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quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

a mulher selvagem

Ontem terminei o livro que me fez entender muito de mim mesma. Que me deu muita confiança sobre o que eu sentia. "Mulheres que correm com os lobos - Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem" de Clarissa Pinkola Estés. 
O primeiro contato que tive com esse livro foi quando dei um exemplar para minha mãe, no dia das mães. Não fazia ideia da riqueza da obra, apenas tinha achado interessante o título e como minha mãe é psicóloga junguiana, e o livro falava de um arquétipo, achei que poderia ser interessante para seu caminhar.
Eu comecei a ler este livro em 2016. Mas só consegui terminá-lo agora. Me acontece isso com alguns livros que leio. Parece que as vezes preciso dar um tempo na leitura. Por mais que eu esteja adorando o que leio, de repente não sobra mais tempo, esqueço do livro e assim vai indo. Até que por obstinação eu decido que tenho que terminar a leitura e me entrego novamente.

O conto do final, sobre a donzela sem mãos foi particularmente preenchedor. E no último capítulo, ao falar do "Canto Hondo, o Canto Profundo", senti uma espécie de empurrão.

"Tenhamos em mente que não se pode esconder o que há de melhor. A meditação, a instrução, todas as análises de sonhos, todo o conhecimento dos verdes campos divinos não tem nenhum valor se forem guardados para a própria pessoa ou para uma dúzia de escolhidos. Portanto, apareça. Apareça onde quer que esteja. Deixe pegadas fundas porque você pode fazer isso. Seja a velha na cadeira de balanço que embala uma ideia até que ela volte a remoçar. Tenha a coragem e a  paciência da muher na história do urso da meia-lua, que aprende a ver além da ilusão. Não se distraia queimando fósforos e fantasias como a pequena menina dos fósforos.
Não desista até encontrar a família à qual pertence, como o patinho feio. Despolua o rio criativo para que La Llorona encontre o que lhe pertence. Como a donzela sem mãos, deixe que o coração paciente a guie floresta afora. Como La Loba, colha os ossos dos valores perdidos e cante para devolvê-los à vida. Perdoe tantos quanto puder, esqueça um pouco e crie muito. O que você faz hoje influencia suas descendentes no futuro. As filhas das filhas das suas filhas irão provavelmente lembrar-se de você e, o que é mais importante, seguir seu exemplo." 

Sempre me questionei do porque escrever. Era uma necessidade do ego? A intenção era inspirar pessoas que estão passando por situações semelhantes, e como numa corrente virtual, não nos sentirmos tão só. Quantas vezes fui acolhida por textos, histórias, e publicações de pessoas que mal conheço. Nos desertos que algumas vezes atravessamos na vida histórias como essas são pequenas gotas d´água que encontramos pelo caminho, que costumo interpretar como sinais de que estou no caminho que tenho que estar. 
Clarissa foi um mar nesse sentido.

Quando engravidei, no início, acreditei que essa mulher selvagem existia dentro de mim. Mas por inúmeros fatores, eu não consegui encontrá-la. No momento que mais precisei, foi quando me senti mais desamparada. Eu sabia o poder dela, e não consegui me entregar a ela. Foi doloroso, como toda iniciação. Mas hoje, com a consciência um pouco mais ampliada, consigo perceber a importância de tudo.
Graças a essa torturante iniciação, tive acesso aos conhecimentos que tanto busquei em outros tempos. Não, não precisamos passar por momentos dolorosos para encontrarmos o que buscamos. Mas hoje percebo que situações delicadas servem para nos tirar um pouco da inocência nociva.
Hoje o acesso ao conhecimento é muito fácil, e temos a chance de nos inundarmos com alguns deles muito mais rapidamente. Entre prós e contras dessa facilidade, sou grata por isso.
O conhecimento do feminino profundo chegou até mim por inúmeras fontes: todo o material disponibilizado por Sri Prem Baba, blogs, páginas do Facebook, Instagram, livros, e até as Feiras da Maternarum que participei me proporcionaram algumas conexões essenciais. Que bela colcha de retalhos.

Clarissa também me deixou identificar os ciclos de 7 anos em minha vida.
Menstruei aos 14.
Me formei aos 21.
Meu filho nasceu aos 28.
E dos 28 até os 34, foi o período em que percebi algumas ilusões se desfazendo, e algo mais sólido, profundo e consistente surgindo. Hoje, minha submissão e devoção ao caminho são irrevogáveis. Aos 35, um novo ciclo se inicia. E eu que me achava toda desconexa do mundo selvagem, percebo agora que sempre estive ligada a ele, apesar de não conseguir senti-lo. Fica o lembrete, para que alguns detalhes não se percam. Porque o essencial está apreendido. 

