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quarta-feira, 6 de maio de 2015

Onde se perdeu?

O Dudu fez 3 anos dias atrás. E misteriosamente, algumas coisas se resolvem dentro de mim neste período...
Dessa vez surgiu uma pergunta, referente a certos fatos que demorei a admitir, aceitar, compreender.
Durante boa parte da minha vida eu me senti desconectada de mim mesma. Nunca conseguia discernir muito bem o que dizia minha voz interior. Sempre haviam infinitas perguntas e pouco espaço silencioso para as respostas surgirem. Com isso minha mente se alimentava de perguntas e mais perguntas.
Mas em alguns momentos eu comecei a perceber que simplesmente sentia o que era preciso fazer e ia lá e fazia. Quando decidi não imendar um doutorado foi assim, e o mesmo quando decidi ir para Portugal fazer woofing e conhecer o Júnior. Parecia loucura, havia alguns riscos, mas incrivelmente eu não sentia medo nenhum ou dúvida alguma sobre o que deveria fazer. E tudo corria muito bem.
Exceto no aspecto profissional, mas isso é outro assunto.
Quando engravidei e minha colega de trabalho me emprestou o livro do Ric Jones - Memórias do Homem de Vidro, eu voltei a sentir uma dessas certezas. Ao terminar o livro eu tinha total e absoluta certeza no meu coração que eu queria que o Dudu nascesse em casa. Não queria ter que ir para o hospital. Eu sabia que assim as coisas não iriam correr bem. Me conhecia o suficiente para saber minhas necessidades.
Mas as pessoas ao meu redor não. Então comecei uma "batalha". Primeiro para convencer meu esposo de que eu precisava de uma doula nesse momento. Ele concordou, entrevistamos várias mulheres e encontramos a nossa. Agora eu precisava mostrar a ele porque eu queria ter nosso filho em casa. Eu virei a "maluca" do parto. Mandava-lhe vídeos, textos, conversei com um enfermeiro obstetra, assistimos documentários, inúmeros vídeos de parto. Contei-lhe do meu medo e ir para o hospital. Mas ele disse que não se sentia seguro para que nosso filho nascesse em casa. Preferia que eu fosse para o hospital.
Meu medo só aumentava, junto com a minha barriga. Me lembro de uma vez em que chorei desesperadamente ao falar com meus pais pelo skype explicando-lhes também que eu não queria ir ao hospital para ter o Dudu. Eles concordavam com o Júnior e me senti desamparada e incompreendida. Até quando comentei com a nossa doula que gostaria muito de um parto domiciliar, ao qual ela disse que havia conversado com o Ricardo Jones e que ele havia recomendado um parto hospitalar devido a um problema de tireóide que tenho. O problema em si não exclui a possibilidade de parto domiciliar, o porém seria se eu tivesse alguma complicação e a repercussão que isso poderia ter.
Não me convenceu, só serviu para me sentir ainda mais incompreendida e desamparada.
O resultado eu já contei aqui no meu relato de parto.

Por esses dias então andei pensando: onde estava a menina que ouvia seu coração e cruzava o oceano rumo ao desconhecido?
Eu não tinha confiança suficiente para sustentar minha escolha naquele momento.
Não me "empoderei", por me sentir sozinha, incompreendida, desamparada. Por eu mesma duvidar da minha capacidade de parir.
Junto a isso, eu cedi conscientemente aos desejos alheios por pensar que talvez estivesse sendo intolerante ao querer que fosse feita somente a minha vontade.
Ao tentar (forçosamente) superar esse meu medo, ao não encontrar forças para isso, eu inconscientemente me desconectei.
Me lembro de passada as 41 semanas de gestação, minha doula perguntar se eu estava com medo de alguma coisa, e eu responder que não, que estava tudo bem.
MENTIRA: eu tava morrendo de medo de ir parir no hospital. Eu não queria aquilo! Mesmo sabendo que esse meu medo era pior, pois acabaria tendo que ter o parto induzido, eu não conseguia lidar com isso. Mas eu não conseguia verbalizar isso. Todo o processo até ali já tinha me deixado tão triste, e aflita. Era o momento mais importante da minha vida. E eu não consegui sustentar a minha escolha. Me permiti ser refém dos desejos alheios.

De novo eu me pergunto: onde se perdeu a menina super confiante?

