Eu não li nada do tipo quando decidi com meu marido que iríamos ter um filho.
Acho que isso era uma das poucas certezas que tinha dentro de mim, então não pensei duas vezes. Faria exatamente igual.
Mas pensar sobre certas coisas, hoje sendo mãe e passando pelo que passei, talvez me ajudassem a lidar melhor com algumas situações.
Talvez eu seja meio radical em algumas posições. Eu juro que queria ser mais flexível em algumas coisas, mas vida é processo de aprendizagem né, então pode comentar a vontade a sua opinião e vamos aprender juntos! Por isso, esse não é um post romântico.
Espero que possa te ajudar de alguma maneira também :)
1) Não dá pra fazer ideia do tamanho da transformação que um filho faz na nossa vida. É simplesmente inimaginável. Pelo menos para mim foi. Então se você não é lá muito fã de mudanças... ou se prepara ou deixa essa ideia pra lá.
2) Seu corpo muda. (óbvio hahahah), mas você pode amar, e se achar linda e maravilhosa, ou detestar. Eu adorava estar grávida, me achava linda. Mas conheço pessoas que detestam essa parte. Então, auto-conhecimento e auto-estima na veia. Porque o sexo pode mudar também. Você pode não querer nem saber, ou virar a grávida ninfomaníaca! E a relação com teu companheiro neste aspecto também. Uns podem adorar, outros não. Para isso, sempre vale uma longa conversa onde cada um exponha seu ponto de vista e encontrem uma maneira de viverem em paz neste sentido, seja lá o que for paz para vocês :)
3) Suas prioridades podem mudar. No meu caso mudaram completamente, basta ler alguns textos daqui para você ter uma noção. Mas conheço pessoas que não mudaram em nada. Algumas coisas não tem como escapar, a não ser que você terceirize a criação do seu filho. Mas se for assim, para que ter filho então?
4) Você vai precisar desenvolver novas características ou aprimorar se já tiver.
Paciência: em diversas ocasiões e em diversos formatos. Seu filho não tem culpa que vc teve um dia cansativo no trabalho. Seu filho não tem culpa se você não está feliz com seu trabalho. Seu filho não tem culpa se seu esposo brigou com você. Seu filho não tem culpa se você não compreende o choro dele. Seu filho não tem culpa de nada entendeu?
Pra isso você vai precisar se superar e superar tudo de ruim dentro de você para dar a ele toda a atenção e amor que ele (e todos os seres) merecem. Frases do tipo: "Você está me tirando do sério/ Eu estou perdendo a paciência" não querem dizer nada, pois você é o adulto e se o seu limite de tolerância é baixo, trate de aumená-lo. Seu filho (nem ninguém na verdade) devem pagar pelas tuas frustrações, cansaço, ou qualquer coisa do tipo.
Pense no seu filho como um adulto. Se fosse seu melhor amigo, você falaria com ele aos berros? Bateria para ensinar? Colocaria de castigo? Se você respondeu não, então não faz sentido fazer isso com seu filho também, faz? E não vale dizer que ele é criança e não entende. Se você não percebe a capacidade de entendimento do seu filho ou não consegue se comunicar de uma maneira que ele entenda, então vai estudar. De novo, a culpa não é dele, você é o adulto e está ali para ensinar respeito, tolerância, amor e compaixão. Deixa o celular de lado um pouquinho e vai ler. Para o seu bem, do seu filho e de toda a humanidade.
Mas não vai ler aquelas tretas da adestradora de bebês, por favor! Sugestões de leitura no final do post ;)
5) Se não quer ficar sobrecarregada com os serviços da casa + cuidar do filho, comece a conversar com seu companheiro sobre a divisão das tarefas domésticas e de como vão organizar isso quando o bebê nascer. Acredite, uma louça suja sobre a pia pode ser motivo de discussão, e convém evitar isso quando estão todos tentando se adaptar com o bebê e uma nova rotina e tudo mais.
6) Trabalho. Converse com o seu companheiro sobre isso. Você vai precisar trabalhar? Você quer continuar trabalhando depois que seu bebê nascer? Onde você vai deixar seu filho? Quais as suas opções? Pode ser que você não queria mais trabalhar com o que trabalha no momento, pode ser que você queira ter mais tempo para acompanhar o seu filho, os primeiros passos, as primeiras palavras. E aí, como faz? Vai pensando... Mas lembre-se, existem inúmeras opções, você só precisa decidir o que quer fazer. Dica: procure por empreendedorismo materno :)
7) Rede de apoio. Você tem família por perto pra te ajudar na hora do aperto? Amigos? Alguém com quem contar? Seja para conversar, seja para lavar a louça, seja pra te tirar daquela loucura de troca de fraldas e peito e te mostrar que ainda existe vida depois disso tudo :P Pode parecer bobeira, mas tem horas que só de sair de casa já te faz dar uma espairecida. Vale também conversar com outras mães, mesmo que elas fiquem contando que o bebê delas dorme a noite inteira, já vale pra distrair um pouco.
8) Convicções. É melhor você ter bem definido com seu companheiro como vocês vão fazer as coisas. Desde o parto - onde e como(a escolha é sua, mas saber se ele vai te apoiar ou não e o que vc vai fazer com isso poupa frustrações), amamentação (idem ao parto, o corpo é seu, vc decide), criação, onde o bebê vai dormir, o que vai comer, médico, etc. Saber o que cada um pensa sobre o assunto ajuda bastante, seja para exercitar a compreensão, seja para um apoiar o outro quando os pitaqueiros entrarem em ação.
9) Sua própria infância. Como seus pais te tratavam? Como você se sentia? Você quer fazer da mesma maneira? Quer que seu filho sinta o que vc sentiu? Quer fazer diferente? Não sabe como? Decida e siga. Estude, converse, leia, informe-se! Até onde eu sei essa é a única maneira... Tem um texto bacana aqui para você começar a se aventurar nessa parte :)
10) Tempo: Filhos tomam tempo, não tem como (a não ser que vc terceirize, mas de novo, pra que ter filho então?). E como vc vai lidar com isso? Como vai ser para você abrir mão das horas livres, do salão de beleza, do cinema com o companheiro, do café com as amigas, do passeio no shopping, do happy hour com a turma do trabalho? Uma coisa ou outra vc talvez até consiga manter, mas está preparada para abrir mão de algumas? Seu esposo vai ficar com seu bebê para você ir no salão? Acha que sim? Dá uma confirmada antes, não custa! Sua mãe vai topar ficar com o bebê na sexta a noite para vc curtir um jantar romântico? Pergunta lá... É bom ir conversando sobre essas coisas, por mais que pareça algo distante da tua realidade no momento, com filhos, planejamento é a palavra de ordem. Te poupa muito stress!