"Por isso, se você estiver a um passo de escapar, de assumir riscos - se ousar agir de modo proibido, procure cavar para encontrar os ossos enterrados mais fundo, fazendo frutificar os aspectos naturais e selvagens da mulher, da vida dos homens, das crianças, da terra. Use seu amor além dos seus bons instintos para saber quando rosnar, quando atacar, quando aplicar um golpe violento, quando matar, quando recuar, quando ladrar até a madrugada. Para viver o mais próximo possível da força espiritual selvagem, a mulher precisa sacudir mais a cabeça, ser mais exuberante, ter mais faro na sua intuição, ter mais vida criativa, enfiar mais a mão na massa, ter mais solidão, ter mais companhia de mulheres, levar uma vida mais natural, ter mais fogo, elaborar mais palavras e as ideias. Ela precisa de um maior reconhecimento por parte das suas irmãs, de mais sementes, mais rizomas mais delicadeza com os homens, mais revolução na vizinhança, mais poesia, mais descrição das fábulas e fatos do feminino selvagem. Mais grupos de costura terroristas e mais uivos. Muito mais canto hondo, muito mais canto profundo.
Ela precisa sacudir o pêlo, percorrer as trilhas conhecidas, afirmar seu conhecimento instintivo. Todas nós podemos afirmar pertencer ao antigo clã das cicatrizes, ostentar orgulhosas as marcas do combate do nosso tempo, escrever nossos segredos nas paredes, não aceitar sentir vergonha, abrir o acesso à saída. Não vamos nos desgastar com a raiva. Pelo contrário, vamos extrair forças dela. Acima de tudo, sejamos espertas e usemos nossos talentos femininos."


quarta-feira, 6 de maio de 2015

Onde se perdeu?

O Dudu fez 3 anos dias atrás. E misteriosamente, algumas coisas se resolvem dentro de mim neste período...
Dessa vez surgiu uma pergunta, referente a certos fatos que demorei a admitir, aceitar, compreender.
Durante boa parte da minha vida eu me senti desconectada de mim mesma. Nunca conseguia discernir muito bem o que dizia minha voz interior. Sempre haviam infinitas perguntas e pouco espaço silencioso para as respostas surgirem. Com isso minha mente se alimentava de perguntas e mais perguntas.
Mas em alguns momentos eu comecei a perceber que simplesmente sentia o que era preciso fazer e ia lá e fazia. Quando decidi não imendar um doutorado foi assim, e o mesmo quando decidi ir para Portugal fazer woofing e conhecer o Júnior. Parecia loucura, havia alguns riscos, mas incrivelmente eu não sentia medo nenhum ou dúvida alguma sobre o que deveria fazer. E tudo corria muito bem.
Exceto no aspecto profissional, mas isso é outro assunto.
Quando engravidei e minha colega de trabalho me emprestou o livro do Ric Jones - Memórias do Homem de Vidro, eu voltei a sentir uma dessas certezas. Ao terminar o livro eu tinha total e absoluta certeza no meu coração que eu queria que o Dudu nascesse em casa. Não queria ter que ir para o hospital. Eu sabia que assim as coisas não iriam correr bem. Me conhecia o suficiente para saber minhas necessidades.
Mas as pessoas ao meu redor não. Então comecei uma "batalha". Primeiro para convencer meu esposo de que eu precisava de uma doula nesse momento. Ele concordou, entrevistamos várias mulheres e encontramos a nossa. Agora eu precisava mostrar a ele porque eu queria ter nosso filho em casa. Eu virei a "maluca" do parto. Mandava-lhe vídeos, textos, conversei com um enfermeiro obstetra, assistimos documentários, inúmeros vídeos de parto. Contei-lhe do meu medo e ir para o hospital. Mas ele disse que não se sentia seguro para que nosso filho nascesse em casa. Preferia que eu fosse para o hospital.
Meu medo só aumentava, junto com a minha barriga. Me lembro de uma vez em que chorei desesperadamente ao falar com meus pais pelo skype explicando-lhes também que eu não queria ir ao hospital para ter o Dudu. Eles concordavam com o Júnior e me senti desamparada e incompreendida. Até quando comentei com a nossa doula que gostaria muito de um parto domiciliar, ao qual ela disse que havia conversado com o Ricardo Jones e que ele havia recomendado um parto hospitalar devido a um problema de tireóide que tenho. O problema em si não exclui a possibilidade de parto domiciliar, o porém seria se eu tivesse alguma complicação e a repercussão que isso poderia ter.
Não me convenceu, só serviu para me sentir ainda mais incompreendida e desamparada.
O resultado eu já contei aqui no meu relato de parto.

Por esses dias então andei pensando: onde estava a menina que ouvia seu coração e cruzava o oceano rumo ao desconhecido?
Eu não tinha confiança suficiente para sustentar minha escolha naquele momento.
Não me "empoderei", por me sentir sozinha, incompreendida, desamparada. Por eu mesma duvidar da minha capacidade de parir.
Junto a isso, eu cedi conscientemente aos desejos alheios por pensar que talvez estivesse sendo intolerante ao querer que fosse feita somente a minha vontade.
Ao tentar (forçosamente) superar esse meu medo, ao não encontrar forças para isso, eu inconscientemente me desconectei.
Me lembro de passada as 41 semanas de gestação, minha doula perguntar se eu estava com medo de alguma coisa, e eu responder que não, que estava tudo bem.
MENTIRA: eu tava morrendo de medo de ir parir no hospital. Eu não queria aquilo! Mesmo sabendo que esse meu medo era pior, pois acabaria tendo que ter o parto induzido, eu não conseguia lidar com isso. Mas eu não conseguia verbalizar isso. Todo o processo até ali já tinha me deixado tão triste, e aflita. Era o momento mais importante da minha vida. E eu não consegui sustentar a minha escolha. Me permiti ser refém dos desejos alheios.