Ainda não encontrei resposta para isso, mas questionar-se é o primeiro passo. Agora é questão de tempo.
Reconhecer que essa voz se perde em alguns momentos é como um insight. Hoje aprendo diariamente como fortalecer, como reconhecer, como buscar, como encontrá-la.
Só assim será possível ser fiel a própria alma.

Confiscado.


sábado, 12 de abril de 2014

informar-se X empoderar-se

O Dudu está próximo de completar 2 anos e junto com isso vem a necessidade de escrever e registrar sobre novos insights que tive ao longo desse 1 ano, principalmente sobre meu "nó emocional", leia-se parto.

1 ano atrás, consegui escrever meu relato de parto e as impressões que tinha na época. Hoje graças a Deus pude ressignificar um pouco mais essa experiência.

Percebo que fui sim vítima de violência obstétrica, vítima do sistema, e também, vítima de mim mesma. Percebo que em alguns aspectos eu "soltei as rédeas", da mesma maneira que fazia quando montava e participava de competições equestres. Soltei e segui a correnteza, ou melhor, segui para onde me levaram: um centro cirúrgico.

O mais marcante para mim foi perceber a diferença entre os termos informar-se e empoderar-se.

Polêmicas a parte, o termo empoderar-se surgiu na minha vida quando engravidei e tive contato com o mundo da humanização do parto.

No início, não gostei do termo e da maneira que era empregado. A palavra poder sempre me intimidou um pouco. E optei por não utilizá-la quando falava sobre o assunto. Só por isso, já tenho um começo que me direcionou ligeiramente para outro rumo.

Me informei MUITO durante a gravidez. Li algumas dezenas de artigos, assisti uns 10 filmes sobre o assunto e li quase uma centena de relatos de parto. No meu próprio relato de parto já havia chegado a conclusão que esse talvez tivesse sido um problema. Hoje penso que mais que um problema, essa informação toda me iludiu. E para tentar explicar isso, preciso usar um exemplo da minha experiência acadêmica.

Em toda minha vida acadêmica, sempre tive notas muito boas, modéstia a parte, me formei entre os 3 melhores alunos da minha turma na faculdade, passei em segundo lugar no vestibular e em segundo lugar também no mestrado. Mas como sempre ouvimos falar, notas não significam muita coisa, e é verdade. Por que? Porque na maioria das vezes, eu sempre tive uma noção geral do assunto e do seu mecanismo. Mas não tinha tudo aquilo dentro da minha cabeça. Sempre precisei de um ponto de início, um fio da meada para me localizar. O modelo de avaliações pelas quais passamos me serviam muito bem neste aspecto. Tanto que nas raríssimas disciplinas que ofereciam questões discursivas nas avaliações, minhas notas já não foram tão especiais assim. Por isso, sempre senti que meu conhecimento, de certa forma, também era uma ilusão, pois não era capaz de armazenar toda a informação necessária para explicar alguma coisa de forma detalhada, como eu acreditava ser necessário caso eu realmente tivesse absorvido e vivenciado o conhecimento.

Vivenciado.

Essa palavra significa muito. E é aqui que as coisas se encontram. Pois acredito que é a partir do momento que incorporamos, engolimos, absorvemos, internalizamos as coisas, que elas passam a fazer parte de nós e tem o poder de mudar nossos hábitos, atitudes, nosso rumo.
Eu me informei sobre o parto, tinha certeza da minha escolha, me preparei como mandava o protocolo (quanta inocência): fiz um plano de parto, tinha uma doula, visitei a maternidade, me certifiquei das possibilidades, me informei, sabia dos meus direitos, tinha um companheiro que me apoiava como podia. Só não tinha um médico de confiança, o que em Portugal não era coisa fácil, pois lá, pelo menos na época, não haviam médicos humanizados (até onde eu sabia).
Mas na hora P (de parto), soltei as rédeas. Percebi isso quando li este relato de parto. No momento que ela questiona a necessidade de mais um CTG durante seu trabalho de parto e entra num acordo de 5 minutos.
"Era isso que eu devia ter feito!!!!!!"
Foi a primeira coisa que me veio na cabeça. Insight.
Mas meu medo de que meu lado intelectual intervisse na hora P, que deveria ser uma hora puramente fisiológica e instintiva, fez com que eu não questionasse certas atitudes, procedimentos, nem nada do tipo. Na minha cabeça, eu havia delegado essa responsabilidade para meu esposo e minha doula. Que fizeram o seu melhor dentro das possibilidades. Mas a hora P era a minha hora. Eu deveria ter assumido essa responsabilidade, me empoderado e lutado pelo que eu queria.

