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segunda-feira, 14 de março de 2016

a mulher selvagem

"A arte é importante porque ela celebra as estações da alma, ou algum acontecimento trágico ou especial na trajetória da alma. A arte não é só para o indivíduo; não é só um marco da compreensão do próprio indivíduo. Ela é também um mapa para aqueles que virão depois de nós."
Clarisse  Pinkola Estés - Mulheres que correm com os lobos. Pág. 29
Escrever é uma das minhas formas de arte, é o meu marco da auto-compreensão. O mais complexo, pois traduzir sentimentos em palavras nunca foi tarefa fácil para mim. Mas é necessária.

Hoje comecei a ler este livro. Havia dado ele para minha mãe em 2001. Um amigo me falou dele no começo deste ano. E mês passado o livro chegou até mim numa caixa de livros para libertar no book crossing. Chegou a hora, pensei. Mas ainda não. Levou um tempinho. O tempo de me cansar das coisas como elas estão e partir de novo em busca. Até fiz um paralelo com as colchonilhas que estão na minha flor.
Eu vinha ao longo do tempo tirando as colchonilhas quase todos os dias. Pegava uma por uma e tirava da flor. Já tem mais de uma semana que não faço isso e minha flor está sentida. Colchonilhas são devastadoras!  O mais fácil seria eu deixar pra lá e depois arrumar outra flor. Mas pensei em situações da minha vida em que senti as minúsculas colchonilhas atacando e não fiz nada. E pensei no que aconteceu depois. Então hoje decidi que começaria a ler o livro.

 Ainda estou no primeiro capítulo, mas a mulher selvagem já me dominou. Já me identifiquei. Já entendi parte da minha busca.
"O arquétipo da Mulher Selvagem envolve o ser alfa matrilinear. Há ocasiões em que vivenciamos sua presença, mesmo que transitoriamente, e ficamos loucas de vontade de continuar. Para algumas mulheres, essa revitalizante "prova da natureza" ocorre durante a gravidez, durante a amamentação, durante o milagre das mudanças que surgem à medida que se educa um filho, durante os cuidados que dispensamos a um relacionamento amoroso, os mesmos que dispensaríamos a um jardim muito querido. " Pág. 19 e 20. 
Sincronicidade.
Não sou atípica, não sou maluca. Sou uma mulher selvagem.
Demorou para perceber. Era tão óbvio. Na verdade, percebi na hora certa. Na hora que estou preparada emocionalmente para acolher, entender, e viver com essa mulher selvagem que existe em mim.
Porque até agora, eu a sentia, mas não a reconhecia.
"Quando são cortados os vínculos de uma mulher com sua fonte de origem, ela fica esterelizada, e seus instintos e ciclos naturais são perdidos, em virtude de uma subordinação à cultura, ao intelecto, ou ao ego - dela própria ou de outros." Pág. 23
Já me senti esterelizada, completamente perdida de mim. Sentia a minha incapacidade de me encaixar no padrão, de ser submissa. Eu questiono, ou como me ajuda nessa tradução, Florbela Espanca:
“O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma … que tem saudade…sei lá de quê!” Florbela Espanca 
Mas nem sempre me aceitei assim. Era tanta subjetividade que nunca dei conta de mim completamente. Alguns anos de terapia e as coisas ficaram mais "fáceis".  Mas ao mesmo tempo é fácil se perder de si.
"Uma mulher saudável assemelha-se muito a um lobo; robusta, plena, com grande força vital, que dá a vida, que tem consciência do seu território, engenhosa, leal, que gosta de perambular, Entretanto, a separação da natureza selvagem faz com que a personalidade da mulher se torne mesquinha, parca, fantasmagórica, espectral. Não fomos feitas para ser franzinas, de cabelos frágeis, incapazes de saltar, de perseguir, de parir, de criar uma vida. Quando as vidas das mulheres estão em estase, tédio, já está na hora de a mulher selvática aflorar. Chegou a hora da função criadora da psique fertilizar a aridez. " Pág. 26
Já me senti separada da minha natureza selvagem. E hoje consigo perceber que foi a mulher selvagem que me resgatou. Me trouxe novamente a vida, me lembrou do quanto gosto de perambular. Me mostrou que me sentir incapaz de parir era uma parte do processo. E que é preciso ter fé, pois quando chega a hora certa, a mulher selvática aflora. Porque não dá para esconder nossa essência para sempre.
Isso é um processo extramente individual. Mas só foi possível para mim pelos pais selvagens que tenho. Não tenho só uma mãe-mulher selvagem. Tenho também um pai-homem selvagem. Esse exemplo de união selvagem, tão profunda e significativa, que me moldou desde o princípio. Como não sentir gratidão diante dessa experiência sagrada?
Mas para atingir a plenitude, é preciso antes curar-se. Hoje é a mulher selvagem que me promete essa cura.
Que eu possa apreendê-la, interiorizá-la, essa será minha prece.
"Cada uma de nós recebe uma célula refulgente que contém todos os instintos e conhecimentos necessários para nossa vida." Pág. 27
 Que todas as pessoas possam identificar essa célula sagrada!
 
 

sábado, 7 de novembro de 2015

quase 32

Há pouco menos de 1 mês de completar 32 anos, surge aquela vontade inexplicável de escrever.
Os 30 estão sendo realmente marcantes...
Sentia que antes tudo era incerto, apesar da certeza ilusória de que se tem aos 20.
Jurava que seria veterinária a vida toda. Mas não conseguia me imaginar no futuro.
Agora também não consigo, mas já me sinto muito mais no "caminho" do que antes.
Qual caminho? O meu...
Aos 21 fiz uma oração pedindo para Deus me guiar no caminho onde pudesse aprender a amar mais. Havia lido (ou re-lido) "O Dom Supremo", que descrevo como uma releitura da carta de São Paulo aos Coríntios, sobre o amor, ou a caridade, dependendo da tradução da bíblia. Conforme as coisas aconteceram eu percebi que realmente fui guiada por esse caminho, pois parei de comer carne, fazia caridade... Por algum tempo me senti bem, sendo a pessoa que eu sempre quis ser, fazendo o que eu sempre quis fazer... Por algum tempo...
Porque evoluímos e inevitavelmente vamos precisando de "mais". Mais conhecimento, mais aprendizado, mais reflexão. Surgem novas perguntas.
Aos 26, ainda rezando para aprender a amar, fui até Portugal. Ah, amar era tão bom!!
Sempre fui a ingênua que acredita que o amor pode resolver tudo. Até perceber que eu não sabia amar. Lia e relia a minha bíblia, "O Dom Supremo", percebia onde errava, mas sem perceber eu havia subido um degrau e precisava de novos conhecimentos sobre o amor, e mais ainda, sobre mim mesma. Hoje, Sri Prem Baba faz esse papel.