De novo eu me pergunto: onde se perdeu a menina super confiante?

Ainda não encontrei resposta para isso, mas questionar-se é o primeiro passo. Agora é questão de tempo.
Reconhecer que essa voz se perde em alguns momentos é como um insight. Hoje aprendo diariamente como fortalecer, como reconhecer, como buscar, como encontrá-la.
Só assim será possível ser fiel a própria alma.

Confiscado.


segunda-feira, 27 de abril de 2015

Gratidão ao universo

Tem uma coisa borbulhando dentro de mim e eu senti que a única maneira de trazer isso para o concreto era escrever um post!
E essa coisa borbulhando se chama GRATIDÃO!
Eu não sei explicar, eu apenas sinto.
Estou passando por um momento complicado em vários aspectos da minha vida. Se eu te contasse metade você diria que eu estaria maluca por sentir gratidão.
Mas além da gratidão, eu te conto que sinto outra coisa, uma coisa que sempre me foi muito difícil para sentir, e que por acaso ontem, eu estava a um fio de perdê-la, que é a FÉ.
Fé de que as coisas vão dar certo, fé de que eu e todos os seres do planeta somos merecedores de alegria, amor, saúde, paz, prosperidade, felicidade!
Essa constatação, ou esse insight veio se construindo em mim a vida inteira.
Me senti como diz o Jung neste post em que transcrevi um trecho de seu livro.
"A coisa mais importante é o aqui e o agora. Este é o momento eterno, e se não o percebes, perdeste a melhor parte da vida, perdeste a percepção de que és portador de uma vida contida entre os pólos de um futuro inimaginável e de um inimaginável e remoto passado. Milhões de anos e incontáveis milhões de antepassados trabalharam para este momento, e tu és o cumprimento deste momento."
 Eu acho que não estou conseguindo transmitir o tamanho da minha alegria ao perceber estes sentimentos, ou talvez seja apenas um pico da minha bipolaridade hahahahaha. (não, até onde eu sei não sou bipolar) :P

Poderia escrever um livro descrevendo onde percebo todos os pontos da minha vida se conectando.
Me vem a imagem que vi na TEDx talk do Augusto de Franco que participei.


Mas para você ter uma noção mais clara do que quero dizer, assista (de novo para alguns) esse vídeo do Steve Jobs.


Engraçado como assistir de novo depois de alguns anos faz bem pois mudamos o foco do que nos chama a atenção.

Mas gostaria de partilhar com vocês duas coisas que me despertaram hoje: fazer o minicurso GRÁTIS da Melodia Moreno: "Como ganhar dinheiro online ensinando o que você sabe e ajudando outras pessoas". Então se você ficou curioso, corre no site clicando aqui que ainda está disponível!
A outra foi o Satsang do Sri Prem Baba que você pode ler aqui.
Eu não faço ideia de quem esse Sr. seja, mas eu me identifico muito com pequenas publicações que ele faz no seu facebook com o nome de Flor do Dia. A de ontem me chamou particularmente a atenção e resolvi fazer uma coisa que nunca fazia "por falta de tempo", que foi ler o Satsang completo.
E então tive essa epifania, que não podia deixar de confiscá-la aqui.
Tanto que nem consegui terminar de lê-lo. Tive que seguir meus instintos e parar para escrever esse post. E parei justamente quando li e reli essa frase e não conseguia prosseguir. Foi quando resolvi dar voz para minha intuição e parir esse post :)
"Parece que o principal aspecto da humanidade é a capacidade de se doar, é a capacidade de criar união, de colocar o amor em movimento através dos dons e talentos. E do humano podemos evoluir para o estado divino, podemos, em algum momento, ser canais da perfeição divina, que é quando transcendemos a consciência humana e nos identificamos com a consciência crística, com a consciência búdica. É quando reconhecemos a nossa natureza crística, a nossa natureza búdica; quando reconhecemos que somos esse princípio de vida única, por trás da ideia de que somos um nome, de que somos nossa história, de que somos um corpo, de que somos um ego. Ou seja, quando encontramos a unidade dentro da multiplicidade."
E para finalizar, mais um dos pontos da minha vida! Confiscado :)


sábado, 11 de abril de 2015

Sobre listas e insight.

Eu adoro listas, me ajudam a lembrar das coisas e me manter no caminho que me proponho. Quando li isso, ao mesmo tempo tive um insight sobre uma coisa que me incomodava: o tempo perdido nas redes sociais.  Vejam como tudo se conecta lindamente :)

Retirado do livro: O Vazio Luminoso - Para entender o clássico Livro tibetano dos mortos.
Por Francesca Fremantle. Pg 308 e 309.

