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segunda-feira, 14 de março de 2016

a mulher selvagem

"A arte é importante porque ela celebra as estações da alma, ou algum acontecimento trágico ou especial na trajetória da alma. A arte não é só para o indivíduo; não é só um marco da compreensão do próprio indivíduo. Ela é também um mapa para aqueles que virão depois de nós."
Clarisse  Pinkola Estés - Mulheres que correm com os lobos. Pág. 29
Escrever é uma das minhas formas de arte, é o meu marco da auto-compreensão. O mais complexo, pois traduzir sentimentos em palavras nunca foi tarefa fácil para mim. Mas é necessária.

Hoje comecei a ler este livro. Havia dado ele para minha mãe em 2001. Um amigo me falou dele no começo deste ano. E mês passado o livro chegou até mim numa caixa de livros para libertar no book crossing. Chegou a hora, pensei. Mas ainda não. Levou um tempinho. O tempo de me cansar das coisas como elas estão e partir de novo em busca. Até fiz um paralelo com as colchonilhas que estão na minha flor.
Eu vinha ao longo do tempo tirando as colchonilhas quase todos os dias. Pegava uma por uma e tirava da flor. Já tem mais de uma semana que não faço isso e minha flor está sentida. Colchonilhas são devastadoras!  O mais fácil seria eu deixar pra lá e depois arrumar outra flor. Mas pensei em situações da minha vida em que senti as minúsculas colchonilhas atacando e não fiz nada. E pensei no que aconteceu depois. Então hoje decidi que começaria a ler o livro.

 Ainda estou no primeiro capítulo, mas a mulher selvagem já me dominou. Já me identifiquei. Já entendi parte da minha busca.
"O arquétipo da Mulher Selvagem envolve o ser alfa matrilinear. Há ocasiões em que vivenciamos sua presença, mesmo que transitoriamente, e ficamos loucas de vontade de continuar. Para algumas mulheres, essa revitalizante "prova da natureza" ocorre durante a gravidez, durante a amamentação, durante o milagre das mudanças que surgem à medida que se educa um filho, durante os cuidados que dispensamos a um relacionamento amoroso, os mesmos que dispensaríamos a um jardim muito querido. " Pág. 19 e 20. 
Sincronicidade.
Não sou atípica, não sou maluca. Sou uma mulher selvagem.
Demorou para perceber. Era tão óbvio. Na verdade, percebi na hora certa. Na hora que estou preparada emocionalmente para acolher, entender, e viver com essa mulher selvagem que existe em mim.
Porque até agora, eu a sentia, mas não a reconhecia.
"Quando são cortados os vínculos de uma mulher com sua fonte de origem, ela fica esterelizada, e seus instintos e ciclos naturais são perdidos, em virtude de uma subordinação à cultura, ao intelecto, ou ao ego - dela própria ou de outros." Pág. 23
Já me senti esterelizada, completamente perdida de mim. Sentia a minha incapacidade de me encaixar no padrão, de ser submissa. Eu questiono, ou como me ajuda nessa tradução, Florbela Espanca:
“O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma … que tem saudade…sei lá de quê!” Florbela Espanca 
Mas nem sempre me aceitei assim. Era tanta subjetividade que nunca dei conta de mim completamente. Alguns anos de terapia e as coisas ficaram mais "fáceis".  Mas ao mesmo tempo é fácil se perder de si.
"Uma mulher saudável assemelha-se muito a um lobo; robusta, plena, com grande força vital, que dá a vida, que tem consciência do seu território, engenhosa, leal, que gosta de perambular, Entretanto, a separação da natureza selvagem faz com que a personalidade da mulher se torne mesquinha, parca, fantasmagórica, espectral. Não fomos feitas para ser franzinas, de cabelos frágeis, incapazes de saltar, de perseguir, de parir, de criar uma vida. Quando as vidas das mulheres estão em estase, tédio, já está na hora de a mulher selvática aflorar. Chegou a hora da função criadora da psique fertilizar a aridez. " Pág. 26
Já me senti separada da minha natureza selvagem. E hoje consigo perceber que foi a mulher selvagem que me resgatou. Me trouxe novamente a vida, me lembrou do quanto gosto de perambular. Me mostrou que me sentir incapaz de parir era uma parte do processo. E que é preciso ter fé, pois quando chega a hora certa, a mulher selvática aflora. Porque não dá para esconder nossa essência para sempre.
Isso é um processo extramente individual. Mas só foi possível para mim pelos pais selvagens que tenho. Não tenho só uma mãe-mulher selvagem. Tenho também um pai-homem selvagem. Esse exemplo de união selvagem, tão profunda e significativa, que me moldou desde o princípio. Como não sentir gratidão diante dessa experiência sagrada?
Mas para atingir a plenitude, é preciso antes curar-se. Hoje é a mulher selvagem que me promete essa cura.
Que eu possa apreendê-la, interiorizá-la, essa será minha prece.
"Cada uma de nós recebe uma célula refulgente que contém todos os instintos e conhecimentos necessários para nossa vida." Pág. 27
 Que todas as pessoas possam identificar essa célula sagrada!
 