Eu já tinha o conhecimento, já sabia o que fazer. Meditação, auto-observação, presentificação. Mas não conseguia praticar. Era insegura sobre o que dizia meu coração, ou melhor, eu mal conseguia ouvi-lo.
Quando engravidei, me perdi completamente de mim. Racionalizei o processo todo. Estudei, li, discuti. Sentia um medo incrível. Mas não consegui lidar com ele de uma forma produtiva. Eu tratei o medo como um problema, e problemas se resolvem com estudo, pensava eu.

Não foi suficiente obviamente.
E depois, como um processo de luto, cheguei na fase de aceitação e do perdão.
Me perdoe filho, por não ter tido condições de te trazer ao mundo de uma forma mais tranquila, amorosa, e respeitosa. Me perdoe por não ter confiado no meu coração e lutado pelo que eu acreditava.
A maternidade aguçou-me o senso de responsabilidade.
Alguns anos depois do Dudu ter nascido me deparei com uma encruzilhada. A confusão era tamanha que eu não conseguia sequer pensar ou medir consequências, ponderar. O sentimento que me lembra dessa época é: instinto de sobrevivência. Penso que nesses casos, as decisões que tomamos podem parecer irracionais para olhos mais desatentos. Mas existem situações que te chamam a atenção de tal maneira que você é obrigado a encarar a realidade.
Certo dia fui no circo com minha irmã, o Dudu e minha sobrinha. Começamos a rir com o palhaço, e de repente eu estava chorando. Como se o riso tivesse aberto a porta da tristeza e dito a ela: pode vir, aqui é seguro. Aquilo foi tão paradoxal para mim, tão marcante... Fiquei pensando e tentando entender o que realmente estava acontecendo com a minha vida.
Aprendi desde criança: que teu sim seja sim, que teu não seja não. Então eu me vi dizendo não, depois de tanto insistir no sim.

É difícil dizer não para expectativas. Dói dizer não para planos, para compromissos que você pensava ser capaz de honrar, que você queria honrar! É frustrante reconhecer a sua incapacidade de amar plenamente, de aceitar, de compreender. É um martírio você perceber que teu modo de pensar, as coisas que você acredita, suas atitudes, fazem outras pessoas sofrerem. Tem o sentimento de fracasso, tem o sentimento de culpa, não dá pra escapar. Pelo menos eu não consegui.


Com quase 32, quase 1 ano depois do caderno da gratidão, separada, ainda busco o caminho de aprender a amar. É tarefa para muitas vidas, tenho consciência disso. Mas hoje sinto que sementes que foram plantadas nos meus 20 anos, agora começam a criar raízes. E esse tem sido um processo muito mais tranquilo que a fase da plantação.
Abençoados sejam todos os que contribuiram em todas as etapas. Gratidão inclusive pelas pedras, pelas chuvas em excesso, pelos dias de sol escaldante. Hoje, além de agradecer já consigo amá-las como são, na maior parte das vezes. Gratidão também pela água nos dias de seca, pelos adubos que fui recebendo, pela sombra nos momentos necessários.



E que venham muitas primaveras, se assim for da vontade de Deus! 












quarta-feira, 27 de maio de 2015

coisas para se pensar antes de decidir ter um filho

Eu não li nada do tipo quando decidi com meu marido que iríamos ter um filho.
Acho que isso era uma das poucas certezas que tinha dentro de mim, então não pensei duas vezes. Faria exatamente igual.
Mas pensar sobre certas coisas, hoje sendo mãe e passando pelo que passei, talvez me ajudassem a lidar melhor com algumas situações.
Talvez eu seja meio radical em algumas posições. Eu juro que queria ser mais flexível em algumas coisas, mas vida é processo de aprendizagem né, então pode comentar a vontade a sua opinião e vamos aprender juntos! Por isso, esse não é um post romântico.
Espero que possa te ajudar de alguma maneira também :)