"Os "quatro pensamentos que transformam a mente" ou "quatro lembretes" é um ensinamento mahayana sobre o qual se medita repetidamente com o mesmo propósito. O primeiro pensamento é a contemplação do valor da vida humana. Considerando todas as formas de vida possíveis nos seis reinos do samsara, é extremamente raro nascer como um ser humano, e ainda mais raro nascer em um lugar e um tempo onde a pessoa tenha a oportunidade de ouvir e praticar o dharma. O segundo pensamento é a contemplação da impermanência. Tudo está mudando incessantemente e desaparecendo; não sabemos quando a morte vem, somente que ela é certa. O terceiro pensamento é a contemplação do karma, a inevitabilidade de causa e efeito. O que quer que pensemos, digamos ou façamos coloca em movimento uma cadeia de consequências da qual não podemos escapar, seja nesta vida ou na próxima. O quarto pensamento é a contemplação das falhas do samsara e o sofrimento inerente na situação. Olhando para a origem do sofrimento reconhecemos que ele brota da ganância, do ódio e da ilusão do ego, agarrado à existência individual.
Estranho como possa parecer, embora o ego apegado seja realmente nada a não ser causa de tristeza, é extremamente difícil abandoná-lo.
(...)
Mas iluminação significa a morte do ego; a pessoa que se tornar iluminada não estará mais lá.
(...)
Se nunca compreendemos a verdade da impermanência ou praticamos desapego, quando a morte chega, agarramo-nos desesperadamente à nossa antiga vida. Se não tivermos confiança na bondade básica de nossa mente, seremos incapazes de abandonarmos no espaço aberto. Se não tivermos olhado além da superfície da consciência, não reconheceremos a natureza luminosa da mente quando ela for revelada."

E por morte, eu entendo a finalização de ciclos, de relacionamentos, de momentos, de prazeres, e até de dores.
Lendo tudo isso, ainda tive um insight fazendo um paralelo sobre as informações que circulam nas redes sociais e o pensar incessante. Muitas vezes já me peguei num ciclo sem conseguir sair do facebook por exemplo... e outras fiquei viajando em algum assunto e não consegui produzir nada. É difícil quebrar ambos os ciclos, pois vive-se uma ilusão. Mas é necessário perceber e sentir que a vida está além disso tudo, porque racionalmente, já sabemos disso, mas é preciso que isso seja transmutado em atitude para a mudança ocorrer.

Apreendido! Ou desapegado? :)

quarta-feira, 9 de julho de 2014

eu não me torno, eu não sou.

Eu não me torno uma boa mãe por conta de todos os textos que leio sobre maternidade.
Eu não me torno uma boa pessoa por conta de todos os vídeos de ações bondosas que assisto.
Eu não me torno uma pessoa caridosa por conta de todas as pessoas caridosas que admiro.
Eu não me torno uma empreendedora por conta de tudo que já li sobre empreendedorismo.
Eu não me torno uma yogini por conta das práticas que tive no passado ou pelo que já li sobre yôga.
Eu não sou uma cientista por ter um título de mestrado e meio doutorado.
Eu não sou médica veterinária por ter cursado essa faculdade.
Eu não sou escritora por escrever um blog.
Entre outros...

Apesar de querer ser tudo isso.

É muito mais que isso.

É se despojar do ego, ir lá e fazer. O tal do "dar a cara a tapa", sabe? É o velho ditado: quem quer faz, quem não quer, inventa uma desculpa.
Simples assim.

Mas a gente complica. Inventa razões, olha para o próprio umbigo. Dimensiona nossas limitações e as disfarça com uma lamentação: Eu queria tanto! Mas...

Consumimos informações que nos satisfazem. Como bem pontuado neste vídeo aqui. Mas que não nos levam a nenhum lugar palpável. Já falei também sobre esse sentimento neste texto.
Só nos tornaremos melhores quando começarmos a produzirmos, errarmos, aprendermos, e sairmos do nosso mundo imaginário de admirar pessoas e assistir vídeos.

Claro que isso é um começo! Uma direção, uma inspiração, bem melhor do que se manter ignorante sobre o que se quer ser. Mas é preciso uma dose extra de esforço e coragem, para reconhecer que apenas isso não serve de muita coisa.

Coragem, pois é difícil olhar para si mesmo e não reconhecer a pessoa que se queria ser (ou se pensa ser). E ainda assim arrumar energia para sair da inércia interior e correr atrás do tempo perdido.

Pelo menos para mim...
Apreendido, por enquanto.




sábado, 12 de abril de 2014

informar-se X empoderar-se

O Dudu está próximo de completar 2 anos e junto com isso vem a necessidade de escrever e registrar sobre novos insights que tive ao longo desse 1 ano, principalmente sobre meu "nó emocional", leia-se parto.

1 ano atrás, consegui escrever meu relato de parto e as impressões que tinha na época. Hoje graças a Deus pude ressignificar um pouco mais essa experiência.

Percebo que fui sim vítima de violência obstétrica, vítima do sistema, e também, vítima de mim mesma. Percebo que em alguns aspectos eu "soltei as rédeas", da mesma maneira que fazia quando montava e participava de competições equestres. Soltei e segui a correnteza, ou melhor, segui para onde me levaram: um centro cirúrgico.

O mais marcante para mim foi perceber a diferença entre os termos informar-se e empoderar-se.