 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

ao longo do caminho

Agora nas mini-férias resolvi encarar e terminei de assistir a série do Netflix Narcos, sobre Pablo Escobar.
Assisti os primeiros episódios logo que foi lançado, e me causaram um transtorno mental imenso que me fizeram parar de assistir e refletir muito. Seja pela violência mostrada, que acredito não ter chegado perto do que realmente aconteceu. Seja por imaginar o sofrimento de todos, inclusive dos consumidores. Seja por me pegar torcendo para pegarem o traficante.
Não que isso não deva ser feito, por favor! Mas penso que aqui vale uma lógica mercadológica. Um produto só se sustenta se existe gente consumindo. Ou seja, se não houvesse tanta gente usando droga, não haveria tudo isso. Mas é muito mais fácil tratar o sintoma que atacar a raiz do problema. E neste caso, não tem como ser ingênua, a raiz do problema é extremamente profunda. Talvez seja essa profundeza que assuste. Então vamos pegar traficantes.
Ou você achou que se o Escobar tivesse sido capturado no seu auge o problema teria acabado?

Uma vez eu e minha irmã perguntamos ao meu pai como ele e minha mãe tinham feito para que nenhum de nós tivesse se envolvido com droga. Ele nos olhou, deu risada e falou: não sei, acho que sempre tentamos fazer com que vocês fossem felizes.
A despeito do fardo de carregar a felicidade de alguém nos ombros, não foi isso que meu pai quis dizer. Eu e minha irmã entendemos... Entendemos pois sabemos uma parte dos sacrifícios que eles fizeram para que nós estivéssemos felizes. Sem mimos, mas com oportunidade e presença, incondicional. A outra parte dos sacrifícios, só cabe no coração de cada um. Porque ser mãe e pai é também abrir mão. Com alegria e amor, mas é a escolha consciente e feliz, sem esperar nada em troca.
Claro que isso foi o que funcionou para nossa família. Não é uma regra, pois esse é mais um daqueles assuntos complexos demais para acharmos que temos a solução. Mas acho que todo mundo concorda que é muito mais difícil educar as pessoas a trocarem o seu prazer imediato (porque tem muita gente morrendo e sofrendo com isso, e não só), do que caçar traficantes. No estágio atual da nossa humanidade, e com toda minha ignorância, não vislumbro essa possibilidade. O que não significa que não devamos tentar!

Mas outra coisa que me chamou atenção foi como os personagens foram endurecendo ao longo (do caminho) dos 10 episódios. Não consigo me imaginar diferente, se estivesse no lugar deles. É coisa muito rara você conviver com "o mal" e não se deixar contaminar um pouco por ele. Viver em contato tão direto com tanta desgraça acaba te tirando um pouco do eixo, e você começa a achar normal certas coisas, e pior, começa a fazê-las também.
Óbviamente que isso não é só na ficção. E mesmo que a desgraça toda não esteja a sua volta, mas dentro de você...  Se você não criar coragem, olhar para ela e resolver fazer alguma coisa sobre isso, aos poucos ela vai te corrompendo, e de repente você é tomado por ela e tem atitudes que jamais pensou que teria.
Dependendo do seu grau de consciência, você não vai se perceber assim. A culpa vai continuar sendo dos outros, e isso vai te alimentando, e ao seu monstrinho, cada vez mais.
Por isso finalizo com Jung.