11) Birras e educação. Seu filho vai fazer uma birra em local público pelo menos uma vez na vida. E aí, já pensou em como vai lidar com isso? E não vai achando que isso é coisa de criança mimada, porque não é. Birras são a maneira da criança manifestar sua incapacidade de lidar com a situação naquele momento, e isso é ciência, é formação cerebral em desenvolvimento. Você achar que é manha e que ela precisa de limites não vai resolver... mas isso você só vai saber se tentar entender e se conectar com seu filho. Então, você está disposta a investir tempo nisso? Ou vai ser mais fácil ameçar bater, chantagear? Vai pensando...
12) Sua sanidade mental. Bom, pensar sobre isso pode parecer engraçado, mas na hora que seu filho estiver berrando desesperadamente, seu companheiro te olhando com aquela cara: faz ele parar de chorar, seu vizinho interfonando porque são 3 da manhã e ele precisa dormir e você totalmente perdida sem saber o que fazer... se você não tiver o tal do "sangue-frio" para analisar a situação tranquilamente e ver que seu bebê não quer ficar no berço sozinho e sim no aconchego do seu colo e você dar isso a ele, a coisa complica... Existe muita pressão com crianças chorando, principalmente quando elas não dizem o que sentem. É uma sensação de impotência pois você fica sem saber o que fazer. Para isso você precisa estar tranquila com a situação, e em paz com suas convicções. E claro, confiante de que está fazendo o que considera melhor para o seu filho. Óbvio que falando assim parece super fácil, mas a prática tem os seus percalços e você precisa estar preparada para eles também. São normais, acontecem, não se culpe! Dúvidas brotam na nossa cabeça de lugares que sequer imaginávamos existir... e aceite, é normal! Tenha em mente coisas que te fazem bem e pense em como fazer para poder usufruir delas quando a coisa apertar. Uma vez li que para uma mulher era essencial acordar e poder tomar um banho bem relaxada. Ela combinou com o companheiro que isso era um momento dela e era necessário, então eles se organizaram para ela poder fazer isso. Entende o que quer o dizer?
13) Já mencionei a divisão das tarefas de casa e cuidados com o bebê né?
14) Onde o bebê vai dormir? No berço, na cama com vocês, no carrinho? Eu comprei berço quando o Dudu nasceu, hoje se tivesse outro filho não gastaria dinheiro com isso. A cama compartilhada me facilitou muito a amamentação, me deixou dormir muito mais do que se tivesse que ficar levantando para pegar filho no berço, amamentando, fazendo dormir e colocando no berço para dali a 15 minutos ele chorar e eu ter que levantar de novo. E isso tem uma explicação: bebês não foram feitos para dormirem sozinhos. Informe-se :)
15) Fraldas. Descartáveis não são a única opção! As fraldas de pano modernas são ótimas e fazem um bem danado para a natureza :) E tem gente que até nem usa fralda, acredite (procure por Elimination Comunication, ou leia um pouco mais aqui)
16) Como você vai carregar o bebê. Existem outras opções além de carrinho e canguru! Já conhece o sling? É fisiológico, os bebês amam e ficam muito mais tranquilos!
17) Seu filho pode nascer com algum problema. Calma, não é sentença de morte! Bom, de certa forma vai ser, um processo de morte das expectativas. O fato é que essa possibilidade existe e seria legal se vc conseguisse pensar sobre ela. Não pensar para desistir, mas pensar para aceitar caso aconteça. Maternidade também é aceitação. Aceitar que não temos controle de tudo, que não somos super-heroínas, que independente de como criamos, eles são livres e podem seguir um caminho que não concordamos, aceitar que irão nos surpreender, aceitar que vamos chorar na apresentação da escola, aceitar de que vai passar muito rápido e que o que vai valer a pena foram os momentos que vocês passaram juntos.
Que eu me lembre, por enquanto, é isso. Sempre que surgirem outras coisas eu vou atualizando aqui!
E aí, o que achou? :)
Sugestão de leitura:
Maternidade e o encontro com a própria sombra - Laura Gutman
O Poder do Discurso Materno - Laura Gutman
Mulheres visíveis, mães invisíveis - Laura Gutman (este é um apanhado com vários textos da autora. Vale a pena para quem quer ter uma noção geral do que ela diz)
Besame mucho - Como criar seus filhos com amor - Carlos González (é difícil encontrar para vender, eu só consegui o pdf pela internet)
O livro da maternagem - Dra. Relva
Educar sem violência: criando filhos sem palmada. Ligia Moreiras Sena e Andréia Mortensen
Soluções para noites sem choro - Elizabeth Pantley
Memórias do homem de vidro - Ricardo Jones
Entre as orelhas. Histórias de Parto - Ricardo Jones
Nessa loja virtual tem vários outros títulos interessantes e que valem muito a pena!
Existem depois um sem fim de blogs, artigos, páginas... Cabe a você decidir quão fundo você quer ir nesse novo mundo da maternidade ou da felicidade :)
Você pode ter estranhado eu não ter falado do lado "bom" disso tudo, mas minha intenção neste texto não foi essa. Até porque eu não considero todas essas coisas "ruins". Sou grata por cada momento e situação que passei pois foram oportunidades únicas de aprendizado que eu jamais teria se não fosse mãe <3 E também porque não sou muito boa em dizer sobre o indizível e o infinito...
Confiscado ;)
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quarta-feira, 27 de maio de 2015
coisas para se pensar antes de decidir ter um filho
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quarta-feira, 6 de maio de 2015
Onde se perdeu?
O Dudu fez 3 anos dias atrás. E misteriosamente, algumas coisas se resolvem dentro de mim neste período...
Dessa vez surgiu uma pergunta, referente a certos fatos que demorei a admitir, aceitar, compreender.