Polêmicas a parte, o termo empoderar-se surgiu na minha vida quando engravidei e tive contato com o mundo da humanização do parto.

No início, não gostei do termo e da maneira que era empregado. A palavra poder sempre me intimidou um pouco. E optei por não utilizá-la quando falava sobre o assunto. Só por isso, já tenho um começo que me direcionou ligeiramente para outro rumo.

Me informei MUITO durante a gravidez. Li algumas dezenas de artigos, assisti uns 10 filmes sobre o assunto e li quase uma centena de relatos de parto. No meu próprio relato de parto já havia chegado a conclusão que esse talvez tivesse sido um problema. Hoje penso que mais que um problema, essa informação toda me iludiu. E para tentar explicar isso, preciso usar um exemplo da minha experiência acadêmica.

Em toda minha vida acadêmica, sempre tive notas muito boas, modéstia a parte, me formei entre os 3 melhores alunos da minha turma na faculdade, passei em segundo lugar no vestibular e em segundo lugar também no mestrado. Mas como sempre ouvimos falar, notas não significam muita coisa, e é verdade. Por que? Porque na maioria das vezes, eu sempre tive uma noção geral do assunto e do seu mecanismo. Mas não tinha tudo aquilo dentro da minha cabeça. Sempre precisei de um ponto de início, um fio da meada para me localizar. O modelo de avaliações pelas quais passamos me serviam muito bem neste aspecto. Tanto que nas raríssimas disciplinas que ofereciam questões discursivas nas avaliações, minhas notas já não foram tão especiais assim. Por isso, sempre senti que meu conhecimento, de certa forma, também era uma ilusão, pois não era capaz de armazenar toda a informação necessária para explicar alguma coisa de forma detalhada, como eu acreditava ser necessário caso eu realmente tivesse absorvido e vivenciado o conhecimento.

Vivenciado.

Essa palavra significa muito. E é aqui que as coisas se encontram. Pois acredito que é a partir do momento que incorporamos, engolimos, absorvemos, internalizamos as coisas, que elas passam a fazer parte de nós e tem o poder de mudar nossos hábitos, atitudes, nosso rumo.
Eu me informei sobre o parto, tinha certeza da minha escolha, me preparei como mandava o protocolo (quanta inocência): fiz um plano de parto, tinha uma doula, visitei a maternidade, me certifiquei das possibilidades, me informei, sabia dos meus direitos, tinha um companheiro que me apoiava como podia. Só não tinha um médico de confiança, o que em Portugal não era coisa fácil, pois lá, pelo menos na época, não haviam médicos humanizados (até onde eu sabia).
Mas na hora P (de parto), soltei as rédeas. Percebi isso quando li este relato de parto. No momento que ela questiona a necessidade de mais um CTG durante seu trabalho de parto e entra num acordo de 5 minutos.
"Era isso que eu devia ter feito!!!!!!"
Foi a primeira coisa que me veio na cabeça. Insight.
Mas meu medo de que meu lado intelectual intervisse na hora P, que deveria ser uma hora puramente fisiológica e instintiva, fez com que eu não questionasse certas atitudes, procedimentos, nem nada do tipo. Na minha cabeça, eu havia delegado essa responsabilidade para meu esposo e minha doula. Que fizeram o seu melhor dentro das possibilidades. Mas a hora P era a minha hora. Eu deveria ter assumido essa responsabilidade, me empoderado e lutado pelo que eu queria.

Não tiro a culpa do sistema muito menos do médico.
Eu só queria que me deixassem em paz.


Mas 2 anos depois, eu percebo e assumo minha parcela de responsabilidade pelo que me aconteceu.
Isso faz parte do crescimento, do amadurecimento, do preocessamento do "luto" pelo meu "não parto", e me sinto privilegiada por ter conseguido pensar nisso.

Apreendido. Confiscado. Amarrado.

Pois não foi apenas nesse momento que fiz isso. Quantas e quantas vezes ignorei (consciente ou inconscientemente), coisas que não gostava, e soltei as rédeas, por inúmeros motivos. E depois chorei pelos resultados que recebia.
Quantas e quantas vezes "dormi", psicologicamente falando, quando não fui plenamente consciente do momento presente e do que se movimentava dentro de mim. Ignorando o que queria, por medo de enfrentar certas coisas.
Quantas coisas não confisquei...

Que cada vez mais, sejam menos coisas...

quarta-feira, 5 de março de 2014

12 anos de escravidão e um insight

Assisti nesse carnaval o filme 12 years a Slave (2013) ou 12 anos de escravidão.
Já tinha tido a oportunidade de assistir em outro momento, mas só de pensar em ver cenas de sofrimento, desisti. Só que no dia eu tinha lido que este filme tinha ganho o Oscar. Resolvi arriscar.

Não sei explicar, mas em muitos momentos eu fechei os olhos e em outros eu saí do quarto. Não consegui suportar ver tanto sofrimento. Ver e pensar que tudo aquilo realmente aconteceu, já que o filme é baseado numa história real bem documentada.

O que me chamou a atenção é que isso nunca tinha me acontecido. Lembro de ter assitido Sinhá Moça, e outras novelas/filmes que abordavam o tema mostrando bem a crueldade existente e não ter ficado assim. No máximo pensava no assunto por dois minutos e logo passava para frente.