1) Não dá pra fazer ideia do tamanho da transformação que um filho faz na nossa vida. É simplesmente inimaginável. Pelo menos para mim foi. Então se você não é lá muito fã de mudanças... ou se prepara ou deixa essa ideia pra lá.
2) Seu corpo muda. (óbvio hahahah), mas você pode amar, e se achar linda e maravilhosa, ou detestar. Eu adorava estar grávida, me achava linda. Mas conheço pessoas que detestam essa parte. Então, auto-conhecimento e auto-estima na veia. Porque o sexo pode mudar também. Você pode não querer nem saber, ou virar a grávida ninfomaníaca! E a relação com teu companheiro neste aspecto também. Uns podem adorar, outros não. Para isso, sempre vale uma longa conversa onde cada um exponha seu ponto de vista e encontrem uma maneira de viverem em paz neste sentido, seja lá o que for paz para vocês :)
3) Suas prioridades podem mudar. No meu caso mudaram completamente, basta ler alguns textos daqui para você ter uma noção. Mas conheço pessoas que não mudaram em nada. Algumas coisas não tem como escapar, a não ser que você terceirize a criação do seu filho. Mas se for assim, para que ter filho então?
4) Você vai precisar desenvolver novas características ou aprimorar se já tiver.
Paciência: em diversas ocasiões e em diversos formatos. Seu filho não tem culpa que vc teve um dia cansativo no trabalho. Seu filho não tem culpa se você não está feliz com seu trabalho. Seu filho não tem culpa se seu esposo brigou com você. Seu filho não tem culpa se você não compreende o choro dele. Seu filho não tem culpa de nada entendeu?
Pra isso você vai precisar se superar e superar tudo de ruim dentro de você para dar a ele toda a atenção e amor que ele (e todos os seres) merecem. Frases do tipo: "Você está me tirando do sério/ Eu estou perdendo a paciência" não querem dizer nada, pois você é o adulto e se o seu limite de tolerância é baixo, trate de aumená-lo. Seu filho (nem ninguém na verdade) devem pagar pelas tuas frustrações, cansaço, ou qualquer coisa do tipo.
Pense no seu filho como um adulto. Se fosse seu melhor amigo, você falaria com ele aos berros? Bateria para ensinar? Colocaria de castigo? Se você respondeu não, então não faz sentido fazer isso com seu filho também, faz? E não vale dizer que ele é criança e não entende. Se você não percebe a capacidade de entendimento do seu filho ou não consegue se comunicar de uma maneira que ele entenda, então vai estudar. De novo, a culpa não é dele, você é o adulto e está ali para ensinar respeito, tolerância, amor e compaixão. Deixa o celular de lado um pouquinho e vai ler. Para o seu bem, do seu filho e de toda a humanidade.
Mas não vai ler aquelas tretas da adestradora de bebês, por favor! Sugestões de leitura no final do post ;)
5) Se não quer ficar sobrecarregada com os serviços da casa + cuidar do filho, comece a conversar com seu companheiro sobre a divisão das tarefas domésticas e de como vão organizar isso quando o bebê nascer. Acredite, uma louça suja sobre a pia pode ser motivo de discussão, e convém evitar isso quando estão todos tentando se adaptar com o bebê e uma nova rotina e tudo mais.
6) Trabalho. Converse com o seu companheiro sobre isso. Você vai precisar trabalhar? Você quer continuar trabalhando depois que seu bebê nascer? Onde você vai deixar seu filho? Quais as suas opções? Pode ser que você não queria mais trabalhar com o que trabalha no momento, pode ser que você queira ter mais tempo para acompanhar o seu filho, os primeiros passos, as primeiras palavras. E aí, como faz? Vai pensando... Mas lembre-se, existem inúmeras opções, você só precisa decidir o que quer fazer. Dica: procure por empreendedorismo materno :)
7) Rede de apoio. Você tem família por perto pra te ajudar na hora do aperto? Amigos? Alguém com quem contar? Seja para conversar, seja para lavar a louça, seja pra te tirar daquela loucura de troca de fraldas e peito e te mostrar que ainda existe vida depois disso tudo :P Pode parecer bobeira, mas tem horas que só de sair de casa já te faz dar uma espairecida. Vale também conversar com outras mães, mesmo que elas fiquem contando que o bebê delas dorme a noite inteira, já vale pra distrair um pouco.
8) Convicções. É melhor você ter bem definido com seu companheiro como vocês vão fazer as coisas. Desde o parto - onde e como(a escolha é sua, mas saber se ele vai te apoiar ou não e o que vc vai fazer com isso poupa frustrações), amamentação (idem ao parto, o corpo é seu, vc decide), criação, onde o bebê vai dormir, o que vai comer, médico, etc. Saber o que cada um pensa sobre o assunto ajuda bastante, seja para exercitar a compreensão, seja para um apoiar o outro quando os pitaqueiros entrarem em ação.
9) Sua própria infância. Como seus pais te tratavam? Como você se sentia? Você quer fazer da mesma maneira? Quer que seu filho sinta o que vc sentiu? Quer fazer diferente? Não sabe como? Decida e siga. Estude, converse, leia, informe-se! Até onde eu sei essa é a única maneira... Tem um texto bacana aqui para você começar a se aventurar nessa parte :)
10) Tempo: Filhos tomam tempo, não tem como (a não ser que vc terceirize, mas de novo, pra que ter filho então?). E como vc vai lidar com isso? Como vai ser para você abrir mão das horas livres, do salão de beleza, do cinema com o companheiro, do café com as amigas, do passeio no shopping, do happy hour com a turma do trabalho? Uma coisa ou outra vc talvez até consiga manter, mas está preparada para abrir mão de algumas? Seu esposo vai ficar com seu bebê para você ir no salão? Acha que sim? Dá uma confirmada antes, não custa! Sua mãe vai topar ficar com o bebê na sexta a noite para vc curtir um jantar romântico? Pergunta lá... É bom ir conversando sobre essas coisas, por mais que pareça algo distante da tua realidade no momento, com filhos, planejamento é a palavra de ordem. Te poupa muito stress!
11) Birras e educação. Seu filho vai fazer uma birra em local público pelo menos uma vez na vida. E aí, já pensou em como vai lidar com isso? E não vai achando que isso é coisa de criança mimada, porque não é. Birras são a maneira da criança manifestar sua incapacidade de lidar com a situação naquele momento, e isso é ciência, é formação cerebral em desenvolvimento. Você achar que é manha e que ela precisa de limites não vai resolver... mas isso você só vai saber se tentar entender e se conectar com seu filho. Então, você está disposta a investir tempo nisso? Ou vai ser mais fácil ameçar bater, chantagear? Vai pensando...
12) Sua sanidade mental. Bom, pensar sobre isso pode parecer engraçado, mas na hora que seu filho estiver berrando desesperadamente, seu companheiro te olhando com aquela cara: faz ele parar de chorar, seu vizinho interfonando porque são 3 da manhã e ele precisa dormir e você totalmente perdida sem saber o que fazer... se você não tiver o tal do "sangue-frio" para analisar a situação tranquilamente e ver que seu bebê não quer ficar no berço sozinho e sim no aconchego do seu colo e você dar isso a ele, a coisa complica... Existe muita pressão com crianças chorando, principalmente quando elas não dizem o que sentem. É uma sensação de impotência pois você fica sem saber o que fazer. Para isso você precisa estar tranquila com a situação, e em paz com suas convicções. E claro, confiante de que está fazendo o que considera melhor para o seu filho. Óbvio que falando assim parece super fácil, mas a prática tem os seus percalços e você precisa estar preparada para eles também. São normais, acontecem, não se culpe! Dúvidas brotam na nossa cabeça de lugares que sequer imaginávamos existir... e aceite, é normal! Tenha em mente coisas que te fazem bem e pense em como fazer para poder usufruir delas quando a coisa apertar. Uma vez li que para uma mulher era essencial acordar e poder tomar um banho bem relaxada. Ela combinou com o companheiro que isso era um momento dela e era necessário, então eles se organizaram para ela poder fazer isso. Entende o que quer o dizer?
13) Já mencionei a divisão das tarefas de casa e cuidados com o bebê né?
14) Onde o bebê vai dormir? No berço, na cama com vocês, no carrinho? Eu comprei berço quando o Dudu nasceu, hoje se tivesse outro filho não gastaria dinheiro com isso. A cama compartilhada me facilitou muito a amamentação, me deixou dormir muito mais do que se tivesse que ficar levantando para pegar filho no berço, amamentando, fazendo dormir e colocando no berço para dali a 15 minutos ele chorar e eu ter que levantar de novo. E isso tem uma explicação: bebês não foram feitos para dormirem sozinhos. Informe-se :)
15) Fraldas. Descartáveis não são a única opção! As fraldas de pano modernas são ótimas e fazem um bem danado para a natureza :) E tem gente que até nem usa fralda, acredite (procure por Elimination Comunication, ou leia um pouco mais aqui)
16) Como você vai carregar o bebê. Existem outras opções além de carrinho e canguru! Já conhece o sling? É fisiológico, os bebês amam e ficam muito mais tranquilos!
17) Seu filho pode nascer com algum problema. Calma, não é sentença de morte! Bom, de certa forma vai ser, um processo de morte das expectativas. O fato é que essa possibilidade existe e seria legal se vc conseguisse pensar sobre ela. Não pensar para desistir, mas pensar para aceitar caso aconteça. Maternidade também é aceitação. Aceitar que não temos controle de tudo, que não somos super-heroínas, que independente de como criamos, eles são livres e podem seguir um caminho que não concordamos, aceitar que irão nos surpreender, aceitar que vamos chorar na apresentação da escola, aceitar de que vai passar muito rápido e que o que vai valer a pena foram os momentos que vocês passaram juntos.