quarta-feira, 27 de maio de 2015

coisas para se pensar antes de decidir ter um filho

Eu não li nada do tipo quando decidi com meu marido que iríamos ter um filho.
Acho que isso era uma das poucas certezas que tinha dentro de mim, então não pensei duas vezes. Faria exatamente igual.
Mas pensar sobre certas coisas, hoje sendo mãe e passando pelo que passei, talvez me ajudassem a lidar melhor com algumas situações.
Talvez eu seja meio radical em algumas posições. Eu juro que queria ser mais flexível em algumas coisas, mas vida é processo de aprendizagem né, então pode comentar a vontade a sua opinião e vamos aprender juntos! Por isso, esse não é um post romântico.
Espero que possa te ajudar de alguma maneira também :)

1) Não dá pra fazer ideia do tamanho da transformação que um filho faz na nossa vida. É simplesmente inimaginável. Pelo menos para mim foi. Então se você não é lá muito fã de mudanças... ou se prepara ou deixa essa ideia pra lá.
2) Seu corpo muda. (óbvio hahahah), mas você pode amar, e se achar linda e maravilhosa, ou detestar. Eu adorava estar grávida, me achava linda. Mas conheço pessoas que detestam essa parte. Então, auto-conhecimento e auto-estima na veia. Porque o sexo pode mudar também. Você pode não querer nem saber, ou virar a grávida ninfomaníaca! E a relação com teu companheiro neste aspecto também. Uns podem adorar, outros não. Para isso, sempre vale uma longa conversa onde cada um exponha seu ponto de vista e encontrem uma maneira de viverem em paz neste sentido, seja lá o que for paz para vocês :)
3) Suas prioridades podem mudar. No meu caso mudaram completamente, basta ler alguns textos daqui para você ter uma noção. Mas conheço pessoas que não mudaram em nada. Algumas coisas não tem como escapar, a não ser que você terceirize a criação do seu filho. Mas se for assim, para que ter filho então?
4) Você vai precisar desenvolver novas características ou aprimorar se já tiver.
Paciência: em diversas ocasiões e em diversos formatos. Seu filho não tem culpa que vc teve um dia cansativo no trabalho. Seu filho não tem culpa se você não está feliz com seu trabalho. Seu filho não tem culpa se seu esposo brigou com você. Seu filho não tem culpa se você não compreende o choro dele. Seu filho não tem culpa de nada entendeu?
Pra isso você vai precisar se superar e superar tudo de ruim dentro de você para dar a ele toda a atenção e amor que ele (e todos os seres) merecem. Frases do tipo: "Você está me tirando do sério/ Eu estou perdendo a paciência" não querem dizer nada, pois você é o adulto e se o seu limite de tolerância é baixo, trate de aumená-lo. Seu filho (nem ninguém na verdade) devem pagar pelas tuas frustrações, cansaço, ou qualquer coisa do tipo.
Pense no seu filho como um adulto. Se fosse seu melhor amigo, você falaria com ele aos berros? Bateria para ensinar? Colocaria de castigo? Se você respondeu não, então não faz sentido fazer isso com seu filho também, faz? E não vale dizer que ele é criança e não entende. Se você não percebe a capacidade de entendimento do seu filho ou não consegue se comunicar de uma maneira que ele entenda, então vai estudar. De novo, a culpa não é dele, você é o adulto e está ali para ensinar respeito, tolerância, amor e compaixão. Deixa o celular de lado um pouquinho e vai ler. Para o seu bem, do seu filho e de toda a humanidade.
Mas não vai ler aquelas tretas da adestradora de bebês, por favor! Sugestões de leitura no final do post ;)