Não tiro a culpa do sistema muito menos do médico.
Eu só queria que me deixassem em paz.


Mas 2 anos depois, eu percebo e assumo minha parcela de responsabilidade pelo que me aconteceu.
Isso faz parte do crescimento, do amadurecimento, do preocessamento do "luto" pelo meu "não parto", e me sinto privilegiada por ter conseguido pensar nisso.

Apreendido. Confiscado. Amarrado.

Pois não foi apenas nesse momento que fiz isso. Quantas e quantas vezes ignorei (consciente ou inconscientemente), coisas que não gostava, e soltei as rédeas, por inúmeros motivos. E depois chorei pelos resultados que recebia.
Quantas e quantas vezes "dormi", psicologicamente falando, quando não fui plenamente consciente do momento presente e do que se movimentava dentro de mim. Ignorando o que queria, por medo de enfrentar certas coisas.
Quantas coisas não confisquei...

Que cada vez mais, sejam menos coisas...

terça-feira, 9 de julho de 2013

o meu relato de parto

O Dudu já tem 1 ano e 2 meses. E só agora me deu vontade de escrever um relato de parto "público", digamos assim.
Já escrevi outras 2 descrições sobre a minha experiência. Uma para a Enfermeira Ofélia Lopes. Ela estava de plantão no dia 30 de abril de 2012 e nos acompanhou no parto. Como eu tinha um plano de parto, ela perguntou se eu e meu esposo poderiamos ajudá-la em sua pesquisa sobre a experiência de termos um plano de parto. Concordamos de imediato e escrevemos algo em torno de 6 páginas para ela, respondendo algumas perguntas que eram o foco de sua pesquisa. Para mim foi muito mais que isso. Foi meu primeiro desabafo.
Depois, perto do aniversário de 1 ano do Dudu eu escrevi o meu "feedback dos serviços prestados" ao hospital Garcia de Orta, em Almada, Portugal, que foi onde meu filho nasceu. Esse, mais que um desabafo, foi uma crítica ácida e amarga ao sistema e à maneira que fui tratada. Não tive dó, contei o que aconteceu, citei nomes, fui irônica, questionei, abri as portas da revolta. E nem assim é possível dimensionar o tamanho da ferida. Não sei se vão ler o que escrevi, pois de novo, lá se foram 6 ou 7 páginas. Mas eu precisava fazer isso, precisava mostrar para eles e para o "sistema" onde estavam os erros e os acertos. É meu dever como cidadã!
Agora, depois de ter algumas coisas mais claras e tranquilas em meu coração. Depois de perder as contas de quantos relatos de parto já li. Depois de perceber que é importante contarmos nossas experiências pois outros podem precisar da nossa informação. Resolvi tornar público a minha experiência de parto.