Que eu me lembre, por enquanto, é isso. Sempre que surgirem outras coisas eu vou atualizando aqui!
E aí, o que achou? :)

Sugestão de leitura:
Maternidade e o encontro com a própria sombra - Laura Gutman
O Poder do Discurso Materno - Laura Gutman
Mulheres visíveis, mães invisíveis - Laura Gutman (este é um apanhado com vários textos da autora. Vale a pena para quem quer ter uma noção geral do que ela diz)
Besame mucho - Como criar seus filhos com amor - Carlos González (é difícil encontrar para vender, eu só consegui o pdf pela internet)
O livro da maternagem - Dra. Relva
Educar sem violência: criando filhos sem palmada. Ligia Moreiras Sena e Andréia Mortensen
Soluções para noites sem choro - Elizabeth Pantley
Memórias do homem de vidro - Ricardo Jones
Entre as orelhas. Histórias de Parto - Ricardo Jones

Nessa loja virtual tem vários outros títulos interessantes e que valem muito a pena!

Existem depois um sem fim de blogs, artigos, páginas... Cabe a você decidir quão fundo você quer ir nesse novo mundo da maternidade ou da felicidade :)



Você pode ter estranhado eu não ter falado do lado "bom" disso tudo, mas minha intenção neste texto não foi essa. Até porque eu não considero todas essas coisas "ruins". Sou grata por cada momento e situação que passei pois foram oportunidades únicas de aprendizado que eu jamais teria se não fosse mãe <3  E também porque não sou muito boa em dizer sobre o indizível e o infinito...
Confiscado ;)





quarta-feira, 6 de maio de 2015

Onde se perdeu?

O Dudu fez 3 anos dias atrás. E misteriosamente, algumas coisas se resolvem dentro de mim neste período...
Dessa vez surgiu uma pergunta, referente a certos fatos que demorei a admitir, aceitar, compreender.
Durante boa parte da minha vida eu me senti desconectada de mim mesma. Nunca conseguia discernir muito bem o que dizia minha voz interior. Sempre haviam infinitas perguntas e pouco espaço silencioso para as respostas surgirem. Com isso minha mente se alimentava de perguntas e mais perguntas.
Mas em alguns momentos eu comecei a perceber que simplesmente sentia o que era preciso fazer e ia lá e fazia. Quando decidi não imendar um doutorado foi assim, e o mesmo quando decidi ir para Portugal fazer woofing e conhecer o Júnior. Parecia loucura, havia alguns riscos, mas incrivelmente eu não sentia medo nenhum ou dúvida alguma sobre o que deveria fazer. E tudo corria muito bem.
Exceto no aspecto profissional, mas isso é outro assunto.
Quando engravidei e minha colega de trabalho me emprestou o livro do Ric Jones - Memórias do Homem de Vidro, eu voltei a sentir uma dessas certezas. Ao terminar o livro eu tinha total e absoluta certeza no meu coração que eu queria que o Dudu nascesse em casa. Não queria ter que ir para o hospital. Eu sabia que assim as coisas não iriam correr bem. Me conhecia o suficiente para saber minhas necessidades.
Mas as pessoas ao meu redor não. Então comecei uma "batalha". Primeiro para convencer meu esposo de que eu precisava de uma doula nesse momento. Ele concordou, entrevistamos várias mulheres e encontramos a nossa. Agora eu precisava mostrar a ele porque eu queria ter nosso filho em casa. Eu virei a "maluca" do parto. Mandava-lhe vídeos, textos, conversei com um enfermeiro obstetra, assistimos documentários, inúmeros vídeos de parto. Contei-lhe do meu medo e ir para o hospital. Mas ele disse que não se sentia seguro para que nosso filho nascesse em casa. Preferia que eu fosse para o hospital.
Meu medo só aumentava, junto com a minha barriga. Me lembro de uma vez em que chorei desesperadamente ao falar com meus pais pelo skype explicando-lhes também que eu não queria ir ao hospital para ter o Dudu. Eles concordavam com o Júnior e me senti desamparada e incompreendida. Até quando comentei com a nossa doula que gostaria muito de um parto domiciliar, ao qual ela disse que havia conversado com o Ricardo Jones e que ele havia recomendado um parto hospitalar devido a um problema de tireóide que tenho. O problema em si não exclui a possibilidade de parto domiciliar, o porém seria se eu tivesse alguma complicação e a repercussão que isso poderia ter.
Não me convenceu, só serviu para me sentir ainda mais incompreendida e desamparada.
O resultado eu já contei aqui no meu relato de parto.

Por esses dias então andei pensando: onde estava a menina que ouvia seu coração e cruzava o oceano rumo ao desconhecido?
Eu não tinha confiança suficiente para sustentar minha escolha naquele momento.
Não me "empoderei", por me sentir sozinha, incompreendida, desamparada. Por eu mesma duvidar da minha capacidade de parir.
Junto a isso, eu cedi conscientemente aos desejos alheios por pensar que talvez estivesse sendo intolerante ao querer que fosse feita somente a minha vontade.
Ao tentar (forçosamente) superar esse meu medo, ao não encontrar forças para isso, eu inconscientemente me desconectei.
Me lembro de passada as 41 semanas de gestação, minha doula perguntar se eu estava com medo de alguma coisa, e eu responder que não, que estava tudo bem.
MENTIRA: eu tava morrendo de medo de ir parir no hospital. Eu não queria aquilo! Mesmo sabendo que esse meu medo era pior, pois acabaria tendo que ter o parto induzido, eu não conseguia lidar com isso. Mas eu não conseguia verbalizar isso. Todo o processo até ali já tinha me deixado tão triste, e aflita. Era o momento mais importante da minha vida. E eu não consegui sustentar a minha escolha. Me permiti ser refém dos desejos alheios.

De novo eu me pergunto: onde se perdeu a menina super confiante?

Ainda não encontrei resposta para isso, mas questionar-se é o primeiro passo. Agora é questão de tempo.
Reconhecer que essa voz se perde em alguns momentos é como um insight. Hoje aprendo diariamente como fortalecer, como reconhecer, como buscar, como encontrá-la.
Só assim será possível ser fiel a própria alma.

