sua vivência, você tomou determinada atitude. Não quer dizer que eu faria igual, que eu ache que você está certa, ou que tudo bem para mim você agir assim. Apenas quer dizer que eu compreendo que essa é a sua maneira de lidar com tudo o que te aconteceu. Que essa é a tua maneira única e exclusiva de agir. 

Isso para mim seria compreensão... 

Ou talvez eu tenha uma dificuldade imensa de me colocar no lugar do outro e imaginar o porquê de seu sofrimento. Já que em algumas situações, aquilo não seria um sofrimento para mim. Para mim. 
Mas para o outro não!!!!!!!!
Para o outro aquilo é o fim do mundo... 

E aí? 
Vou julgar e dizer que o outro está exagerando?
Sou eu que não compreendo o lado do outro ou o outro que não compreende o meu lado?

Ou será que estamos tão engessados pelo "meu lado" que não me passa sequer pela mente que possa existir uma outra possibilidade? Ou ainda, eu posso perceber essa possibilidade, mas meu gesso emocional não me deixa agarrá-la, porque aí, do que eu irei me lamentar ou reclamar? 

Onde vai dar isso tudo?
Não deveríamos ser empáticos? Isso não é um passo a mais na evolução?
Mas continuamos querendo que entendam o nosso lado...

Um outro exercício:
Ok, eu te compreendo. E agora? O que mudou?
Eu aceito ou não a sua atitude porque te compreendo?
Compreender vai mudar alguma coisa em mim? Pode ser que sim, pode ser que não...

Compreensão não quer dizer aceitação da atitude ou concordância. É passivo. Quer dizer sim, aceitação da pessoa como um todo. 

E dá para confiscar algo passivo? Ou fica só no imaginário?

Quando Fernanda Takai canta:

"Eu, queria tanto encontrar, uma pessoa como eu, pra quem eu possa confessar, alguma coisa sobre mim..."

Será que é sobre essa compreensão que ela dizia? A compreensão de quem sabe o caminho que trilhou?

Ser compreendido não é ter razão...





sábado, 12 de abril de 2014

informar-se X empoderar-se

O Dudu está próximo de completar 2 anos e junto com isso vem a necessidade de escrever e registrar sobre novos insights que tive ao longo desse 1 ano, principalmente sobre meu "nó emocional", leia-se parto.

1 ano atrás, consegui escrever meu relato de parto e as impressões que tinha na época. Hoje graças a Deus pude ressignificar um pouco mais essa experiência.

Percebo que fui sim vítima de violência obstétrica, vítima do sistema, e também, vítima de mim mesma. Percebo que em alguns aspectos eu "soltei as rédeas", da mesma maneira que fazia quando montava e participava de competições equestres. Soltei e segui a correnteza, ou melhor, segui para onde me levaram: um centro cirúrgico.

O mais marcante para mim foi perceber a diferença entre os termos informar-se e empoderar-se.

Polêmicas a parte, o termo empoderar-se surgiu na minha vida quando engravidei e tive contato com o mundo da humanização do parto.

No início, não gostei do termo e da maneira que era empregado. A palavra poder sempre me intimidou um pouco. E optei por não utilizá-la quando falava sobre o assunto. Só por isso, já tenho um começo que me direcionou ligeiramente para outro rumo.

Me informei MUITO durante a gravidez. Li algumas dezenas de artigos, assisti uns 10 filmes sobre o assunto e li quase uma centena de relatos de parto. No meu próprio relato de parto já havia chegado a conclusão que esse talvez tivesse sido um problema. Hoje penso que mais que um problema, essa informação toda me iludiu. E para tentar explicar isso, preciso usar um exemplo da minha experiência acadêmica.

Em toda minha vida acadêmica, sempre tive notas muito boas, modéstia a parte, me formei entre os 3 melhores alunos da minha turma na faculdade, passei em segundo lugar no vestibular e em segundo lugar também no mestrado. Mas como sempre ouvimos falar, notas não significam muita coisa, e é verdade. Por que? Porque na maioria das vezes, eu sempre tive uma noção geral do assunto e do seu mecanismo. Mas não tinha tudo aquilo dentro da minha cabeça. Sempre precisei de um ponto de início, um fio da meada para me localizar. O modelo de avaliações pelas quais passamos me serviam muito bem neste aspecto. Tanto que nas raríssimas disciplinas que ofereciam questões discursivas nas avaliações, minhas notas já não foram tão especiais assim. Por isso, sempre senti que meu conhecimento, de certa forma, também era uma ilusão, pois não era capaz de armazenar toda a informação necessária para explicar alguma coisa de forma detalhada, como eu acreditava ser necessário caso eu realmente tivesse absorvido e vivenciado o conhecimento.

Vivenciado.