Inconscientemente, ou nem tanto, meu maior sonho era engravidar e ter filhos. Uma das provas disso é que no meu relatório final de estágio na faculdade, meu primeiro agradecimento foi:
"A Deus, pelo pôr do sol, sorrisos de bebê, pelas folhas dançando com o vento, pelo céu estrelado que me mostravam que eu não estava sozinha em mais essa jornada."
Em 2011, eu e meu esposo conversamos e resolvemos que estava na hora. Em agosto descobri que estava grávida, apenas 1 mês e meio depois de começarmos a tentar. Maravilha!
Nós morávamos em Portugal e eu não conhecia nenhum obstetra de confiança por lá, meus pais estavam no Brasil e eu me sentia bastante insegura com as informações sobre gravidez e parto, ou melhor, pela falta delas. Por isso, depois de convencer meu esposo, decidimos encontrar uma doula para nos acompanhar nesta etapa. Graças a minha colega de trabalho que havia me emprestado o livro do Dr. Ricardo Jones que já comentei aqui, conheci a Associação Doulas de Portugal. Lá tem uma lista de doulas, e com base nas descrições, contato por e-mail, selecionamos algumas para conhecermos pessoalmente e depois finalmente escolhemos a nossa doula, a Ana Raposeira. O processo de escolha levou em conta a empatia que sentíamos, pois consideramos que esse seria o aspecto mais importante para nós naquele momento.
Com a Ana, tivemos mais informações a respeito da situação do evento parto em Portugal e as perspectivas não eram das melhores. Movimento de hospitais e médicos no sentido de humanização - praticamente zero!
A opção que me deixava mais segura, era a do parto domiciliar. Não queria interferências tecnológicas desnecessárias (depois de muito ler sobre medicina baseada em evidências) e para mim essa seria a melhor opção para receber o meu filho, como já falei um pouco aqui.
Mas meu esposo não concordava, e por eu ter um problema na tireóide (tireoidite auto-imune, que não é nada de grave) juntando ao fato de não haver em Portugal obstetras que acompanhem parto domiciliar, minha doula depois de conversar com o Dr. Ricardo Jones, também não recomendou um parto domiciliar. Eu cedi, e começei a me informar sobre maternidades e suas opções.
Eu era acompanhada no Hospital Garcia de Orta, pois era o mais próximo de onde morávamos. E apesar de ter lido alguns relatos de parto neste hospital muito tristes, li outros muito bonitos, e minha cunhada disse que havia sido super bem tratada durante o parto. E havia um inclusive, que dizia ter sido permitido a presença da doula e do esposo. Resolvi então visitar o bloco de partos. Falei por e-mail com a Enf. Chefe Rosalia Marques e agendei a visita.
A enfermeira me recebeu super bem, me mostrou as instalações, respondeu todas as minhas dúvidas e deu seu parecer sobre o meu plano de parto. As restrições seriam quanto a monitorização fetal contínua (o tal CTG) que seria impossível de evitar, mas que havia um "CTG sem fio", que permitiria minha movimentação, e a presença de meu esposo e da doula ao mesmo tempo, apesar de ter afirmado que poderia haver alguma flexibilidade dependendo do movimento do bloco de partos.
A Maternidade Alfredo da Costa era muito bem recomendada para quem buscava partos um pouco mais "humanizados". Mas eu li alguns relatos de pessoas que passaram por lá e me pareceu muito mais marketing do que realidade. Outro porém era a distância de casa e o fato do meu processo estar todo já no Garcia de Orta. Decidi ficar pela margem sul mesmo.
O detalhe foi que eu não entrei em trabalho de parto no tempo normal.
Fiz de tudo, auto indução nos pontos de acupuntura, caminhava quase 1 h todos os dias, na praia inclusive, fiz coisas gostosas, descansei, namorei, fiz faxina, rezei...

Antes de ir para o hospital.
Com 41 semanas + 4 dias fui internada para uma indução. Um dos meus medos tornava-se realidade, mas tentei me manter positiva, sempre rezando muito para que desse tudo certo. Tive que dormir no hospital por causa do "protocolo", passar uma noite péssima devido a conversa e alto e bom tom da enferemeira com um médico sobre bolos e o Benfica, e ser "acordada" as 6 da manhã para o banho e meia hora de CTG.
No dia 30 de abril (41s+5), as 9 da manhã, fizeram o toque (1-2cm de dilatação) e a seguir a indução com aplicação de gel de prostaglandina. Duas horas deitada, mais algum tempo de caminhada e quando o almoço e meu esposo chegaram eu já tinha contrações! Meu filho estava chegando :)
Almocei e vomitei tudo em seguida. Quando tenho dores muito fortes eu vomito mesmo... Meu esposo esteve sempre ao meu lado, me apoiando e segurando a minha mão. Mas o horário de visita já tinha acabado e ele teria que sair, pois eu ainda não estava no bloco de partos e só poderia descer quando estivesse em trabalho de parto ativo, ou seja 4 cm de dilatação.
Eu continuei a caminhada pelo corredor, triste por não ter meu marido por perto, e quando a contração vinha eu me posicionava como me dava vontade e expirava um aaahhhhh, sempre mentalizando meu corpo se abrindo para receber o meu filho. A enferemeira por duas vezes me perguntou se eu iria querer a epidural e eu sempre disse que não (caramba, isso já estava no plano de parto, por que me perguntavam??).
Fui tomar uma ducha quente quando então uma colega do quarto veio me avisar que meu marido estava lá do lado de fora a minha espera e que minha doula já estava chegando.
Depois da ducha tive que ficar mais meia hora deitada para o "CTG de rotina" e isso sim foi horrível. Ficar deitada era muito ruim. Outro toque e a enfermeira assustada por eu ter contrações muito fortes e estar vomitando, resolveu me colocar o soro para hidratar. Pronto, já não podia caminhar tão livremente... Mas logo depois já me mandaram para o bloco de partos, devia ser umas 4 ou 5 da tarde. Tive que ir na maca, deitada, mesmo depois de ter perguntado e insistido que eu poderia ir andando ou no máximo de cadeira de rodas. Estranharam, como se fosse algo no mínimo absurdo, e disseram que não, que teria que ser na maca. E lá fui eu para o bloco de partos achando que estaria melhor por lá. Doce engano.
Lá chegando já me olharam torto por eu ter um plano de parto (no departamento da indução também, a enfermeira chefe até veio conversar sobre meu plano de parto).
E já começaram as intervenções: me amarraram no CTG. " E o CTG sem fio?" "Não precisa menina, esse aqui tb dá pra você andar olha..."  E eu dei 3 passos...
Água quente? Só dentro de uma luva de procedimento. Alimento? Tentei chá, mas como vomitava tudo, desisti. Só chupei umas balinhas que a Ana me trouxe para ter energia. Banho? Não. Esposo e doula juntos? Nem pensar. Trocar o esposo pela doula e vice versa? Não, só se for para ir comer e olha lá, onde já se viu, vai atrapalhar as outras parturientes! Enquanto isso o papo rolava solto, em alta voz, atrás da cortina que separava o quarto do resto do bloco de partos.
O quarto que eu estava era lilás, uma das minhas cores prediletas. E tinha um aparelho de som que uma das enfermeiras colocou música para mim... gostosinho. Tinha uma bola de parto e um adesivo de flor na parede.