Durante boa parte da minha vida eu me senti desconectada de mim mesma. Nunca conseguia discernir muito bem o que dizia minha voz interior. Sempre haviam infinitas perguntas e pouco espaço silencioso para as respostas surgirem. Com isso minha mente se alimentava de perguntas e mais perguntas.
Mas em alguns momentos eu comecei a perceber que simplesmente sentia o que era preciso fazer e ia lá e fazia. Quando decidi não imendar um doutorado foi assim, e o mesmo quando decidi ir para Portugal fazer woofing e conhecer o Júnior. Parecia loucura, havia alguns riscos, mas incrivelmente eu não sentia medo nenhum ou dúvida alguma sobre o que deveria fazer. E tudo corria muito bem.
Exceto no aspecto profissional, mas isso é outro assunto.
Quando engravidei e minha colega de trabalho me emprestou o livro do Ric Jones - Memórias do Homem de Vidro, eu voltei a sentir uma dessas certezas. Ao terminar o livro eu tinha total e absoluta certeza no meu coração que eu queria que o Dudu nascesse em casa. Não queria ter que ir para o hospital. Eu sabia que assim as coisas não iriam correr bem. Me conhecia o suficiente para saber minhas necessidades.
Mas as pessoas ao meu redor não. Então comecei uma "batalha". Primeiro para convencer meu esposo de que eu precisava de uma doula nesse momento. Ele concordou, entrevistamos várias mulheres e encontramos a nossa. Agora eu precisava mostrar a ele porque eu queria ter nosso filho em casa. Eu virei a "maluca" do parto. Mandava-lhe vídeos, textos, conversei com um enfermeiro obstetra, assistimos documentários, inúmeros vídeos de parto. Contei-lhe do meu medo e ir para o hospital. Mas ele disse que não se sentia seguro para que nosso filho nascesse em casa. Preferia que eu fosse para o hospital.
Meu medo só aumentava, junto com a minha barriga. Me lembro de uma vez em que chorei desesperadamente ao falar com meus pais pelo skype explicando-lhes também que eu não queria ir ao hospital para ter o Dudu. Eles concordavam com o Júnior e me senti desamparada e incompreendida. Até quando comentei com a nossa doula que gostaria muito de um parto domiciliar, ao qual ela disse que havia conversado com o Ricardo Jones e que ele havia recomendado um parto hospitalar devido a um problema de tireóide que tenho. O problema em si não exclui a possibilidade de parto domiciliar, o porém seria se eu tivesse alguma complicação e a repercussão que isso poderia ter.
Não me convenceu, só serviu para me sentir ainda mais incompreendida e desamparada.
O resultado eu já contei aqui no meu relato de parto.
Por esses dias então andei pensando: onde estava a menina que ouvia seu coração e cruzava o oceano rumo ao desconhecido?
Eu não tinha confiança suficiente para sustentar minha escolha naquele momento.
Não me "empoderei", por me sentir sozinha, incompreendida, desamparada. Por eu mesma duvidar da minha capacidade de parir.
Junto a isso, eu cedi conscientemente aos desejos alheios por pensar que talvez estivesse sendo intolerante ao querer que fosse feita somente a minha vontade.
Ao tentar (forçosamente) superar esse meu medo, ao não encontrar forças para isso, eu inconscientemente me desconectei.
Me lembro de passada as 41 semanas de gestação, minha doula perguntar se eu estava com medo de alguma coisa, e eu responder que não, que estava tudo bem.
MENTIRA: eu tava morrendo de medo de ir parir no hospital. Eu não queria aquilo! Mesmo sabendo que esse meu medo era pior, pois acabaria tendo que ter o parto induzido, eu não conseguia lidar com isso. Mas eu não conseguia verbalizar isso. Todo o processo até ali já tinha me deixado tão triste, e aflita. Era o momento mais importante da minha vida. E eu não consegui sustentar a minha escolha. Me permiti ser refém dos desejos alheios.
De novo eu me pergunto: onde se perdeu a menina super confiante?
Ainda não encontrei resposta para isso, mas questionar-se é o primeiro passo. Agora é questão de tempo.
Reconhecer que essa voz se perde em alguns momentos é como um insight. Hoje aprendo diariamente como fortalecer, como reconhecer, como buscar, como encontrá-la.
Só assim será possível ser fiel a própria alma.
Confiscado.
Dessa vez surgiu uma pergunta, referente a certos fatos que demorei a admitir, aceitar, compreender.
Durante boa parte da minha vida eu me senti desconectada de mim mesma. Nunca conseguia discernir muito bem o que dizia minha voz interior. Sempre haviam infinitas perguntas e pouco espaço silencioso para as respostas surgirem. Com isso minha mente se alimentava de perguntas e mais perguntas.
Mas em alguns momentos eu comecei a perceber que simplesmente sentia o que era preciso fazer e ia lá e fazia. Quando decidi não imendar um doutorado foi assim, e o mesmo quando decidi ir para Portugal fazer woofing e conhecer o Júnior. Parecia loucura, havia alguns riscos, mas incrivelmente eu não sentia medo nenhum ou dúvida alguma sobre o que deveria fazer. E tudo corria muito bem.
Exceto no aspecto profissional, mas isso é outro assunto.
Quando engravidei e minha colega de trabalho me emprestou o livro do Ric Jones - Memórias do Homem de Vidro, eu voltei a sentir uma dessas certezas. Ao terminar o livro eu tinha total e absoluta certeza no meu coração que eu queria que o Dudu nascesse em casa. Não queria ter que ir para o hospital. Eu sabia que assim as coisas não iriam correr bem. Me conhecia o suficiente para saber minhas necessidades.
Mas as pessoas ao meu redor não. Então comecei uma "batalha". Primeiro para convencer meu esposo de que eu precisava de uma doula nesse momento. Ele concordou, entrevistamos várias mulheres e encontramos a nossa. Agora eu precisava mostrar a ele porque eu queria ter nosso filho em casa. Eu virei a "maluca" do parto. Mandava-lhe vídeos, textos, conversei com um enfermeiro obstetra, assistimos documentários, inúmeros vídeos de parto. Contei-lhe do meu medo e ir para o hospital. Mas ele disse que não se sentia seguro para que nosso filho nascesse em casa. Preferia que eu fosse para o hospital.