O que aconteceu então?

Consigo identificar basicamente dois fatores: Sincronicidade e Maternidade.

Sincronicidade porque de repente, tudo que tinha lido e que de certa forma parecia desconexo, durante o filme percebi como estava tudo interligado. Leituras como Dalai Lama, Jung, Thich Nhat Hanh, Augusto de Franco, Campbell, Morin, Bauman, a bíblia, João Bernardes da Rocha Filho e Eckhart Tolle (por último), de repente se uniram e como num "boom" na minha alma, fizeram sentido. Não que antes não fizessem, mas desta vez hove a vivência de algo em específico.
Ganharam sentido porque mentalmente eu entendia o que diziam. Mas com este filme eu senti. Senti o que dizem sobre a dor do outro ser também a nossa dor, e a raiva e o mal do outro também serem o nosso mal.
A tal história de Gandhi, "seja a mudança que você deseja ver no mundo", e a outra que desconheço o autor "não deixe que o mal do outro provoque o seu mal", e por fim: de nada adianta querer mudar o mundo se não mudarmos a nós mesmos, pois fazemos todos parte de uma mesma rede, de uma mesma energia comum, somos filhos do mesmo pai, desdobramentos da mesma consciência universal suprema que tudo cria e tudo transforma.

Nossa, parece que vomitei um monte de coisa do que andei lendo. Mas deve ter sido isso mesmo, pois ao ver apenas uma pequena parte do sofrimento inflingido aos escravos mostrado pelo filme, e ao ver a ira e o ódio daqueles que provocavam esse sofrimento, eu me vi nos dois lados. Reconheci o meu mal nos olhos deles, e reconheci meu sofrimento no choro dos que apanhavam. Parece dramático e bizarro né? Também achei, mas foi assim mesmo que senti. E uma questão ainda maior surgiu: e todas as atrocidades que acontecem ainda hoje e que sequer tomamos conhecimento?? Mas parei por aqui para não surtar.

Sendo assim, uma questão continuava em aberto: Por que eu estava sentindo isso agora? Na hora já me veio a resposta: meu filho. A maternidade me abriu portas e janelas que eu simplesmente era uma completa ignorante. A questão sentimental é uma delas. Muitas vezes optei por ignorar certos sentimentos, na maioria das vezes, inconscientemente. Mas com o meu filho, simplesmente não consigo mais ignorar muita coisa. E isso para mim é uma benção!! Me traz um sentimento de gratidão que só me faz cada vez mais querer ser melhor como pessoa. Tudo isso, entre outros,  por causa de um sentimento com tamanho poder de transformação: o amor.

Confiscado.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

a reflexão dos 30

Começei a escrever isso em 29/10, e mais outras coisas até chegar o tal dia dos 30. Mas esse primeiro foi o mais perto que cheguei dos sentimentos e emoções que os "30" me trouxeram.