5) Se não quer ficar sobrecarregada com os serviços da casa + cuidar do filho, comece a conversar com seu companheiro sobre a divisão das tarefas domésticas e de como vão organizar isso quando o bebê nascer. Acredite, uma louça suja sobre a pia pode ser motivo de discussão, e convém evitar isso quando estão todos tentando se adaptar com o bebê e uma nova rotina e tudo mais.
6) Trabalho. Converse com o seu companheiro sobre isso. Você vai precisar trabalhar? Você quer continuar trabalhando depois que seu bebê nascer? Onde você vai deixar seu filho? Quais as suas opções? Pode ser que você não queria mais trabalhar com o que trabalha no momento, pode ser que você queira ter mais tempo para acompanhar o seu filho, os primeiros passos, as primeiras palavras. E aí, como faz? Vai pensando... Mas lembre-se, existem inúmeras opções, você só precisa decidir o que quer fazer. Dica: procure por empreendedorismo materno :)
7) Rede de apoio. Você tem família por perto pra te ajudar na hora do aperto? Amigos? Alguém com quem contar? Seja para conversar, seja para lavar a louça, seja pra te tirar daquela loucura de troca de fraldas e peito e te mostrar que ainda existe vida depois disso tudo :P Pode parecer bobeira, mas tem horas que só de sair de casa já te faz dar uma espairecida. Vale também conversar com outras mães, mesmo que elas fiquem contando que o bebê delas dorme a noite inteira, já vale pra distrair um pouco.
8) Convicções. É melhor você ter bem definido com seu companheiro como vocês vão fazer as coisas. Desde o parto - onde e como(a escolha é sua, mas saber se ele vai te apoiar ou não e o que vc vai fazer com isso poupa frustrações), amamentação (idem ao parto, o corpo é seu, vc decide), criação, onde o bebê vai dormir, o que vai comer, médico, etc. Saber o que cada um pensa sobre o assunto ajuda bastante, seja para exercitar a compreensão, seja para um apoiar o outro quando os pitaqueiros entrarem em ação.
9) Sua própria infância. Como seus pais te tratavam? Como você se sentia? Você quer fazer da mesma maneira? Quer que seu filho sinta o que vc sentiu? Quer fazer diferente? Não sabe como? Decida e siga. Estude, converse, leia, informe-se! Até onde eu sei essa é a única maneira... Tem um texto bacana aqui para você começar a se aventurar nessa parte :)
10) Tempo: Filhos tomam tempo, não tem como (a não ser que vc terceirize, mas de novo, pra que ter filho então?). E como vc vai lidar com isso? Como vai ser para você abrir mão das horas livres, do salão de beleza, do cinema com o companheiro, do café com as amigas, do passeio no shopping, do happy hour com a turma do trabalho? Uma coisa ou outra vc talvez até consiga manter, mas está preparada para abrir mão de algumas? Seu esposo vai ficar com seu bebê para você ir no salão? Acha que sim? Dá uma confirmada antes, não custa! Sua mãe vai topar ficar com o bebê na sexta a noite para vc curtir um jantar romântico? Pergunta lá... É bom ir conversando sobre essas coisas, por mais que pareça algo distante da tua realidade no momento, com filhos, planejamento é a palavra de ordem. Te poupa muito stress!
11) Birras e educação. Seu filho vai fazer uma birra em local público pelo menos uma vez na vida. E aí, já pensou em como vai lidar com isso? E não vai achando que isso é coisa de criança mimada, porque não é. Birras são a maneira da criança manifestar sua incapacidade de lidar com a situação naquele momento, e isso é ciência, é formação cerebral em desenvolvimento. Você achar que é manha e que ela precisa de limites não vai resolver... mas isso você só vai saber se tentar entender e se conectar com seu filho. Então, você está disposta a investir tempo nisso? Ou vai ser mais fácil ameçar bater, chantagear? Vai pensando...