Meu medo só aumentava, junto com a minha barriga. Me lembro de uma vez em que chorei desesperadamente ao falar com meus pais pelo skype explicando-lhes também que eu não queria ir ao hospital para ter o Dudu. Eles concordavam com o Júnior e me senti desamparada e incompreendida. Até quando comentei com a nossa doula que gostaria muito de um parto domiciliar, ao qual ela disse que havia conversado com o Ricardo Jones e que ele havia recomendado um parto hospitalar devido a um problema de tireóide que tenho. O problema em si não exclui a possibilidade de parto domiciliar, o porém seria se eu tivesse alguma complicação e a repercussão que isso poderia ter.
Não me convenceu, só serviu para me sentir ainda mais incompreendida e desamparada.
O resultado eu já contei aqui no meu relato de parto.
Por esses dias então andei pensando: onde estava a menina que ouvia seu coração e cruzava o oceano rumo ao desconhecido?
Eu não tinha confiança suficiente para sustentar minha escolha naquele momento.
Não me "empoderei", por me sentir sozinha, incompreendida, desamparada. Por eu mesma duvidar da minha capacidade de parir.
Junto a isso, eu cedi conscientemente aos desejos alheios por pensar que talvez estivesse sendo intolerante ao querer que fosse feita somente a minha vontade.
Ao tentar (forçosamente) superar esse meu medo, ao não encontrar forças para isso, eu inconscientemente me desconectei.
Me lembro de passada as 41 semanas de gestação, minha doula perguntar se eu estava com medo de alguma coisa, e eu responder que não, que estava tudo bem.
MENTIRA: eu tava morrendo de medo de ir parir no hospital. Eu não queria aquilo! Mesmo sabendo que esse meu medo era pior, pois acabaria tendo que ter o parto induzido, eu não conseguia lidar com isso. Mas eu não conseguia verbalizar isso. Todo o processo até ali já tinha me deixado tão triste, e aflita. Era o momento mais importante da minha vida. E eu não consegui sustentar a minha escolha. Me permiti ser refém dos desejos alheios.
De novo eu me pergunto: onde se perdeu a menina super confiante?
Ainda não encontrei resposta para isso, mas questionar-se é o primeiro passo. Agora é questão de tempo.
Reconhecer que essa voz se perde em alguns momentos é como um insight. Hoje aprendo diariamente como fortalecer, como reconhecer, como buscar, como encontrá-la.
Só assim será possível ser fiel a própria alma.
Confiscado.
quarta-feira, 2 de julho de 2014
o meu, o seu, o nosso lado
Você não consegue ver o meu lado na história.
Estão me julgando sem saber o meu passado, ou o que me levou a ter
certas atitudes.
Será que é tão difícil para você se colocar no meu lugar e imaginar como
reagiria?
Quem você/ele/ela pensa que é para me julgar assim?
"Você não se lembra da minha história,
Você nunca andou pelo meu caminho,
Você não viu o que eu vi.
Meu passado me define,
Isso é o que eu sou."
Essas são frases que tenho ouvido com certa frequência e curiosamente,
em diferentes ocasiões, com diferentes pessoas. E que depois de um tempo me
fazem pensar, pois chegou uma hora que parei e pensei: e o meu lado?
Queremos que entendam o nosso lado. Queremos ser compreendidos. Mas
acima de tudo: queremos ser
acolhidos.
Queremos que compreendam o porquê de nossas atitudes, quando em muitos
casos, nem nós compreendemos.
Não compreendemos e muitas vezes nem percebemos nosso julgamento para
com o outro.
Será que quando julgamos o outro, inconscientemente dizemos para nós
mesmos que somos melhores que ele?
Mas a verdade é que é muito difícil compreender o lado do outro. Justamente
pelo que está escrito acima:
"Você nunca andou pelo meu caminho"
É ou não é?
Quem já andou pelo seu caminho além de vc?
Sabendo que esse caminho nos influencia tão profundamente, como podemos
esperar que o outro nos compreenda, quando em muitas ocasiões, nem nós nos
compreendemos???
Não faz sentido na minha cabeça...
Mas mesmo assim, continuamos a espera da compreensão.
Porque compreensão também quer dizer aceitação. Quando eu te compreendo
quer dizer que te aceito, mesmo que não concorde com a sua atitude. Apenas
compreendo que em decorrência da sua história de vida, da sua vivência, você
tomou determinada atitude. Não quer dizer que eu faria igual, que eu ache que
você está certa, ou que tudo bem para mim você agir assim. Apenas quer dizer que
eu compreendo que essa é a sua maneira de lidar com tudo o que te aconteceu.
Que essa é a tua maneira única e exclusiva de agir.
Isso para mim seria compreensão...
Ou talvez eu tenha uma dificuldade imensa de me colocar no lugar do
outro e imaginar o porquê de seu sofrimento. Já que em algumas situações,
aquilo não seria um sofrimento para mim. Para mim.
Mas para o outro não!!!!!!!!
Para o outro aquilo é o fim do mundo...
Para o outro aquilo é o fim do mundo...
E aí?
Vou julgar e dizer que o outro está exagerando?
Sou eu que não compreendo o lado do outro ou o outro que não compreende o meu lado?
Sou eu que não compreendo o lado do outro ou o outro que não compreende o meu lado?
Ou será que estamos tão engessados pelo "meu lado" que não me
passa sequer pela mente que possa existir uma outra possibilidade? Ou ainda, eu
posso perceber essa possibilidade, mas meu gesso emocional não me deixa
agarrá-la, porque aí, do que eu irei me lamentar ou reclamar?
Onde vai dar isso tudo?
Não deveríamos ser empáticos? Isso não é um passo a mais na evolução?
Não deveríamos ser empáticos? Isso não é um passo a mais na evolução?
Mas continuamos querendo que entendam o nosso lado...
Um outro exercício:
Ok, eu te compreendo. E agora? O que mudou?
Ok, eu te compreendo. E agora? O que mudou?
Eu aceito ou não a sua atitude porque te compreendo?
Compreender vai mudar alguma coisa em mim? Pode ser que sim, pode ser que não...
Compreensão não quer dizer aceitação da atitude ou concordância. É passivo. Quer dizer sim, aceitação da pessoa como um todo.
E dá para confiscar algo passivo? Ou fica só no imaginário?