Mas eis então que uma nuvem cinza se aproximou e trouxe o médico ao meu quarto!
Uma das coisas que a Enf. Chefe havia me dito era que os médicos eram chamados somente em último caso. Eu mal havia chegado, por que então um médico resolve aparecer?
Ele não se apresentou, mas ouvi que seu nome era Luiz Canelas. Logo já quis fazer um toque e começou com a insistência da epidural. E com isso vi uma platéia, literalmente, na porta do quarto, observando minha negativa da analgesia.

Eu vocalizava durante as contrações. Um aaahhh durante a expiração. Me ajudava muito!
Mas meu marido observou que isso começou a incomodar a equipe. E logo o médico veio novamente dizendo que precisava estourar a bolsa, pois "o CTG não está tranquilizador". Eu estava com 5-6 cm de dilatação disse que não queria e então me questionaram: "Mas vai nascer com a bolsa?" Como se isso fosse alguma coisa ruim... Nisso meu marido saiu e a Ana entrou. Falei para ela o que estava acontecendo e ela foi me fazendo massagem na lombar que me ajudou muito!
O médico entrou novamente, dessa vez com uma residente, dizendo que teria que estourar a bolsa, pois podia ter mecônio no líquido aminiótico e me olhou dizendo: "Você sabe o que é mecônio?"
Não respondi, não valia a pena...
Então quem fez o toque foi a residente. E durante uma contração ela manteve os dedos dentro de mim e a bolsa rompeu. Um líquido claro como água escorreu... e o médico virou as costas sem dizer nada.
Detalhes: O CTG sempre parecia "não tranquilizador" pois em vários momentos quando eu me mexia, pegava a minha pulsação, e não do Dudu. As enfermeiras percebiam isso e ajustavam o CTG ou pediam para eu deitar e ficar quieta um pouco para estabilizar o CTG. Mas o médico, que só olha para a tela, via a bomba relógio e começava a intervir desnecessáriamente. Já é comprovado cientificamente que o CTG em vez de trazer segurança, só aumenta a taxa de intervenções e consequentemente de cesarianas.
Cada vez que o médico entrava era um estardalhaço! Acendia as luzes, falava alto, fazia perguntas enquanto eu estava no meio da contração (e não conseguia responder). Total indelicadeza e falta de bom senso.

Com a bolsa rompida as contrações se tornaram mais intensas e as massagens e o toque da Ana foram muito reconfortantes. Mas eu sentia falta do meu marido comigo. Nisso a Enf. Ofélia chegou. Se apresentou falando baixinho, e foi uma verdadeira profissional do parto. Não interviu, conversou comigo sobre a posição para o expulsivo, e disse que se precisasse de alguma coisa poderiamos contar com ela.
Eu continuava vocalizando e me deixaram em paz e no escuro por um bom tempo... Que bom! Até que começei a sentir algo diferente, parecia que tinha vontade de fazer força. Foi nessa altura também que começei a sentir medo. Medo do expulsivo, medo do meu marido não estar lá comigo. Achei que não iria conseguir. Mas agachar entre as contrações me ajudava muito, e ficar na bola também, que gostoso!
Como eu estava com receio de começar o expulsivo e não ter meu esposo comigo, a Ana saiu e ele entrou.