12) Sua sanidade mental. Bom, pensar sobre isso pode parecer engraçado, mas na hora que seu filho estiver berrando desesperadamente, seu companheiro te olhando com aquela cara: faz ele parar de chorar, seu vizinho interfonando porque são 3 da manhã e ele precisa dormir e você totalmente perdida sem saber o que fazer... se você não tiver o tal do "sangue-frio" para analisar a situação tranquilamente e ver que seu bebê não quer ficar no berço sozinho e sim no aconchego do seu colo e você dar isso a ele, a coisa complica... Existe muita pressão com crianças chorando, principalmente quando elas não dizem o que sentem. É uma sensação de impotência pois você fica sem saber o que fazer. Para isso você precisa estar tranquila com a situação, e em paz com suas convicções. E claro, confiante de que está fazendo o que considera melhor para o seu filho. Óbvio que falando assim parece super fácil, mas a prática tem os seus percalços e você precisa estar preparada para eles também. São normais, acontecem, não se culpe! Dúvidas brotam na nossa cabeça de lugares que sequer imaginávamos existir... e aceite, é normal! Tenha em mente coisas que te fazem bem e pense em como fazer para poder usufruir delas quando a coisa apertar. Uma vez li que para uma mulher era essencial acordar e poder tomar um banho bem relaxada. Ela combinou com o companheiro que isso era um momento dela e era necessário, então eles se organizaram para ela poder fazer isso. Entende o que quer o dizer?
13) Já mencionei a divisão das tarefas de casa e cuidados com o bebê né?
14) Onde o bebê vai dormir? No berço, na cama com vocês, no carrinho? Eu comprei berço quando o Dudu nasceu, hoje se tivesse outro filho não gastaria dinheiro com isso. A cama compartilhada me facilitou muito a amamentação, me deixou dormir muito mais do que se tivesse que ficar levantando para pegar filho no berço, amamentando, fazendo dormir e colocando no berço para dali a 15 minutos ele chorar e eu ter que levantar de novo. E isso tem uma explicação: bebês não foram feitos para dormirem sozinhos. Informe-se :)
15) Fraldas. Descartáveis não são a única opção! As fraldas de pano modernas são ótimas e fazem um bem danado para a natureza :) E tem gente que até nem usa fralda, acredite (procure por Elimination Comunication, ou leia um pouco mais aqui)
16) Como você vai carregar o bebê. Existem outras opções além de carrinho e canguru! Já conhece o sling? É fisiológico, os bebês amam e ficam muito mais tranquilos!
17) Seu filho pode nascer com algum problema. Calma, não é sentença de morte! Bom, de certa forma vai ser, um processo de morte das expectativas. O fato é que essa possibilidade existe e seria legal se vc conseguisse pensar sobre ela. Não pensar para desistir, mas pensar para aceitar caso aconteça. Maternidade também é aceitação. Aceitar que não temos controle de tudo, que não somos super-heroínas, que independente de como criamos, eles são livres e podem seguir um caminho que não concordamos, aceitar que irão nos surpreender, aceitar que vamos chorar na apresentação da escola, aceitar de que vai passar muito rápido e que o que vai valer a pena foram os momentos que vocês passaram juntos.