Quando Fernanda Takai canta:
"Eu, queria tanto encontrar, uma pessoa como eu, pra quem eu possa
confessar, alguma coisa sobre mim..."
Será que é sobre essa compreensão que ela dizia? A compreensão de quem sabe o caminho que trilhou?
Ser compreendido não é ter razão...
sábado, 12 de abril de 2014
informar-se X empoderar-se
O Dudu está próximo de completar 2 anos e junto com isso vem a necessidade de escrever e registrar sobre novos insights que tive ao longo desse 1 ano, principalmente sobre meu "nó emocional", leia-se parto.
1 ano atrás, consegui escrever meu relato de parto e as impressões que tinha na época. Hoje graças a Deus pude ressignificar um pouco mais essa experiência.
Percebo que fui sim vítima de violência obstétrica, vítima do sistema, e também, vítima de mim mesma. Percebo que em alguns aspectos eu "soltei as rédeas", da mesma maneira que fazia quando montava e participava de competições equestres. Soltei e segui a correnteza, ou melhor, segui para onde me levaram: um centro cirúrgico.
O mais marcante para mim foi perceber a diferença entre os termos informar-se e empoderar-se.
Polêmicas a parte, o termo empoderar-se surgiu na minha vida quando engravidei e tive contato com o mundo da humanização do parto.
No início, não gostei do termo e da maneira que era empregado. A palavra poder sempre me intimidou um pouco. E optei por não utilizá-la quando falava sobre o assunto. Só por isso, já tenho um começo que me direcionou ligeiramente para outro rumo.
Me informei MUITO durante a gravidez. Li algumas dezenas de artigos, assisti uns 10 filmes sobre o assunto e li quase uma centena de relatos de parto. No meu próprio relato de parto já havia chegado a conclusão que esse talvez tivesse sido um problema. Hoje penso que mais que um problema, essa informação toda me iludiu. E para tentar explicar isso, preciso usar um exemplo da minha experiência acadêmica.
Em toda minha vida acadêmica, sempre tive notas muito boas, modéstia a parte, me formei entre os 3 melhores alunos da minha turma na faculdade, passei em segundo lugar no vestibular e em segundo lugar também no mestrado. Mas como sempre ouvimos falar, notas não significam muita coisa, e é verdade. Por que? Porque na maioria das vezes, eu sempre tive uma noção geral do assunto e do seu mecanismo. Mas não tinha tudo aquilo dentro da minha cabeça. Sempre precisei de um ponto de início, um fio da meada para me localizar. O modelo de avaliações pelas quais passamos me serviam muito bem neste aspecto. Tanto que nas raríssimas disciplinas que ofereciam questões discursivas nas avaliações, minhas notas já não foram tão especiais assim. Por isso, sempre senti que meu conhecimento, de certa forma, também era uma ilusão, pois não era capaz de armazenar toda a informação necessária para explicar alguma coisa de forma detalhada, como eu acreditava ser necessário caso eu realmente tivesse absorvido e vivenciado o conhecimento.
Vivenciado.
Essa palavra significa muito. E é aqui que as coisas se encontram. Pois acredito que é a partir do momento que incorporamos, engolimos, absorvemos, internalizamos as coisas, que elas passam a fazer parte de nós e tem o poder de mudar nossos hábitos, atitudes, nosso rumo.
Eu me informei sobre o parto, tinha certeza da minha escolha, me preparei como mandava o protocolo (quanta inocência): fiz um plano de parto, tinha uma doula, visitei a maternidade, me certifiquei das possibilidades, me informei, sabia dos meus direitos, tinha um companheiro que me apoiava como podia. Só não tinha um médico de confiança, o que em Portugal não era coisa fácil, pois lá, pelo menos na época, não haviam médicos humanizados (até onde eu sabia).
Mas na hora P (de parto), soltei as rédeas. Percebi isso quando li este relato de parto. No momento que ela questiona a necessidade de mais um CTG durante seu trabalho de parto e entra num acordo de 5 minutos.
"Era isso que eu devia ter feito!!!!!!"
Foi a primeira coisa que me veio na cabeça. Insight.
Mas meu medo de que meu lado intelectual intervisse na hora P, que deveria ser uma hora puramente fisiológica e instintiva, fez com que eu não questionasse certas atitudes, procedimentos, nem nada do tipo. Na minha cabeça, eu havia delegado essa responsabilidade para meu esposo e minha doula. Que fizeram o seu melhor dentro das possibilidades. Mas a hora P era a minha hora. Eu deveria ter assumido essa responsabilidade, me empoderado e lutado pelo que eu queria.
Não tiro a culpa do sistema muito menos do médico.
Eu só queria que me deixassem em paz.
Mas 2 anos depois, eu percebo e assumo minha parcela de responsabilidade pelo que me aconteceu.
Isso faz parte do crescimento, do amadurecimento, do preocessamento do "luto" pelo meu "não parto", e me sinto privilegiada por ter conseguido pensar nisso.
Apreendido. Confiscado. Amarrado.
Pois não foi apenas nesse momento que fiz isso. Quantas e quantas vezes ignorei (consciente ou inconscientemente), coisas que não gostava, e soltei as rédeas, por inúmeros motivos. E depois chorei pelos resultados que recebia.
Quantas e quantas vezes "dormi", psicologicamente falando, quando não fui plenamente consciente do momento presente e do que se movimentava dentro de mim. Ignorando o que queria, por medo de enfrentar certas coisas.
Quantas coisas não confisquei...
Que cada vez mais, sejam menos coisas...
1 ano atrás, consegui escrever meu relato de parto e as impressões que tinha na época. Hoje graças a Deus pude ressignificar um pouco mais essa experiência.
Percebo que fui sim vítima de violência obstétrica, vítima do sistema, e também, vítima de mim mesma. Percebo que em alguns aspectos eu "soltei as rédeas", da mesma maneira que fazia quando montava e participava de competições equestres. Soltei e segui a correnteza, ou melhor, segui para onde me levaram: um centro cirúrgico.
O mais marcante para mim foi perceber a diferença entre os termos informar-se e empoderar-se.
Polêmicas a parte, o termo empoderar-se surgiu na minha vida quando engravidei e tive contato com o mundo da humanização do parto.