Essa palavra significa muito. E é aqui que as coisas se encontram. Pois acredito que é a partir do momento que incorporamos, engolimos, absorvemos, internalizamos as coisas, que elas passam a fazer parte de nós e tem o poder de mudar nossos hábitos, atitudes, nosso rumo.
Eu me informei sobre o parto, tinha certeza da minha escolha, me preparei como mandava o protocolo (quanta inocência): fiz um plano de parto, tinha uma doula, visitei a maternidade, me certifiquei das possibilidades, me informei, sabia dos meus direitos, tinha um companheiro que me apoiava como podia. Só não tinha um médico de confiança, o que em Portugal não era coisa fácil, pois lá, pelo menos na época, não haviam médicos humanizados (até onde eu sabia).
Mas na hora P (de parto), soltei as rédeas. Percebi isso quando li este relato de parto. No momento que ela questiona a necessidade de mais um CTG durante seu trabalho de parto e entra num acordo de 5 minutos.
"Era isso que eu devia ter feito!!!!!!"
Foi a primeira coisa que me veio na cabeça. Insight.
Mas meu medo de que meu lado intelectual intervisse na hora P, que deveria ser uma hora puramente fisiológica e instintiva, fez com que eu não questionasse certas atitudes, procedimentos, nem nada do tipo. Na minha cabeça, eu havia delegado essa responsabilidade para meu esposo e minha doula. Que fizeram o seu melhor dentro das possibilidades. Mas a hora P era a minha hora. Eu deveria ter assumido essa responsabilidade, me empoderado e lutado pelo que eu queria.

Não tiro a culpa do sistema muito menos do médico.
Eu só queria que me deixassem em paz.


Mas 2 anos depois, eu percebo e assumo minha parcela de responsabilidade pelo que me aconteceu.
Isso faz parte do crescimento, do amadurecimento, do preocessamento do "luto" pelo meu "não parto", e me sinto privilegiada por ter conseguido pensar nisso.

Apreendido. Confiscado. Amarrado.

Pois não foi apenas nesse momento que fiz isso. Quantas e quantas vezes ignorei (consciente ou inconscientemente), coisas que não gostava, e soltei as rédeas, por inúmeros motivos. E depois chorei pelos resultados que recebia.
Quantas e quantas vezes "dormi", psicologicamente falando, quando não fui plenamente consciente do momento presente e do que se movimentava dentro de mim. Ignorando o que queria, por medo de enfrentar certas coisas.
Quantas coisas não confisquei...

Que cada vez mais, sejam menos coisas...

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Dicotomia

A primeira vez que ouvi essa palavra foi durante um evento do movimento estudantil. O rapaz que falava, argumentava usando muitas vezes essa palavra. Soava bem no seu discurso. Mas na minha ignorância, não percebia o que ele queria dizer.
Então, segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa:
dicotomia 
(grego dikhotomía, divisão em dois) 
s. f.
1. Divisão em dois; oposição entre duas coisas.
2. Partilha ilícita de honorários entre médicos.
3. [Astronomia]  Fase da Lua, ou de outro planeta ou satélite, quando é visível com uma metade iluminada.
4. [Botânica]  Modo de divisão de certas hastes em ramos bifurcados.

5. [Lógica]  Divisão de um conceito em dois outros que abrangem toda a sua extensão.

Enfim, no seu discurso, o tal rapaz queria mostrar o abismo que havia entre duas coisas. Que aparentemente não pareciam tão separadas assim. Ou pelo menos que eu me lembre.

E hoje de manhã acordei com essa palavra na cabeça. E resolvi escrever, porque as vezes a dicotomia vem de onde menos esperamos. Como uma cobra sorrateira. E de repente acordamos e percebemos ela lá. Pimba! Como dizem em Portugal. 

E é aí que entra a tolerância. Como lidar com visões de mundo tão distintas?! Não dá para bater de frente, tentar convencer o outro, mesmo que você tenha provas científicas muito bem embasadas. E por que? Porque depende primeiro de tudo, da disponibilidade do outro. Disponibilidade em perceber, aceitar, deixar o ego de lado, se entregar a compreensão. Sempre gostei dessa palavra. Compreensão. Porque pressupõe algo maior do que simplesmente entender. Me lembro, de um dos marcos de minha adolescência, um dos filmes "Karatê Kid", em que o Sr. Miagui olha para o Daniel San e diz: Compreende? Porque o que ele estava tentando explicar ali não precisava de palavras. Precisava do coração. Compreender é entender com o coração. E aqui nem adianta colocar a definição do dicionário porque ela é muito restrita. Compreender é subjetivo. Requer complexidade, empatia. 
Nem sempre compreensão significa ceder. Mas ela já dá uma outra luz na situação. Daquelas que iluminam um pedaço da nossa sombra. E de repente tudo fica mais fácil...