Um tempo depois o médico apareceu e disse que teria que fazer outro toque. As enfermeiras ainda contestaram sua conduta, pois eu estava indo bem e já sentia uma certa vontade de fazer força. Então, num acesso de megalomania o médico diz: "Quem diz se está na hora de fazer força ou não sou eu".

Pausa: me explica, que tipo de estudo um médico desse tem? Desculpem a ironia, mas não me entra na cabeça que um profissional que deveria cuidar da saúde, tenha uma conduta dessa. Eu acho que sei alguns dos poréns do sistema médico, da formação, etc. Mas mesmo assim, não justifica tanta ignorância.

Continuando, o médico insistiu para fazer o toque e me deitaram na cama. Nisso ele retorna com um médico brasileiro e mais a anestesista. Insistem para que eu tome a epidural e mande embora a dor estúpida e sem sentido, nas palavras da anestesista Patrocínio. O médico faz o toque e continuo nos 6 cm.

Pausa: foi aqui que tive a certeza de que eles haviam lido meu plano de parto e decidiram fazer tudo ao contrário. Um dos pontos era extremamente claro: "Agradeço que não me seja oferecida medicação anestésica ou analgésica, a não ser que eu peça explicitamente". Por que então a anestesista fala daquela maneira?

Enfim, com a entrada espalhafatosa do médico e sua trupe, luzes acesas, barulho, eu me desconcentrei e já não conseguia mais relaxar entre as contrações. Ele fez o toque, 6-7 cm. Então, em tom ameaçador ele diz: "seu bebê ainda está alto, se ele não baixar vamos ter que fazer uma cesárea, por isso é melhor você tomar a epidural agora para ver se ele se encaixa". 

E essa é a hora que na perspectiva de um mal maior, cedemos a um "mal menor". Aceitei a epidural. Mas meu esposo teve que sair do quarto. A Enf. Ofélia esteve ao meu lado me auxiliando. No meio de luzes e contrações, estresse e medo, pois eu tinha mais medo da epidural do que do parto, me trazem um papel para eu autorizar a intervenção. No papel estava escrito os efeitos colaterais e possíveis problemas da anestesia. Que bela hora para se assinar uma autorização!
Enquanto a anestesista me preparava, dizendo que eu teria que me manter imóvel, eu me contorcia durante a contração. Então quando ela coloca a agulha na minha coluna, sinto uma espécie de choque percorrendo todo meu lado direito e me mexo. A médica grita dizendo "não, não se mexa". Eu já nem me preocupo em responder. E até hoje, dependendo da posição que me encontro, eu ainda sinto esse mesmo choque. 

Depois meu esposo retorna e a "paz" reina no bloco de partos. Menos no meu coração... Eu ainda sentia as contrações, mas percebi que elas diminuiram muito na frequencia. Continuava sem poder me movimentar e agora nem em pé podia mais ficar. Em duas horas, que foi o prazo que o médico deu para meu filho descer, devo ter tido no máximo 10 contrações... e antes elas estavam praticamente grudadas uma na outra.
Meu esposo sempre ao meu lado, me apoiando, rezando comigo, segurando a minha mão, me passando tranquilidade. Como era importante ter ele ali comigo. 

Passada as duas horas, novo toque, e ao invés de 6 para 7 cm, eu estava com 6 cm.
COMO ASSIM???  Meu esposo questiona o médico, ele ignora a pergunta e diz que por não ter evoluído na dilatação, pelo meu filho ainda estar alto, pelo CTG não estar tranquilizador, e por eu ser estreitinha de ancas, e por estar muito tempo em trabalho de parto (eu não tinha nem 15 horas), ele estava me encaminhando para a cesárea. Detalhe que eram quase 2 da manhã... Incrível a visão de raio-X que alguns médicos tem para diagnosticar incompatibilidade feto-pélvica tão cedo... E na minha opinião, a epidural só atrapalhou pois parou meu trabalho de parto.