No início, não gostei do termo e da maneira que era empregado. A palavra poder sempre me intimidou um pouco. E optei por não utilizá-la quando falava sobre o assunto. Só por isso, já tenho um começo que me direcionou ligeiramente para outro rumo.
Me informei MUITO durante a gravidez. Li algumas dezenas de artigos, assisti uns 10 filmes sobre o assunto e li quase uma centena de relatos de parto. No meu próprio relato de parto já havia chegado a conclusão que esse talvez tivesse sido um problema. Hoje penso que mais que um problema, essa informação toda me iludiu. E para tentar explicar isso, preciso usar um exemplo da minha experiência acadêmica.
Em toda minha vida acadêmica, sempre tive notas muito boas, modéstia a parte, me formei entre os 3 melhores alunos da minha turma na faculdade, passei em segundo lugar no vestibular e em segundo lugar também no mestrado. Mas como sempre ouvimos falar, notas não significam muita coisa, e é verdade. Por que? Porque na maioria das vezes, eu sempre tive uma noção geral do assunto e do seu mecanismo. Mas não tinha tudo aquilo dentro da minha cabeça. Sempre precisei de um ponto de início, um fio da meada para me localizar. O modelo de avaliações pelas quais passamos me serviam muito bem neste aspecto. Tanto que nas raríssimas disciplinas que ofereciam questões discursivas nas avaliações, minhas notas já não foram tão especiais assim. Por isso, sempre senti que meu conhecimento, de certa forma, também era uma ilusão, pois não era capaz de armazenar toda a informação necessária para explicar alguma coisa de forma detalhada, como eu acreditava ser necessário caso eu realmente tivesse absorvido e vivenciado o conhecimento.
Vivenciado.
Essa palavra significa muito. E é aqui que as coisas se encontram. Pois acredito que é a partir do momento que incorporamos, engolimos, absorvemos, internalizamos as coisas, que elas passam a fazer parte de nós e tem o poder de mudar nossos hábitos, atitudes, nosso rumo.
Eu me informei sobre o parto, tinha certeza da minha escolha, me preparei como mandava o protocolo (quanta inocência): fiz um plano de parto, tinha uma doula, visitei a maternidade, me certifiquei das possibilidades, me informei, sabia dos meus direitos, tinha um companheiro que me apoiava como podia. Só não tinha um médico de confiança, o que em Portugal não era coisa fácil, pois lá, pelo menos na época, não haviam médicos humanizados (até onde eu sabia).
Mas na hora P (de parto), soltei as rédeas. Percebi isso quando li este relato de parto. No momento que ela questiona a necessidade de mais um CTG durante seu trabalho de parto e entra num acordo de 5 minutos.
"Era isso que eu devia ter feito!!!!!!"
Foi a primeira coisa que me veio na cabeça. Insight.
Mas meu medo de que meu lado intelectual intervisse na hora P, que deveria ser uma hora puramente fisiológica e instintiva, fez com que eu não questionasse certas atitudes, procedimentos, nem nada do tipo. Na minha cabeça, eu havia delegado essa responsabilidade para meu esposo e minha doula. Que fizeram o seu melhor dentro das possibilidades. Mas a hora P era a minha hora. Eu deveria ter assumido essa responsabilidade, me empoderado e lutado pelo que eu queria.
Não tiro a culpa do sistema muito menos do médico.
Eu só queria que me deixassem em paz.
Mas 2 anos depois, eu percebo e assumo minha parcela de responsabilidade pelo que me aconteceu.
Isso faz parte do crescimento, do amadurecimento, do preocessamento do "luto" pelo meu "não parto", e me sinto privilegiada por ter conseguido pensar nisso.
Apreendido. Confiscado. Amarrado.
Pois não foi apenas nesse momento que fiz isso. Quantas e quantas vezes ignorei (consciente ou inconscientemente), coisas que não gostava, e soltei as rédeas, por inúmeros motivos. E depois chorei pelos resultados que recebia.
Quantas e quantas vezes "dormi", psicologicamente falando, quando não fui plenamente consciente do momento presente e do que se movimentava dentro de mim. Ignorando o que queria, por medo de enfrentar certas coisas.
Quantas coisas não confisquei...
Que cada vez mais, sejam menos coisas...
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quarta-feira, 5 de março de 2014
12 anos de escravidão e um insight
Assisti nesse carnaval o filme 12 years a Slave (2013) ou 12 anos de escravidão.
Já tinha tido a oportunidade de assistir em outro momento, mas só de pensar em ver cenas de sofrimento, desisti. Só que no dia eu tinha lido que este filme tinha ganho o Oscar. Resolvi arriscar.
Não sei explicar, mas em muitos momentos eu fechei os olhos e em outros eu saí do quarto. Não consegui suportar ver tanto sofrimento. Ver e pensar que tudo aquilo realmente aconteceu, já que o filme é baseado numa história real bem documentada.
O que me chamou a atenção é que isso nunca tinha me acontecido. Lembro de ter assitido Sinhá Moça, e outras novelas/filmes que abordavam o tema mostrando bem a crueldade existente e não ter ficado assim. No máximo pensava no assunto por dois minutos e logo passava para frente.
O que aconteceu então?
Consigo identificar basicamente dois fatores: Sincronicidade e Maternidade.
Sincronicidade porque de repente, tudo que tinha lido e que de certa forma parecia desconexo, durante o filme percebi como estava tudo interligado. Leituras como Dalai Lama, Jung, Thich Nhat Hanh, Augusto de Franco, Campbell, Morin, Bauman, a bíblia, João Bernardes da Rocha Filho e Eckhart Tolle (por último), de repente se uniram e como num "boom" na minha alma, fizeram sentido. Não que antes não fizessem, mas desta vez hove a vivência de algo em específico.
Ganharam sentido porque mentalmente eu entendia o que diziam. Mas com este filme eu senti. Senti o que dizem sobre a dor do outro ser também a nossa dor, e a raiva e o mal do outro também serem o nosso mal.
A tal história de Gandhi, "seja a mudança que você deseja ver no mundo", e a outra que desconheço o autor "não deixe que o mal do outro provoque o seu mal", e por fim: de nada adianta querer mudar o mundo se não mudarmos a nós mesmos, pois fazemos todos parte de uma mesma rede, de uma mesma energia comum, somos filhos do mesmo pai, desdobramentos da mesma consciência universal suprema que tudo cria e tudo transforma.