Confiscado.


terça-feira, 9 de julho de 2013

o meu relato de parto

O Dudu já tem 1 ano e 2 meses. E só agora me deu vontade de escrever um relato de parto "público", digamos assim.
Já escrevi outras 2 descrições sobre a minha experiência. Uma para a Enfermeira Ofélia Lopes. Ela estava de plantão no dia 30 de abril de 2012 e nos acompanhou no parto. Como eu tinha um plano de parto, ela perguntou se eu e meu esposo poderiamos ajudá-la em sua pesquisa sobre a experiência de termos um plano de parto. Concordamos de imediato e escrevemos algo em torno de 6 páginas para ela, respondendo algumas perguntas que eram o foco de sua pesquisa. Para mim foi muito mais que isso. Foi meu primeiro desabafo.
Depois, perto do aniversário de 1 ano do Dudu eu escrevi o meu "feedback dos serviços prestados" ao hospital Garcia de Orta, em Almada, Portugal, que foi onde meu filho nasceu. Esse, mais que um desabafo, foi uma crítica ácida e amarga ao sistema e à maneira que fui tratada. Não tive dó, contei o que aconteceu, citei nomes, fui irônica, questionei, abri as portas da revolta. E nem assim é possível dimensionar o tamanho da ferida. Não sei se vão ler o que escrevi, pois de novo, lá se foram 6 ou 7 páginas. Mas eu precisava fazer isso, precisava mostrar para eles e para o "sistema" onde estavam os erros e os acertos. É meu dever como cidadã!
Agora, depois de ter algumas coisas mais claras e tranquilas em meu coração. Depois de perder as contas de quantos relatos de parto já li. Depois de perceber que é importante contarmos nossas experiências pois outros podem precisar da nossa informação. Resolvi tornar público a minha experiência de parto.

Inconscientemente, ou nem tanto, meu maior sonho era engravidar e ter filhos. Uma das provas disso é que no meu relatório final de estágio na faculdade, meu primeiro agradecimento foi:
"A Deus, pelo pôr do sol, sorrisos de bebê, pelas folhas dançando com o vento, pelo céu estrelado que me mostravam que eu não estava sozinha em mais essa jornada."
Em 2011, eu e meu esposo conversamos e resolvemos que estava na hora. Em agosto descobri que estava grávida, apenas 1 mês e meio depois de começarmos a tentar. Maravilha!
Nós morávamos em Portugal e eu não conhecia nenhum obstetra de confiança por lá, meus pais estavam no Brasil e eu me sentia bastante insegura com as informações sobre gravidez e parto, ou melhor, pela falta delas. Por isso, depois de convencer meu esposo, decidimos encontrar uma doula para nos acompanhar nesta etapa. Graças a minha colega de trabalho que havia me emprestado o livro do Dr. Ricardo Jones que já comentei aqui, conheci a Associação Doulas de Portugal. Lá tem uma lista de doulas, e com base nas descrições, contato por e-mail, selecionamos algumas para conhecermos pessoalmente e depois finalmente escolhemos a nossa doula, a Ana Raposeira. O processo de escolha levou em conta a empatia que sentíamos, pois consideramos que esse seria o aspecto mais importante para nós naquele momento.
Com a Ana, tivemos mais informações a respeito da situação do evento parto em Portugal e as perspectivas não eram das melhores. Movimento de hospitais e médicos no sentido de humanização - praticamente zero!
A opção que me deixava mais segura, era a do parto domiciliar. Não queria interferências tecnológicas desnecessárias (depois de muito ler sobre medicina baseada em evidências) e para mim essa seria a melhor opção para receber o meu filho, como já falei um pouco aqui.
Mas meu esposo não concordava, e por eu ter um problema na tireóide (tireoidite auto-imune, que não é nada de grave) juntando ao fato de não haver em Portugal obstetras que acompanhem parto domiciliar, minha doula depois de conversar com o Dr. Ricardo Jones, também não recomendou um parto domiciliar. Eu cedi, e começei a me informar sobre maternidades e suas opções.
Eu era acompanhada no Hospital Garcia de Orta, pois era o mais próximo de onde morávamos. E apesar de ter lido alguns relatos de parto neste hospital muito tristes, li outros muito bonitos, e minha cunhada disse que havia sido super bem tratada durante o parto. E havia um inclusive, que dizia ter sido permitido a presença da doula e do esposo. Resolvi então visitar o bloco de partos. Falei por e-mail com a Enf. Chefe Rosalia Marques e agendei a visita.
A enfermeira me recebeu super bem, me mostrou as instalações, respondeu todas as minhas dúvidas e deu seu parecer sobre o meu plano de parto. As restrições seriam quanto a monitorização fetal contínua (o tal CTG) que seria impossível de evitar, mas que havia um "CTG sem fio", que permitiria minha movimentação, e a presença de meu esposo e da doula ao mesmo tempo, apesar de ter afirmado que poderia haver alguma flexibilidade dependendo do movimento do bloco de partos.
A Maternidade Alfredo da Costa era muito bem recomendada para quem buscava partos um pouco mais "humanizados". Mas eu li alguns relatos de pessoas que passaram por lá e me pareceu muito mais marketing do que realidade. Outro porém era a distância de casa e o fato do meu processo estar todo já no Garcia de Orta. Decidi ficar pela margem sul mesmo.
O detalhe foi que eu não entrei em trabalho de parto no tempo normal.
Fiz de tudo, auto indução nos pontos de acupuntura, caminhava quase 1 h todos os dias, na praia inclusive, fiz coisas gostosas, descansei, namorei, fiz faxina, rezei...