A reflexão dos 30.
Começo pelo passado. Uma das primeiras coisas que me veio em mente foram os meus 15 anos e um livro que li “Meus vários 15 anos”.
Aos 15, sonhava com uma festa “tradicional”, com vestidos deslumbrantes, jantar e valsa. Num típico delírio consumista deslumbrante. Mas ao mesmo tempo, meu lado “do contra” trocou a festa por um cavalo. E isso foi determinante. Aos 15, ganhei algo que mudou e determinou uma boa parte da minha vida. Iceberg, um cavalo meio sangue quarto de milha que me desafiou em inúmeros aspectos, e que hoje me provoca um misto de vergonha e agradecimento. Vergonha pois foi nesta época que achei que violência, com animais, resolveria alguma coisa. Vergonha por hoje perceber que o cavalo era um objeto que eu utilizava para descarregar minhas frustrações. Vergonha por ter demorado a perceber que mesmo eu batendo ou tentando “ensinar” alguma coisa a ele, isso não aliviava minhas frustrações. Vergonha por ter tentado ser uma boa amazona por tantos anos e não ter conseguido. Vergonha por inúmeras outras coisas que vivi com os cavalos e seu “meio moderno”.
Agradecimento por tudo que aprendi. Pelos dias que chorei por não ter conseguido. Pelas provas que perdi, pelas competições que participei, que tiveram um papel importantíssimo na aproximação de meu pai. Pelos lugares que conheci, pelas pequenas provas que fui tendo ao longo do caminho de que é possível fazer as coisas com animais sem usar a violência e que culminaram com a minha opção de me tornar vegetariana e aos poucos ir adquirindo o respeito à vida.
Ah, a violência. Em suas inúmeras formas de expressão. Que hoje através da maternidade tem mexido tanto comigo. Violência e exploração animal, violência infantil, o que há de comum? Em ambos os casos, é violência contra um ser que não consegue expressar seus desejos de uma maneira clara para nós “adultos civilizados (?!)”. Um ser que nem sempre obedece nossas vontades e nós, na nossa megalomania do ego, achamos que deveriam ter praticamente força de lei, pois nós somos os adultos e temos o poder.
Aos 30, formada, com marido e filho, feminista recém descoberta, empreendedora tímida, contestadora, ou como diria minha mãe: procuradora de cabelo em ovo.
Na confusão dos 15, sonhava que com 30 tudo estaria resolvido ahahahahhahahahahhahahhaahahahaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
É engraçado e me deixa desesperada ao mesmo tempo. Contraditório, como sou em muitos aspectos.
Portadora de uma subjetividade que me engole, num emaranhado de possibilidades cada vez mais complexas. Até descobrir a complexidade de Edgar Morin e me sentir um pouco compreendida (por mim mesma, vejam bem).
Aos 30 posso assumir que dentro de mim, meu grande desejo “material” sempre foi o da maternidade. Por mais que eu tentasse ter um grande desejo na carreira profissional, como é o esperado nos dias de hoje: ser alguém bem sucedido, isso não me satisfez. Até que após o mestrado, com 25 anos, assumi que não sabia o que fazer da vida. Assumi minha dificuldade de me encontrar e prover o meu próprio sustento. Assumi minha incapacidade de abandonar o lar e cair no mundo na luta desenfreada da sobrevivência. Com uma faculdade e uma mestrado nas costas, fui fazer cookies e cupcakes e fazer bico em empresa de decoração de casamento. No meio tempo conheci meu futuro marido, que morava em Portugal. Portugal?! Nunca pensei em ir a Portugal. O mais perto que cheguei foi o clube Português e o tradicional bacalhau. Pensei em voluntariado, o sangue sagitariano bateu forte e rumei além mar. Para mais uma vez me descobrir incapaz. Descobrir e sozinha criar coragem para assumir o fracasso e a necessidade de uma vida menos aventureira ou mais confortável. Meu outro sonho de cair no mundo fazendo voluntariado foi se embora no Montijo, a beira do Tejo.
Mais uma vez tive que me reinventar e dessa vez, buscando começar minha própria família, fui contra meus instintos, numa tentativa de me enquadrar no padrão da sociedade cuja pressão eu sentia como: tens que trabalhar e ganhar dinheiro. Fiz o que eu sabia fazer, fui estudar. É o que faço melhor, não tenho grandes dificuldades, vou ter um salário e essa parte vai ficar tranquila para eu poder cuidar das outras. Eu estava imensamente feliz por ter encontrado meu esposo e aceitei profundamente agradecida a oportunidade de cursar um doutorado.
Veio a maternidade e desmoronou tudo que eu vinha tentando construir na tentativa de me enquadrar na sociedade. Ainda numa última tentativa, deixei meu filho numa creche, indo contra todos os meus instintos que bradavam vorazmente contra isso. Não funcionou. Me armei até os dentes e bati o pé: para a creche meu filho não volta.

Assumi, porque agora já nãe era só a mim que influenciava, era alguém que nutro profundo amor, alguém simbiótico, meu filho. Encarei os julgamentos alheios, a não concordância do meu esposo, e a perda da “independência financeira”. Eu precisava do meu filho e ele de mim. Era isso que eu sentia, claro! E a lucidez que de  tempos em tempos me visita bateu palmas de felicidade. “Ela conseguiu ouvir seu coração”, aleluia! Obrigada filho, por me dar forças no seu sofrimento, para que eu conseguisse tomar uma decisão.

Aos 30, me descubro feminista. Me descubro intolerante. Me descubro caminhante. Me descubro uma meia-ativista. Descubro que pequenas coisas que vão acontecendo ao longo dos anos tem um poder (que não lhes foi dado) de destruir coisas grandes. E que quando as percebemos destruidas, não sabemos dizer o que a destruiu. Não é como uma chuva forte que destelha uma casa. É como uma chuva mansa, que vai se infiltrando na terra e faz cair o barranco. E aí você olha e diz: mas estava chovendo tão fraquinho, como isso foi acontecer?
Fragmentos...
Aos 30, nunca imaginei tamanha revolução ou significado. Pela primeira vez me cantaram parabéns e não fiquei envergonhada. Estava inexplicavelmente a vontade. 
Esses dias, depois de assistir um vídeo (http://vimeo.com/66058153), ao ouvir a palavra “blessed”, foi como se uma porta tivesse se aberto. Me lembrei do texto que escrevi na aula de Public Speaking, onde falei sobre Joseph Campbell e sobre encontrar sua “bem aventurança” ou bliss. No auge da minha necessidade de encontrar uma...