Nossa, parece que vomitei um monte de coisa do que andei lendo. Mas deve ter sido isso mesmo, pois ao ver apenas uma pequena parte do sofrimento inflingido aos escravos mostrado pelo filme, e ao ver a ira e o ódio daqueles que provocavam esse sofrimento, eu me vi nos dois lados. Reconheci o meu mal nos olhos deles, e reconheci meu sofrimento no choro dos que apanhavam. Parece dramático e bizarro né? Também achei, mas foi assim mesmo que senti. E uma questão ainda maior surgiu: e todas as atrocidades que acontecem ainda hoje e que sequer tomamos conhecimento?? Mas parei por aqui para não surtar.
Sendo assim, uma questão continuava em aberto: Por que eu estava sentindo isso agora? Na hora já me veio a resposta: meu filho. A maternidade me abriu portas e janelas que eu simplesmente era uma completa ignorante. A questão sentimental é uma delas. Muitas vezes optei por ignorar certos sentimentos, na maioria das vezes, inconscientemente. Mas com o meu filho, simplesmente não consigo mais ignorar muita coisa. E isso para mim é uma benção!! Me traz um sentimento de gratidão que só me faz cada vez mais querer ser melhor como pessoa. Tudo isso, entre outros, por causa de um sentimento com tamanho poder de transformação: o amor.
Confiscado.
Já tinha tido a oportunidade de assistir em outro momento, mas só de pensar em ver cenas de sofrimento, desisti. Só que no dia eu tinha lido que este filme tinha ganho o Oscar. Resolvi arriscar.
Não sei explicar, mas em muitos momentos eu fechei os olhos e em outros eu saí do quarto. Não consegui suportar ver tanto sofrimento. Ver e pensar que tudo aquilo realmente aconteceu, já que o filme é baseado numa história real bem documentada.
O que me chamou a atenção é que isso nunca tinha me acontecido. Lembro de ter assitido Sinhá Moça, e outras novelas/filmes que abordavam o tema mostrando bem a crueldade existente e não ter ficado assim. No máximo pensava no assunto por dois minutos e logo passava para frente.
O que aconteceu então?
Consigo identificar basicamente dois fatores: Sincronicidade e Maternidade.
Sincronicidade porque de repente, tudo que tinha lido e que de certa forma parecia desconexo, durante o filme percebi como estava tudo interligado. Leituras como Dalai Lama, Jung, Thich Nhat Hanh, Augusto de Franco, Campbell, Morin, Bauman, a bíblia, João Bernardes da Rocha Filho e Eckhart Tolle (por último), de repente se uniram e como num "boom" na minha alma, fizeram sentido. Não que antes não fizessem, mas desta vez hove a vivência de algo em específico.
Ganharam sentido porque mentalmente eu entendia o que diziam. Mas com este filme eu senti. Senti o que dizem sobre a dor do outro ser também a nossa dor, e a raiva e o mal do outro também serem o nosso mal.
A tal história de Gandhi, "seja a mudança que você deseja ver no mundo", e a outra que desconheço o autor "não deixe que o mal do outro provoque o seu mal", e por fim: de nada adianta querer mudar o mundo se não mudarmos a nós mesmos, pois fazemos todos parte de uma mesma rede, de uma mesma energia comum, somos filhos do mesmo pai, desdobramentos da mesma consciência universal suprema que tudo cria e tudo transforma.
Nossa, parece que vomitei um monte de coisa do que andei lendo. Mas deve ter sido isso mesmo, pois ao ver apenas uma pequena parte do sofrimento inflingido aos escravos mostrado pelo filme, e ao ver a ira e o ódio daqueles que provocavam esse sofrimento, eu me vi nos dois lados. Reconheci o meu mal nos olhos deles, e reconheci meu sofrimento no choro dos que apanhavam. Parece dramático e bizarro né? Também achei, mas foi assim mesmo que senti. E uma questão ainda maior surgiu: e todas as atrocidades que acontecem ainda hoje e que sequer tomamos conhecimento?? Mas parei por aqui para não surtar.
Sendo assim, uma questão continuava em aberto: Por que eu estava sentindo isso agora? Na hora já me veio a resposta: meu filho. A maternidade me abriu portas e janelas que eu simplesmente era uma completa ignorante. A questão sentimental é uma delas. Muitas vezes optei por ignorar certos sentimentos, na maioria das vezes, inconscientemente. Mas com o meu filho, simplesmente não consigo mais ignorar muita coisa. E isso para mim é uma benção!! Me traz um sentimento de gratidão que só me faz cada vez mais querer ser melhor como pessoa. Tudo isso, entre outros, por causa de um sentimento com tamanho poder de transformação: o amor.
Confiscado.
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
a reflexão dos 30
Começei a escrever isso em 29/10, e mais outras coisas até chegar o tal dia dos 30. Mas esse primeiro foi o mais perto que cheguei dos sentimentos e emoções que os "30" me trouxeram.
A reflexão dos 30.
Começo pelo passado. Uma das primeiras coisas que me veio em
mente foram os meus 15 anos e um livro que li “Meus vários 15 anos”.
Aos 15, sonhava com uma festa “tradicional”, com vestidos
deslumbrantes, jantar e valsa. Num típico delírio consumista deslumbrante. Mas
ao mesmo tempo, meu lado “do contra” trocou a festa por um cavalo. E isso foi
determinante. Aos 15, ganhei algo que mudou e determinou uma boa parte da minha
vida. Iceberg, um cavalo meio sangue quarto de milha que me desafiou em
inúmeros aspectos, e que hoje me provoca um misto de vergonha e agradecimento.
Vergonha pois foi nesta época que achei que violência, com animais, resolveria
alguma coisa. Vergonha por hoje perceber que o cavalo era um objeto que eu utilizava
para descarregar minhas frustrações. Vergonha por ter demorado a perceber que
mesmo eu batendo ou tentando “ensinar” alguma coisa a ele, isso não aliviava
minhas frustrações. Vergonha por ter tentado ser uma boa amazona por tantos
anos e não ter conseguido. Vergonha por inúmeras outras coisas que vivi com os
cavalos e seu “meio moderno”.
Agradecimento por tudo que aprendi. Pelos dias que chorei
por não ter conseguido. Pelas provas que perdi, pelas competições que
participei, que tiveram um papel importantíssimo na aproximação de meu pai.