Que eu me lembre, por enquanto, é isso. Sempre que surgirem outras coisas eu vou atualizando aqui!
E aí, o que achou? :)

Sugestão de leitura:
Maternidade e o encontro com a própria sombra - Laura Gutman
O Poder do Discurso Materno - Laura Gutman
Mulheres visíveis, mães invisíveis - Laura Gutman (este é um apanhado com vários textos da autora. Vale a pena para quem quer ter uma noção geral do que ela diz)
Besame mucho - Como criar seus filhos com amor - Carlos González (é difícil encontrar para vender, eu só consegui o pdf pela internet)
O livro da maternagem - Dra. Relva
Educar sem violência: criando filhos sem palmada. Ligia Moreiras Sena e Andréia Mortensen
Soluções para noites sem choro - Elizabeth Pantley
Memórias do homem de vidro - Ricardo Jones
Entre as orelhas. Histórias de Parto - Ricardo Jones

Nessa loja virtual tem vários outros títulos interessantes e que valem muito a pena!

Existem depois um sem fim de blogs, artigos, páginas... Cabe a você decidir quão fundo você quer ir nesse novo mundo da maternidade ou da felicidade :)



Você pode ter estranhado eu não ter falado do lado "bom" disso tudo, mas minha intenção neste texto não foi essa. Até porque eu não considero todas essas coisas "ruins". Sou grata por cada momento e situação que passei pois foram oportunidades únicas de aprendizado que eu jamais teria se não fosse mãe <3  E também porque não sou muito boa em dizer sobre o indizível e o infinito...
Confiscado ;)





segunda-feira, 11 de maio de 2015

sobre criar filhos

Hoje é dia das mães.
Mas este não será um texto homenagem às mães. Não que elas não mereçam, mas é que venho percebendo a algum tempo uma dificuldade geral em criar filhos, principalmente no quesito compreensão mútua e paciência. A começar pela minha.
E ontem numa conversa entre amigas mencionei um livro que me ajudou e fiquei de passar mais detalhes para elas depois. Mas achei que talvez fosse melhor escrever algo um pouco mais aprofundado.

Ainda grávida, minha doula me emprestou um livro muito interessante e que foi o princípio da minha mudança na maneira de ver os bebês e crianças.
O livro se chama Besame mucho - Como criar seus filhos com amor, do pediatra espanhol Carlos Gonzalez. Eu até hoje não achei ele para comprar, então só consegui terminar de lê-lo por um pdf que achei na internet (quem quiser me escreve que eu envio). Mas se você procurar pelo nome do autor vai encontrar vários textos dele bastante interessantes.
Para mim foi um mundo novo que se abriu. Coisas como: não pega seu bebê muito no colo senão vai acostumar mal, não pode dormir junto com os pais porque senão vai ser assim pra sempre, tem que desmamar logo porque senão vai ficando pior... tem que deixar chorar um pouco pra não ficar cheio de vontade, entre outros mitos do mesmo estilo foram caindo por terra.
Neste post do blog Potencial Gestante tem um link para download do livro em espanhol se alguém quiser se aventurar.
Um pouco depois conheci a Cientista que Virou Mãe e seu post incrível sobre deixar bebês chorando, clique aqui.  Sobre o uso da chupeta. Entre outros autores sobre ignorar as birras. Sobre o "terrible two".
Depois disso surgiu a Criação com Apego, amamentação em livre demanda, cama compartilhada, sling, e um mundo sem fim de informações e transformações que foram ocorrendo.

Mas esse foi o caminho que eu trilhei, porque eu ia tendo dúvidas, dificuldades, e fazia o que sempre soube fazer. Ia pesquisar e ver as possibilidades de se resolver o problema. Graças a Deus nem todo mundo é assim, e por um tempo eu sofri até aceitar isso. Eu lia um mundaréu de coisas e queria que as outras mães também lessem, pelo potencial transformador dessas informações.
Porém, a transformação é uma porta que só se abre por dentro. E me conscientizei de que não havia chance de eu colocar nada na cabeça de ninguém, e que da mesma maneira eu encontrei essas informações, caso alguém sentisse necessidade de mudar também daria um jeito de encontrá-las ou de encontrar algo que fizesse sentido para cada um.

Conforme o Dudu foi crescendo, outras dificuldades foram surgindo. Suas vontades foram aparecendo, sua curiosidade, e de repente me vi em apuros e gritando com ele. Fiquei transtornada... não era isso que eu queria!! Eu tinha lido e estudado tanto, como que não conseguia colocar em prática?
Primeiro veio a compreensão do que se movimentava dentro de mim.
Depois, eu sendo absolutamente e totalmente contra qualquer tipo de violência contra crianças (incluindo gritos e rótulos), comecei a reconhecer o meu lado que precisava de ajuda. Então muitos textos me ajudaram na época. Esse aqui sobre palmadas da Cientista que virou mãe é um. Este outro da Luzinete. O Livro da Maternagem também é bastante elucidativo. E por fim o livro da Lígia:  Educar sem violência - criando filhos sem palmadas.

Compreender o que meu filho tenta expressar quando faz uma birra é uma experiência fantástica desde que eu aprendi a olhar além da relação de poder (eu mando, você obedece), desde que aprendi a perceber sua necessidade, desde que aprendi a ouvi-lo e a ajudá-lo a se expressar de outra maneira.