Antes de ir para o hospital.
Com 41 semanas + 4 dias fui internada para uma indução. Um dos meus medos tornava-se realidade, mas tentei me manter positiva, sempre rezando muito para que desse tudo certo. Tive que dormir no hospital por causa do "protocolo", passar uma noite péssima devido a conversa e alto e bom tom da enferemeira com um médico sobre bolos e o Benfica, e ser "acordada" as 6 da manhã para o banho e meia hora de CTG.
No dia 30 de abril (41s+5), as 9 da manhã, fizeram o toque (1-2cm de dilatação) e a seguir a indução com aplicação de gel de prostaglandina. Duas horas deitada, mais algum tempo de caminhada e quando o almoço e meu esposo chegaram eu já tinha contrações! Meu filho estava chegando :)
Almocei e vomitei tudo em seguida. Quando tenho dores muito fortes eu vomito mesmo... Meu esposo esteve sempre ao meu lado, me apoiando e segurando a minha mão. Mas o horário de visita já tinha acabado e ele teria que sair, pois eu ainda não estava no bloco de partos e só poderia descer quando estivesse em trabalho de parto ativo, ou seja 4 cm de dilatação.
Eu continuei a caminhada pelo corredor, triste por não ter meu marido por perto, e quando a contração vinha eu me posicionava como me dava vontade e expirava um aaahhhhh, sempre mentalizando meu corpo se abrindo para receber o meu filho. A enferemeira por duas vezes me perguntou se eu iria querer a epidural e eu sempre disse que não (caramba, isso já estava no plano de parto, por que me perguntavam??).
Fui tomar uma ducha quente quando então uma colega do quarto veio me avisar que meu marido estava lá do lado de fora a minha espera e que minha doula já estava chegando.
Depois da ducha tive que ficar mais meia hora deitada para o "CTG de rotina" e isso sim foi horrível. Ficar deitada era muito ruim. Outro toque e a enfermeira assustada por eu ter contrações muito fortes e estar vomitando, resolveu me colocar o soro para hidratar. Pronto, já não podia caminhar tão livremente... Mas logo depois já me mandaram para o bloco de partos, devia ser umas 4 ou 5 da tarde. Tive que ir na maca, deitada, mesmo depois de ter perguntado e insistido que eu poderia ir andando ou no máximo de cadeira de rodas. Estranharam, como se fosse algo no mínimo absurdo, e disseram que não, que teria que ser na maca. E lá fui eu para o bloco de partos achando que estaria melhor por lá. Doce engano.
Lá chegando já me olharam torto por eu ter um plano de parto (no departamento da indução também, a enfermeira chefe até veio conversar sobre meu plano de parto).
E já começaram as intervenções: me amarraram no CTG. " E o CTG sem fio?" "Não precisa menina, esse aqui tb dá pra você andar olha..."  E eu dei 3 passos...
Água quente? Só dentro de uma luva de procedimento. Alimento? Tentei chá, mas como vomitava tudo, desisti. Só chupei umas balinhas que a Ana me trouxe para ter energia. Banho? Não. Esposo e doula juntos? Nem pensar. Trocar o esposo pela doula e vice versa? Não, só se for para ir comer e olha lá, onde já se viu, vai atrapalhar as outras parturientes! Enquanto isso o papo rolava solto, em alta voz, atrás da cortina que separava o quarto do resto do bloco de partos.
O quarto que eu estava era lilás, uma das minhas cores prediletas. E tinha um aparelho de som que uma das enfermeiras colocou música para mim... gostosinho. Tinha uma bola de parto e um adesivo de flor na parede.

Mas eis então que uma nuvem cinza se aproximou e trouxe o médico ao meu quarto!
Uma das coisas que a Enf. Chefe havia me dito era que os médicos eram chamados somente em último caso. Eu mal havia chegado, por que então um médico resolve aparecer?
Ele não se apresentou, mas ouvi que seu nome era Luiz Canelas. Logo já quis fazer um toque e começou com a insistência da epidural. E com isso vi uma platéia, literalmente, na porta do quarto, observando minha negativa da analgesia.

Eu vocalizava durante as contrações. Um aaahhh durante a expiração. Me ajudava muito!
Mas meu marido observou que isso começou a incomodar a equipe. E logo o médico veio novamente dizendo que precisava estourar a bolsa, pois "o CTG não está tranquilizador". Eu estava com 5-6 cm de dilatação disse que não queria e então me questionaram: "Mas vai nascer com a bolsa?" Como se isso fosse alguma coisa ruim... Nisso meu marido saiu e a Ana entrou. Falei para ela o que estava acontecendo e ela foi me fazendo massagem na lombar que me ajudou muito!
O médico entrou novamente, dessa vez com uma residente, dizendo que teria que estourar a bolsa, pois podia ter mecônio no líquido aminiótico e me olhou dizendo: "Você sabe o que é mecônio?"
Não respondi, não valia a pena...
Então quem fez o toque foi a residente. E durante uma contração ela manteve os dedos dentro de mim e a bolsa rompeu. Um líquido claro como água escorreu... e o médico virou as costas sem dizer nada.
Detalhes: O CTG sempre parecia "não tranquilizador" pois em vários momentos quando eu me mexia, pegava a minha pulsação, e não do Dudu. As enfermeiras percebiam isso e ajustavam o CTG ou pediam para eu deitar e ficar quieta um pouco para estabilizar o CTG. Mas o médico, que só olha para a tela, via a bomba relógio e começava a intervir desnecessáriamente. Já é comprovado cientificamente que o CTG em vez de trazer segurança, só aumenta a taxa de intervenções e consequentemente de cesarianas.
Cada vez que o médico entrava era um estardalhaço! Acendia as luzes, falava alto, fazia perguntas enquanto eu estava no meio da contração (e não conseguia responder). Total indelicadeza e falta de bom senso.

Com a bolsa rompida as contrações se tornaram mais intensas e as massagens e o toque da Ana foram muito reconfortantes. Mas eu sentia falta do meu marido comigo. Nisso a Enf. Ofélia chegou. Se apresentou falando baixinho, e foi uma verdadeira profissional do parto. Não interviu, conversou comigo sobre a posição para o expulsivo, e disse que se precisasse de alguma coisa poderiamos contar com ela.
Eu continuava vocalizando e me deixaram em paz e no escuro por um bom tempo... Que bom! Até que começei a sentir algo diferente, parecia que tinha vontade de fazer força. Foi nessa altura também que começei a sentir medo. Medo do expulsivo, medo do meu marido não estar lá comigo. Achei que não iria conseguir. Mas agachar entre as contrações me ajudava muito, e ficar na bola também, que gostoso!
Como eu estava com receio de começar o expulsivo e não ter meu esposo comigo, a Ana saiu e ele entrou.

Um tempo depois o médico apareceu e disse que teria que fazer outro toque. As enfermeiras ainda contestaram sua conduta, pois eu estava indo bem e já sentia uma certa vontade de fazer força. Então, num acesso de megalomania o médico diz: "Quem diz se está na hora de fazer força ou não sou eu".

Pausa: me explica, que tipo de estudo um médico desse tem? Desculpem a ironia, mas não me entra na cabeça que um profissional que deveria cuidar da saúde, tenha uma conduta dessa. Eu acho que sei alguns dos poréns do sistema médico, da formação, etc. Mas mesmo assim, não justifica tanta ignorância.

Continuando, o médico insistiu para fazer o toque e me deitaram na cama. Nisso ele retorna com um médico brasileiro e mais a anestesista. Insistem para que eu tome a epidural e mande embora a dor estúpida e sem sentido, nas palavras da anestesista Patrocínio. O médico faz o toque e continuo nos 6 cm.

Pausa: foi aqui que tive a certeza de que eles haviam lido meu plano de parto e decidiram fazer tudo ao contrário. Um dos pontos era extremamente claro: "Agradeço que não me seja oferecida medicação anestésica ou analgésica, a não ser que eu peça explicitamente". Por que então a anestesista fala daquela maneira?

Enfim, com a entrada espalhafatosa do médico e sua trupe, luzes acesas, barulho, eu me desconcentrei e já não conseguia mais relaxar entre as contrações. Ele fez o toque, 6-7 cm. Então, em tom ameaçador ele diz: "seu bebê ainda está alto, se ele não baixar vamos ter que fazer uma cesárea, por isso é melhor você tomar a epidural agora para ver se ele se encaixa". 