Se em um lado entra tolerância, de outro, a dicotomia também envolve intolerância, e minha nossa, como isso me tira do sério. Tanto a minha intolerância (quando a reconheço) quanto a intolerância irreconhecida, ou negada. 
Mas mesmo negada a intolerância é tão gritante, que reconheço porque dói em mim. Daquela história de que o que mais nos irrita no outro é o que não queremos ver em nós mesmos.
A dicotomia não permite o apoio na discordância. Porque ela parte do princípio do abismo, e se pontes de tolerância não são construídas, o apoio não tem por onde caminhar. 
Talvez seja por isso que eu goste de pontes. O difícil é fazer os dois lados se encontrarem no meio.












quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Comunicação



A comunicação é complexa?
Eu acredito que sim.
Transmitir o que pensamos em fala, de uma maneira que o outro nos compreenda, às vezes me parece tarefa para super-herói.

E porque isso acontece?
Segundo a Wikipedia:
"Cada pessoa, que passamos a considerar como, interlocutor, troca informações baseadas em seu repertório cultural, sua formação educacional, vivências, emoções, toda a "bagagem" que traz consigo. (...)
Cada qual tem um repertório cultural exclusivo e, portanto, transmitirá a informação segundo seu conjunto de particularidades e o receptor agirá da mesma maneira, segundo o seu próprio filtro cultural."
Pronto... está delineado o porque a comunicação é complexa.
Entre duas pessoas, com passados e formações diferentes, será muito difícil que um entenda completamente o que o outro diz.
E os conflitos? Mal-interpretações?
Talvez aconteçam quando nos esquecemos disto. Quando esquecemos que a comunicação é incompleta, e que precisamos ter muita tolerância e paciência, para não acharmos que estamos sendo atacados através das palavras dos outros.
Mas aqui abre-se uma brecha para outro assunto: o de estarmos sempre na defensiva. Então vou tentar explorar um pouco mais sobre a comunicação em si.

No mundo dos negócios, a boa comunicação significa mais dinheiro. E para isso, existem inúmeros gurus que prometem a fórmula da boa comunicação.
Mas e nas relações do dia a dia... como isso acontece? Existe alguma fórmula?
Além das palavras, outros "detalhes" cruciais são o tom de voz, a forma de dizer, a expressão facial e corporal. Já se dizia que os "olhos são o espelho da alma"... mas nem sempre temos sensibilidade suficiente para enxergar os reflexos sutis que aparecem neste espelho. No nosso e no dos outros.
Para tentar comunicar uma mensagem, temos vários meios, e eu particularmente gosto quando elas vem com imagens. Como a foto que aparece no início do post.
"Um dia irei encontrar as palavras certas. E elas serão simples."
Simples, como a expressão deste desejo.
E a coerência?
Para sedimentar o conceito, vamos ao dicionário:
P. ext. Ligação, conexão, de um conjunto de ideias ou de fatos, formando um todo lógico.
Coerência e lógica. Manter o fio do pensamento, ser fiel as palavras.
Mas e quando as palavras não são fiéis ao que queremos realmente dizer?
Ai, quanta complexidade...

Continuo sem saber nada, ou quase nada sobre "boas maneiras de comunicação". Mas estamos aqui para aprender sobre isso também.
E na busca por explicações sobre comunicação, encontro sempre um alento no poeta:
"A palavra manda embora e o corpo pede um abraço" Fabrício Carpinejar
Ahh... então comunicação também tem a ver com fé. Fé no sentimento, e não na palavra. Fé no amor, e não na desavença. Fé na compreensão, e não no erro.

E mais uma vez voltamos ao amor :)

Eu acredito no amor. Acredito que este é o sentimento mais sublime, aquele que, como Deus, as palavras não podem descrever. E acredito que o amor tem a solução para tudo. O livro "O Dom Supremo" é a minha bíblia.




A edição em português é uma adaptação do livro "A melhor coisa do mundo" - The Greatest Thing in the World, de Henry Drummond.
No livro, o autor comenta a passagem bíblica da carta de São Paulo aos Coríntios, Cap. 13. É a famosa leitura, que até Renato Russo musicou: "É só o amor, é só amor, que conhece o que é verdade..." em Monte Castelo.




Mas o que tudo isso tem a ver com comunicação?
Como sempre, as coisas estão interligadas :) A boa comunicação exige amor. Porque junto com o amor, vem a tolerância necessária para reconhecer a incapacidade do outro em expressar seus pensamentos. Junto com o amor, vem a paciência necessária para tentar compreender o outro, e a si mesmo, e nossas dificuldades em nos expressarmos. Porque junto com o amor, vem a humildade, que reconhece nossas limitações de compreensão. E junto do amor, vem o amor; que não é vaidoso, não pune, e simplesmente acolhe e suporta, dando assim as condições básicas necessárias para uma boa comunicação.
Talvez, ainda não seja possível que a comunicação entre seres humanos seja completa a este ponto... mas, temos que praticar, e praticar, e praticar... para apreendermos isto que sempre tenta escapar.


Créditos das fotos: Right Words