Não foi fácil, não é fácil. Ainda tenho imensa dificuldade em inúmeros aspectos. Mas depois disso meu maternar tem sido muito mais tranquilo, prazeroso e com menos remorço.
Para mim o crucial foi entender o que acontecia com ele, de acordo com sua fase de desenvolvimento, e muito mais o que acontecia comigo.
Para isso, recomendo Laura Gutman e seu livro: Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra.

Por isso brinco que a maternidade foi um catalizador das mudanças em mim. Sempre me lembro da explicação clássica do que é um catalizador numa reação química: uma substância que acelera potencialmente uma reação mas que ao final é liberado da mesma maneira que entrou. Ou seja, ele não é transformado, mas sem ele a reação poderia inclusive nunca acontecer.
Assim eu vejo a maternidade: um melhorador de alma, um catalizador do amor, desde que nos entreguemos a ela e permitamos nos ouvir, compreender, amar. Porque não tem força mais poderosa nesse mundo que a do exemplo: se eu não quero que meu filho grite, eu não vou gritar com ele. Se eu não quero que ele bata, eu não vou bater nele. Se eu quero que ele seja compreensivo, tenho que primeiro compreende-lo. E por aí vai... ao infinito e além :)

Outros links úteis:
Criação com apego
http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2012/08/criacao-com-apego-verdades-mentiras.html
http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2012/02/attachment-parenting-criacao-com-apego.html
http://paizinhovirgula.com/
http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2015/07/quando-o-amor-aos-filhos-ressignifica.html

Soluções e dicas
http://paizinhovirgula.com/disciplina-positiva-primeiros-passos/
http://paizinhovirgula.com/cantinho-do-pensamento-por-que-e-uma-porcaria/
http://paizinhovirgula.com/criacao-com-apego-birra-manha-e-afins/
http://paizinhovirgula.com/12-alternativas-para-o-castigo-disciplina-positiva/
http://cirandamaterna.blogspot.com.br/2012/09/supermercado-com-criancas.html?q=compras

Ciência
http://www.cientistaqueviroumae.com.br/2013/08/filhos-saudaveis-nao-brotam-no-jardim.html

Compreendendo seu filho
http://cirandamaterna.blogspot.com.br/2013/12/nao-me-deixe-para-tras.html
http://portal.aprendiz.uol.com.br/arquivo/2013/08/08/o-dia-em-que-parei-de-mandar-minha-filha-andar-logo/

Blogs e comunidades interessantes
Não pule da janela
Vila Mamífera
Maternar Consciente
Conexão pais e filhos (fanpage)
Maternidade Consciente (grupo)
Bater em Criança é Covardia (fanpage)

Congresso online
http://maternagemconsciente.com.br/
Para pensar:



E para você, o que faz sentido?


segunda-feira, 12 de maio de 2014

sobre o meu dia das mães

Este é o meu terceiro dia das mães como mãe.
O mais consciente desta minha "função" até o momento.
Meu primeiro dia das mães foi alguns dias após o Dudu nascer. Ainda envolvida em trocas de fraldas, choro e amamentação, a data passou sem muito significado ou celebração.
No meu segundo ano, estávamos de mudança para o Brasil, e só me toquei que era dia das mães quando fomos ao mercado e me deram um esmalte parabenizando pelo dia das mães. Cheguei a ficar surpresa com a atitude.
Já este ano, como uma evolução, o dia das mães, como ritual de celebração a esta função, foi mais marcante.
Seja pela homenagem as mães feita na missa que participei no sábado, que me fez chorar, seja pelo presente que meus pais compraram para meu filho me oferecer, e que não pude oferecer em troca. Ou pelo e-mail singelo e tão significativo que meu esposo me enviou.
Ofereço então o acalento das palavras, que não tem preço, mas é o que posso oferecer neste momento de forma mais "concreta".

À todos que participam desta minha caminhada da maternidade...