E essa é a hora que na perspectiva de um mal maior, cedemos a um "mal menor". Aceitei a epidural. Mas meu esposo teve que sair do quarto. A Enf. Ofélia esteve ao meu lado me auxiliando. No meio de luzes e contrações, estresse e medo, pois eu tinha mais medo da epidural do que do parto, me trazem um papel para eu autorizar a intervenção. No papel estava escrito os efeitos colaterais e possíveis problemas da anestesia. Que bela hora para se assinar uma autorização!
Enquanto a anestesista me preparava, dizendo que eu teria que me manter imóvel, eu me contorcia durante a contração. Então quando ela coloca a agulha na minha coluna, sinto uma espécie de choque percorrendo todo meu lado direito e me mexo. A médica grita dizendo "não, não se mexa". Eu já nem me preocupo em responder. E até hoje, dependendo da posição que me encontro, eu ainda sinto esse mesmo choque. 

Depois meu esposo retorna e a "paz" reina no bloco de partos. Menos no meu coração... Eu ainda sentia as contrações, mas percebi que elas diminuiram muito na frequencia. Continuava sem poder me movimentar e agora nem em pé podia mais ficar. Em duas horas, que foi o prazo que o médico deu para meu filho descer, devo ter tido no máximo 10 contrações... e antes elas estavam praticamente grudadas uma na outra.
Meu esposo sempre ao meu lado, me apoiando, rezando comigo, segurando a minha mão, me passando tranquilidade. Como era importante ter ele ali comigo. 

Passada as duas horas, novo toque, e ao invés de 6 para 7 cm, eu estava com 6 cm.
COMO ASSIM???  Meu esposo questiona o médico, ele ignora a pergunta e diz que por não ter evoluído na dilatação, pelo meu filho ainda estar alto, pelo CTG não estar tranquilizador, e por eu ser estreitinha de ancas, e por estar muito tempo em trabalho de parto (eu não tinha nem 15 horas), ele estava me encaminhando para a cesárea. Detalhe que eram quase 2 da manhã... Incrível a visão de raio-X que alguns médicos tem para diagnosticar incompatibilidade feto-pélvica tão cedo... E na minha opinião, a epidural só atrapalhou pois parou meu trabalho de parto.


Conforme os dias passaram, eu fui desistindo de questionar a decisão do médico, apesar de não concordar. Meu pai disse uma coisa e penso ser verdade: a gente nunca sabe o que poderia ter acontecido se não fosse assim. É verdade, não dava para saber. Fisicamente, eu e meu filho estamos bem. Ele nasceu com um apgar 10-10 se não me engano, um pouco incompatível com CTG não tranquilizador não é?

Eu fiquei muito nervosa durante a cirurgia, pois mais uma vez meu esposo não pode estar comigo. Me senti sozinha e desamparada. Tinha medo de desmaiar, pois tenho pressão baixa, e não ver o meu filho. Mas os aparelhos acusavam uma pressão altíssima e a anestesista dizia que eu tinha que me acalmar. Veio o medo da anestesia não pegar, pois quando mexiam em mim eu ainda sentia muito bem. Mas a anestesista me mostrou pacientemente que estava tudo certo e que a anestesia havia pegado bem. Quando tiraram meu filho, não ouvi seu choro. Ele não chorou... mas quando vi seu rostinho eu entendi porque. Ele tinha uma cara de pergunta: "O que eu estou fazendo aqui? Ainda não era a hora para eu sair." E uma lágrima escorreu do meu olho ao ver os seus olhos grandes e expressivos como de seu pai... Me trouxeram ele e passaram seu pézinho no meu rosto e já o levaram.
Enquanto me suturavam, começei a sentir uma dor no ombro direito. Eu estava amarrada e aquilo estava me incomodando. E essa dor começou a se espalhar para o peito. Eu informo isso a equipe, que diz não ser nada e que está tudo bem. Injetam uma coisa no meu soro e eu pergunto o que é e para que serve. Me respondem só depois que eu insisto. A dor no ombro e no peito foi aumentando e eu novamente informo a equipe. A anestesista diz ser impossível eu sentir alguma dor pois estou anestesiada até ao peito, que era para eu me acalmar. 
Mas estava doendo, e eu tinha medo de ser alguma coisa mais grave e estarem ignorando e disse novamente da dor. A anestesista diz então: Já sei o que você precisa. E injeta um líquido direto na minha veia, e depois disso lembro de acordar toda babada e com a máscara de oxigênio no rosto. Ainda estavam trabalhando em mim. E só depois, quando li meu prontuário, que entendi o que tinha acontecido naquele momento. A anestesista Patrocínio me aplicou propofol. É minha gente, propofol... que pra quem não sabe é um anestésico injetável, o mesmo que matou o Michael Jackson, só para vocês fazerem uma associação. E por que? Eu desconfio que tenha sido para me calar a boca. Pois no meu prontuário está escrito algo assim no quesito "problemas durante o procedimento": "paciente perguntava tudo, tinha doula, não queria nada e teve tudo que tinha direito".

Suturada, sem meu filho e morrendo de frio, me levaram para a recuperação. Eu não entendi porque sentia tanto frio e perguntava. Depois me disseram que era por causa do ar condicionado da sala cirúrgica e por eu estar sem roupa. Eu tremia dos pés a cabeça e pedia pelo meu filho e meu esposo. Diziam que não era possível. Eu insistia, para cada enfermeira que passava do meu lado. Eu sabia da importância da amamentação nas primeiras horas e não queria perder mais essa... Até que finalmente a Enf. Ofélia trouxe meu esposo e meu filho. Que alívio.
Dudu tinha (tem até hoje) um cheiro tão gostoso! Nunca vou me esquecer do seu cheirinho nos primeiros dias. Ficou brincando com o seio até que do nada, pegou e começou a mamar! Eu podia amamentar meu filho, que alegria!


Nesse caso, o post é sobre algo que me foi confiscado: meu direito a um parto humanizado, o respeito às minhas escolhas e decisões. 
Mas como sempre diz meu esposo: as coisas acontecem como tem que acontecer. É verdade, e isso tudo vem me abrindo inúmeras oportunidades: não só no aspecto pessoal, mas também, acredito eu, no profissional. E assim, eu confisco o que faço depois, o que faço com a violência obstétrica que sofri, o que faço com a frustração, com a angústia, e com a cicatrização dessa ferida. 
E isso sim, ninguém pode tirar de mim, isso sim, não vai escapar.

Claro, não poderia deixar de agradecer a todos que participaram.dessa jornada, meu filho, meu esposo querido, minha família, amigos, nossa doula, profissionais e acima de tudo a Deus, pelos tesouros de minha vida. Muito obrigada de todo meu coração!

sábado, 8 de junho de 2013

Como cheguei até aqui?