Conforme os dias passaram, eu fui desistindo de questionar a decisão do médico, apesar de não concordar. Meu pai disse uma coisa e penso ser verdade: a gente nunca sabe o que poderia ter acontecido se não fosse assim. É verdade, não dava para saber. Fisicamente, eu e meu filho estamos bem. Ele nasceu com um apgar 10-10 se não me engano, um pouco incompatível com CTG não tranquilizador não é?

Eu fiquei muito nervosa durante a cirurgia, pois mais uma vez meu esposo não pode estar comigo. Me senti sozinha e desamparada. Tinha medo de desmaiar, pois tenho pressão baixa, e não ver o meu filho. Mas os aparelhos acusavam uma pressão altíssima e a anestesista dizia que eu tinha que me acalmar. Veio o medo da anestesia não pegar, pois quando mexiam em mim eu ainda sentia muito bem. Mas a anestesista me mostrou pacientemente que estava tudo certo e que a anestesia havia pegado bem. Quando tiraram meu filho, não ouvi seu choro. Ele não chorou... mas quando vi seu rostinho eu entendi porque. Ele tinha uma cara de pergunta: "O que eu estou fazendo aqui? Ainda não era a hora para eu sair." E uma lágrima escorreu do meu olho ao ver os seus olhos grandes e expressivos como de seu pai... Me trouxeram ele e passaram seu pézinho no meu rosto e já o levaram.
Enquanto me suturavam, começei a sentir uma dor no ombro direito. Eu estava amarrada e aquilo estava me incomodando. E essa dor começou a se espalhar para o peito. Eu informo isso a equipe, que diz não ser nada e que está tudo bem. Injetam uma coisa no meu soro e eu pergunto o que é e para que serve. Me respondem só depois que eu insisto. A dor no ombro e no peito foi aumentando e eu novamente informo a equipe. A anestesista diz ser impossível eu sentir alguma dor pois estou anestesiada até ao peito, que era para eu me acalmar. 
Mas estava doendo, e eu tinha medo de ser alguma coisa mais grave e estarem ignorando e disse novamente da dor. A anestesista diz então: Já sei o que você precisa. E injeta um líquido direto na minha veia, e depois disso lembro de acordar toda babada e com a máscara de oxigênio no rosto. Ainda estavam trabalhando em mim. E só depois, quando li meu prontuário, que entendi o que tinha acontecido naquele momento. A anestesista Patrocínio me aplicou propofol. É minha gente, propofol... que pra quem não sabe é um anestésico injetável, o mesmo que matou o Michael Jackson, só para vocês fazerem uma associação. E por que? Eu desconfio que tenha sido para me calar a boca. Pois no meu prontuário está escrito algo assim no quesito "problemas durante o procedimento": "paciente perguntava tudo, tinha doula, não queria nada e teve tudo que tinha direito".

Suturada, sem meu filho e morrendo de frio, me levaram para a recuperação. Eu não entendi porque sentia tanto frio e perguntava. Depois me disseram que era por causa do ar condicionado da sala cirúrgica e por eu estar sem roupa. Eu tremia dos pés a cabeça e pedia pelo meu filho e meu esposo. Diziam que não era possível. Eu insistia, para cada enfermeira que passava do meu lado. Eu sabia da importância da amamentação nas primeiras horas e não queria perder mais essa... Até que finalmente a Enf. Ofélia trouxe meu esposo e meu filho. Que alívio.
Dudu tinha (tem até hoje) um cheiro tão gostoso! Nunca vou me esquecer do seu cheirinho nos primeiros dias. Ficou brincando com o seio até que do nada, pegou e começou a mamar! Eu podia amamentar meu filho, que alegria!


Nesse caso, o post é sobre algo que me foi confiscado: meu direito a um parto humanizado, o respeito às minhas escolhas e decisões. 
Mas como sempre diz meu esposo: as coisas acontecem como tem que acontecer. É verdade, e isso tudo vem me abrindo inúmeras oportunidades: não só no aspecto pessoal, mas também, acredito eu, no profissional. E assim, eu confisco o que faço depois, o que faço com a violência obstétrica que sofri, o que faço com a frustração, com a angústia, e com a cicatrização dessa ferida. 
E isso sim, ninguém pode tirar de mim, isso sim, não vai escapar.

Claro, não poderia deixar de agradecer a todos que participaram.dessa jornada, meu filho, meu esposo querido, minha família, amigos, nossa doula, profissionais e acima de tudo a Deus, pelos tesouros de minha vida. Muito obrigada de todo meu coração!