Pelos marcadores do blog podem perceber que este é um assunto marcante para mim.
E por mais que já tenha escrito algumas páginas sobre isso, o tema é inesgotável.
Percebi que a maternidade é algo vivo, que vai crescendo e se transformando, ao me transformar, ao me permitir me ressignificar.
Entre as muitas mensagens e palavras que li pelo facebook, a que mais se destacou para mim foi a que menciona a mudança que a maternidade faz  na nossa, ou na minha vida.
Digo na minha, pois também li coisas que mostram que a graça de ser mãe não é algo que resplandece em todas as mães. Pois ser mãe é, ou deveria ser, uma decisão baseada em princípio no que ouvimos de nosso coração. Mas com a fluidez do mundo, na grande maioria das vezes não temos essa sensibilidade e cedemos ao externo. As pressões sociais, ao medo de assumir a não maternidade, ao famoso "segura marido", e até a obrigação. Isso, como tudo nessa vida, gera consequências, e surpreendentemente (para alguns), gera mães que não amam seus filhos ou não amam ser mães. Um post interessante sobre o assunto pode ser lido aqui.
Este texto me lembrou um livro que começei a ler pelo tablet mas que não terminei. Chama-se: Um Amor Conquistado: o mito do amor materno de Elisabeth Badinter.
Da parte que li, entendi que a autora afirma que o amor materno não é algo inato, não nasce pronto no mesmo momento que o filho nasce. Isso me custou um tempo a entender, e mesmo não concordando com essa afirmação inicialmente, continuei a ler o livro. Depois que entendi em partes o que a autora queria dizer, não voltei a ler o livro, mas agora me surgiu a vontade de terminar a leitura. E hoje posso dizer que concordo com ela. O amor materno não nasce com o filho. É algo que vai crescendo, nos transformando, e tudo depende de inúmeros fatores, formando a rede da complexidade das relações e do mundo. Para mim, o que me influencia muito em meu maternar é a relação que tenho com minha mãe. Como ela e meu pai me criaram, os valores que me passaram, as oportunidades que me proporcionaram.
Me lembro de uma situação que me ensinou como devemos buscar coerência.
Eu estudava em um colégio que tinha uma proposta sócio-construtivista de ensino. Na aula de artes a professora havia pedido durante a avaliação para criarmos um desenho usando formas geométricas. Eu, com toda minha habilidade artística, criei meu desenho, que recebeu nota 3 pela avaliação da professora. Minha mãe, achou incoerente aquilo, pois ao pedir que a criança criasse um desenho, como deveria ser a avaliação? Não deveria contar apenas se o desenho havia sido feito conforme as instruções do exercício: usar formas geométricas? E isso eu havia feito. Por que então uma nota tão baixa?
Para alguns o fato aqui pode parecer ser apenas pela nota, e por muitos anos fui julgada em meu percurso acadêmico por questionar os professores o porque de determinadas notas nas avaliações.
Mas o "buraco é mais embaixo", e esta atitude questiona muitas coisas entre elas o próprio sistema de avaliações que deveria em última instância avaliar quanto o aluno aprendeu e auxiliá-lo a guiar seus estudos tentando aprender o que faltou. Essa sempre foi a minha intenção. Ver o que eu tinha aprendido de errado.
Isso fez uma diferença tão grande na minha vida... Me permitiu criar coragem para olhar para meus erros e também desenvolver uma disposição de corrigi-los e aprender com eles. Não apenas na escola, mas também em todos os outros aspectos da minha vida.
A influência das mães em nossas vidas pode ser edificante, como foi a da minha, mas também pode ser devastadora, mudando para sempre o rumo e o coração de uma pessoa. Mudanças tão profundas, que muitas vezes nem chegam a consciência, de tão dolorido que isto se torna. Acredito que não podemos julgar certas atitudes que sofremos ao convivermos com outras pessoas, pois é impossível saber pelo que elas passaram e como reagiram por aquilo que passaram.
Para estas situações, o sentimento que me parece ser o melhor a se fortalecer é o da compaixão. Por mais difícil e as vezes, até injusto que se possa parecer.
Após toda essa reflexão, espero ter expressado, confiscado, mais uma infinita parte do significado de ser filha, de ser mãe em minha vida.
Gratidão eterna a todos!


Foto de: O Mundo de Gaya