Eu deveria ter uns 12 anos, estava aguardando meu horário para a aula de natação. Folheava uma revista e vi uma foto de um bebê nascendo numa piscina. Achei fantástico, principalmente pela explicação de que aquilo era menos traumático para o bebê. Não me questionei. Aceitei com a confiança que tenho quando alguma coisa me faz sentido. É quando o meu coração fala.
Guardei na memória, para quando engravidasse.
Quando engravidei, já sabia que gostaria de ter um parto normal.
Foi então que a engrenagem da sincronicidade começou a funcionar. Uma colega de trabalho me emprestou um livro: Memórias do Homem de Vidro - Reminiscências de um Obstetra Humanista, autoria de Ricardo Herbert Jones.
Confesso que o título e a capa do livro não me chamaram a atenção. Pensei: Isso deve ser algum livro da treta...
Paguei a leviandade da língua. Era o livro que traria de volta a minha ideia do parto na piscina, e não só.
Mergulhei fundo, talvez até demais. Mas a cada frase que eu lia, a confiança do sentido gritava de alegria!
Cheguei a sonhar que o autor estava em Portugal e me ajudaria no parto.
Gosto da subjetividade com que escreve, com que percebe as mulheres e suas almas. Subjetivo e claro, vai alinhavando os pensamentos, e antes mesmo do final, me vi totalmente seduzida por essa nova visão do parto.
Mas ao mesmo tempo que fiquei maravilhada por ver se materializando algo que tinha dentro de meu inconsciente, tive medo pela realidade que me foi mostrada.
Entre outros esclarecimentos, acabei com a dúvida sobre o meu nascimento e da maioria das pessoas que conhecia. Descobri porque nem minha mãe, nem minhas tias (entre tantas outras mulheres) tiveram um parto normal. Sou filha da epidemia de cesarianas que se instalou no Brasil, e infelizmente se mantém até hoje.

Esta semana, encontrei um texto do Dr. Ricardo Jones aqui. O título era: Medo.
E um clarão de ideias explodiu na minha mente.
Me deixou pasma, por vários motivos.
Pela franqueza e honestidade com que o próprio autor assume seus medos, seus erros e nos conta episódios onde o medo surge.
Pela clareza com que nos mostra de onde vem a arrogância tão fácil de identificarmos nos profissionais que exercem a medicina.
"Sim, eu disse isso, com toda a convicção. Com toda a empáfia, toda petulância e com todo…. o medo. Mas medo de quê? Medo de não ser aceito pelos meus pares, de não ser reconhecido, de que zombassem de mim. Medo de ser diferente e de poder estar errado. Medo das consequências de ver o mundo por um outro prisma. É assim que somos: um bando de medrosos. Eu tinha MEDO, muito medo."
É pelo tiro certeiro que ele dá nesse sentimento tão comum, e na maioria das vezes, tão difícil de identificar e mais difícil ainda de assumir, que eu adoro seus escritos.
Ele finaliza então dizendo sobre uma recomendação que oferece a estudantes que vão conversar com ele:
“Se você tem alguma alternativa, não me dê ouvidos. Saia daqui, tome a pílula azul e acorde amanhã no seu quarto com o livro do Resende todo babado embaixo de sua cara. Mas se quiser tomar a pílula vermelha lembre que ela não tem volta, não há como retornar de um passeio que te leva a uma consciência maior de si mesmo e da sua profissão. Mas só a tome se não houver mais nenhuma escolha, pois no mundo dos que nadam contra a corrente cada braçada é dolorosa e angustiante“.
E essa é uma breve descrição de um dos ramos que me trouxeram ao mundo do parto e da maternidade.

O que não pode escapar daqui é a lembrança de que nadar contra a corrente é mesmo assim, doloroso e angustiante.
Mas só assim, poderemos chegar a nascente (em todos os sentidos), como disse João Paulo II:
"Se você quer encontrar a nascente tem que subir contra a correnteza."


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

a eterna busca

Sim, eu tenho uma eterna busca.
Saber o que tenho que fazer nessa vida.
As vezes me parece que até tenho prazer em saber dessa busca. Mas na maioria das vezes o que me dá é desespero mesmo.
Aquela coisa de ver a água subindo e não saber o que fazer.
Então hoje para ilustrar esse post, trago imagens da Revista Sorria, do projeto 365 Sorrisos.
Sim, sempre há um caminho!
Eu já andei por vários, e o último que trilhei, decidi parar no meio, para reajustes. 
Meus caminhos sempre tiveram a ver com ciência, evolução pessoal/espiritual, buscas, viagens e descobertas. Mas a danada da pergunta sempre esteve comigo, onde quer que eu estivesse. 
Não sei, já achei que fosse muita coisa, e com isso vivi muitas experiências maravilhosas! Já trabalhei com cavalos, fiz um mochilão, morei em convento, terminei um mestrado, vendi cookies e cupcakes, trabalhei com flores, atravessei o atlântico para conhecer o amor da minha vida, comecei e desisti de um doutorado, tive um filho, e essa última experiência foi a mais marcante. A experiência do parto. Não tem um dia que não me lembre dos momentos que vivi antes do meu filho nascer. 
Era isso que eu devia fazer, deixar ir as lembranças ruins... Mas não consigo. Os momentos que vivi depois que meu filho nasceu foram os mais importantes e felizes, mas o que aconteceu antes é uma "pedra no meu sapato".
E como diz a frase de Nemo Nox (não, não é Fernando Pessoa): "Pedras no caminho? Eu guardo todas. Um dia vou construir um castelo." , pensei que talvez eu deva usar essa pedra e começar alguma coisa.

Minhas armas durante a gravidez foram a informação. Mas talvez eu tenha exagerado e meu neo-cortex tomou conta e não deixou algumas coisas acontecerem. Fato aceite, é hora de descobrir o que fazer com uma má experiência. 

Hoje sou fã de alguns bloggers que estão relacionados com esse assunto, e cujos escritos me fazem muito sentido, são eles: Cientista que virou mãe, Orelhas de vidro.
E tentando fazer o que diz a imagem, apesar de muitas vezes eu não fazer ideia de pra onde minha intuição aponta, pensei que como dedico muito tempo a este assunto, talvez eu tenha que investir nisso de outra maneira. 
Pensei nisso depois de ler um texto que meu marido me recomendou: The disciplined pursuit of less, em tradução livre: "A disciplinada busca pelo menos". Mais uma vez, a tal busca.
Quando os três fatores exemplificados no círculo acontecem, segundo o autor, é quando temos o ponto mais alto de contribuição para a sociedade. 
Eu tenho uma veia científica muito forte, não posso fugir disso. Acredito que mudanças profundas estão acontecendo. Só falta descobrir a minha paixão... Que é sempre onde fico parada. 


Mas não podia deixar de confiscar esse início de movimento, que me leva a ter esperança que meu passado e presente estão descortinando um futuro que já é quase possível prever.