Não sei onde foi parar o texto agora, talvez esteja perdido em alguma conta de e-mail ou em algum caderno jogado entre as mudanças que fiz. O fato é que tive um insight, ou pelo menos pareceu um: minha bliss é a maternidade. Isso é o que sempre quis! Pronto, assumi. Levei 30 anos para descobrir (?!). Talvez seja uma das minhas bliss, mas essa eu sinto do fundo do meu coração que é. Também assistindo um outro vídeo li a frase: “Maternidade: Uma ruptura existencial” o que também me fez muito sentido! Nada na minha vida até hoje foi tão revolucionário quanto a maternidade. Minha história com os cavalos foi determinante para muita coisa, e agora, 15 anos depois, uma nova etapa, uma nova revolução: a maternidade. Será que estou influenciada pelo livro “Meus vários 15 anos”? Ou será que esse período realmente tem algum significado nas fases que passamos?
E nesse meio tempo da maternidade, acreditem, várias ideias já passaram por essa cabeçinha. Doula, cake designer, empreendedora, um café-livraria-floricultura, jornalista científica, free lancer de textos científicos, e aos poucos fui identificando uma vontade de ser jornalista. De escrever as coisas que vem na minha cabeça. A escrita sempre foi uma via de mão dupla para mim. Ao mesmo tempo que morro de preguiça, outras vezes, escrever é a única solução para eu me entender e organizar meus pensamentos um pouco.
Infinitas possibilidades como sempre...
Passei o dia 6 trabalhando, fazendo e assando panetones, chocotones e cookies. Confeitando bolos e cupcakes. No dia seguinte iria participar da Feira do Empreendedorismo Materno. Que significativo! 
Confisco o necessário, pois significar algumas coisas tem sido cada vez mais complexo. 
Aos 15 ganhou um cavalo, aos 30, fez um bolo de cavalo. Sem mais divagações. Que venham mais 15 :)

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

o dia que descobri a minha intolerância

Era 24 de dezembro de 2009, precisava ir ao mercado. Fui logo cedo para evitar a "muvuca". Não adiantou muito. Mas como só precisava de duas coisinhas, ok. Fui até o caixa rápido e uma senhora e uma moça estavam juntas, cada uma com um carrinho cheio, que com toda certeza ultrapassava o limite de 10 itens do caixa rápido. Já me passei! Comentei com a minha irmã como tem gente abusada!!! E aquilo ficou fermentando dentro de mim.
" Que povo sem noção!! Não estão lendo a placa que limita o número de itens? Que falta de respeito com os outros!!"
" E a caixa que não diz nada. Era serviço dela limitar o acesso as pessoas que ultrapassam o limite de itens!! Que incompetência!!"
" Isso não está certo, vou falar alguma coisa." "Não Iris, deixa pra lá, é Natal, relaxa" "Não dá, é por a gente ficar quieto diante dessas irregularidades que coisas assim continuam acontecendo, no mercado e em inúmeros outros lugares! Isso não está certo!"
Pronto, era o argumento que eu precisava. Não seria conivente com aquilo.
Perguntei para a senhora se ali tinham 10 itens.
Claro que a senhora já topou o que eu estava querendo e falou que a compra era dela e da filha dela.
Ahmmm, fiz eu. É porque tem um limite de itens sabe, já que aqui é um caixa rápido.
Então a senhora resolveu comprar briga: Você está querendo dizer que eu estou errada?
Não não minha senhora, se a senhora diz que está tudo bem, então está tudo bem!Eu devo ter me enganado. Um feliz natal para a senhora!
A minha ironia pegou ela de surpresa, e sairam resmungando qualquer coisa.
Eu dando uma de santa, ainda comentei com a caixa como o pessoal ficava estressado nessa época.

Não sei bem se foi em seguida ou durante o dia, mas como num passe de mágica, o insight apareceu.
EU SOU INTOLERANTE.
Juntamente com isso veio uma coisa ainda mais interessante. A intolerância te dá poder. Pois os argumentos que você usa internamente te garantem que VOCÊ está certa. E como não lutar pelo certo???
Eu não consigo.

Percebi como essa intolerância alcançava diversos aspectos da minha vida, tipo um polvo sabe.
Tinha discussões tremendas com meu pai sobre a maneira que ele fazia as coisas no sítio (dele), principalmente as relacionadas a veterinária, curso que me graduei. Essas discussões muitas vezes me transtornavam. "Caramba, se eu estou dizendo que o certo é assim, por que ele não quer fazer????" O certo, o poder do certo. Nada mais existia além do "certo", do MEU "certo".

Por isso é tão difícil se desvencilhar da intolerância. Ela te dá poder.
Envolvendo valores internos de cada um, que muitas vezes nos estruturam, fica muito difícil se deixar perceber que existem outros "certos" além do seu.

Não sei se tenho uma dica ou receitinha para lidar com a intolerância. Para mim, só o fato de reconhecer ela na minha personalidade, foi um passo gigantesco. Hoje já consigo sentir em alguns momentos quando a intolerância vem chegando para me dominar. E a primeira coisa que penso é: RESPEITO.
Não posso, nem devo obrigar as pessoas a pensarem da mesma maneira que eu. Por mais que eu ache, tenha certeza, desse a minha vida por determinada coisa, julgando ser o certo. Continuo limitada a uma única e irresistível coisa: o exemplo.
É o máximo que posso fazer. Se considero minha ideia/atitude tão certa assim, a única maneira eficiente de mostrar para outras pessoas isso, é sendo o exemplo do que acredito. Ou como diz aquela famosa frase: Seja a mudança que você deseja ver no mundo.
Se me pedem a minha opinião, eu sou muito clara (ou pelo menos tento), mas em alguns momentos consigo me limitar apenas em dar a minha opinião, e deixar a outra pessoa livre para encontrar o que for melhor para ela.
Não, nem sempre é tão simples assim. Mas só de perceber certas nuances e movimentos, já é extremamente libertador.

Confiscado.