Pelos lugares que conheci, pelas pequenas provas que fui tendo ao longo do
caminho de que é possível fazer as coisas com animais sem usar a violência e
que culminaram com a minha opção de me tornar vegetariana e aos poucos ir adquirindo o respeito à vida.
Ah, a violência. Em suas inúmeras formas de expressão. Que
hoje através da maternidade tem mexido tanto comigo. Violência e exploração
animal, violência infantil, o que há de comum? Em ambos os casos, é violência
contra um ser que não consegue expressar seus desejos de uma maneira clara para
nós “adultos civilizados (?!)”. Um ser que nem sempre obedece nossas vontades e nós, na nossa
megalomania do ego, achamos que deveriam ter praticamente força de lei, pois
nós somos os adultos e temos o poder.
Aos 30, formada, com marido e filho, feminista recém
descoberta, empreendedora tímida, contestadora, ou como diria minha mãe: procuradora de cabelo em
ovo.
Na confusão dos 15, sonhava que com 30 tudo estaria resolvido ahahahahhahahahahhahahhaahahahaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
Na confusão dos 15, sonhava que com 30 tudo estaria resolvido ahahahahhahahahahhahahhaahahahaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
É engraçado e me deixa desesperada ao mesmo tempo.
Contraditório, como sou em muitos aspectos.
Portadora de uma subjetividade que me engole, num emaranhado
de possibilidades cada vez mais complexas. Até descobrir a complexidade de
Edgar Morin e me sentir um pouco compreendida (por mim mesma, vejam bem).
Aos 30 posso assumir que dentro de mim, meu grande desejo
“material” sempre foi o da maternidade. Por mais que eu tentasse ter um grande
desejo na carreira profissional, como é o esperado nos dias de hoje: ser alguém
bem sucedido, isso não me satisfez. Até que após o mestrado, com 25 anos,
assumi que não sabia o que fazer da vida. Assumi minha dificuldade de me
encontrar e prover o meu próprio sustento. Assumi minha incapacidade de
abandonar o lar e cair no mundo na luta desenfreada da sobrevivência. Com uma
faculdade e uma mestrado nas costas, fui fazer cookies e cupcakes e fazer bico
em empresa de decoração de casamento. No meio tempo conheci meu futuro marido,
que morava em Portugal. Portugal?! Nunca pensei em ir a Portugal. O mais perto
que cheguei foi o clube Português e o tradicional bacalhau. Pensei em
voluntariado, o sangue sagitariano bateu forte e rumei além mar. Para mais uma
vez me descobrir incapaz. Descobrir e sozinha criar coragem para assumir o
fracasso e a necessidade de uma vida menos aventureira ou mais confortável. Meu
outro sonho de cair no mundo fazendo voluntariado foi se embora no Montijo, a
beira do Tejo.
Mais uma vez tive que me reinventar e dessa vez, buscando
começar minha própria família, fui contra meus instintos, numa tentativa de me
enquadrar no padrão da sociedade cuja pressão eu sentia como: tens que
trabalhar e ganhar dinheiro. Fiz o que eu sabia fazer, fui estudar. É o que
faço melhor, não tenho grandes dificuldades, vou ter um salário e essa parte
vai ficar tranquila para eu poder cuidar das outras. Eu estava imensamente
feliz por ter encontrado meu esposo e aceitei profundamente agradecida a
oportunidade de cursar um doutorado.
Veio a maternidade e desmoronou tudo que eu vinha tentando
construir na tentativa de me enquadrar na sociedade. Ainda numa última
tentativa, deixei meu filho numa creche, indo contra todos os meus instintos
que bradavam vorazmente contra isso. Não funcionou. Me armei até os dentes e
bati o pé: para a creche meu filho não volta.
Assumi, porque agora já nãe era
só a mim que influenciava, era alguém que nutro profundo amor, alguém
simbiótico, meu filho. Encarei os julgamentos alheios, a não concordância do
meu esposo, e a perda da “independência financeira”. Eu precisava do meu filho
e ele de mim. Era isso que eu sentia, claro! E a lucidez que de tempos em tempos me visita bateu palmas de
felicidade. “Ela conseguiu ouvir seu coração”, aleluia! Obrigada filho, por me
dar forças no seu sofrimento, para que eu conseguisse tomar uma decisão.
Aos 30, me descubro feminista. Me descubro intolerante. Me
descubro caminhante. Me descubro uma meia-ativista. Descubro que pequenas coisas que vão acontecendo ao longo
dos anos tem um poder (que não lhes foi dado) de destruir coisas grandes. E que
quando as percebemos destruidas, não sabemos dizer o que a destruiu. Não é como
uma chuva forte que destelha uma casa. É como uma chuva mansa, que vai se
infiltrando na terra e faz cair o barranco. E aí você olha e diz: mas estava
chovendo tão fraquinho, como isso foi acontecer?
Fragmentos...
Aos 30, nunca imaginei tamanha revolução ou significado. Pela primeira vez me cantaram parabéns e não fiquei envergonhada. Estava inexplicavelmente a vontade.
Aos 30, nunca imaginei tamanha revolução ou significado. Pela primeira vez me cantaram parabéns e não fiquei envergonhada. Estava inexplicavelmente a vontade.
Esses dias, depois de assistir um vídeo (http://vimeo.com/66058153), ao ouvir a
palavra “blessed”, foi como se uma
porta tivesse se aberto. Me lembrei do texto que escrevi na aula de Public Speaking, onde falei sobre Joseph
Campbell e sobre encontrar sua “bem
aventurança” ou bliss. No auge da minha necessidade de encontrar uma...
Não sei onde foi parar o texto agora, talvez esteja perdido
em alguma conta de e-mail ou em algum caderno jogado entre as mudanças que fiz.
O fato é que tive um insight, ou pelo
menos pareceu um: minha bliss é a
maternidade. Isso é o que sempre quis! Pronto, assumi. Levei 30 anos para
descobrir (?!). Talvez seja uma das minhas bliss,
mas essa eu sinto do fundo do meu coração que é. Também assistindo um outro
vídeo li a frase: “Maternidade: Uma ruptura existencial” o que também me fez
muito sentido! Nada na minha vida até hoje foi tão revolucionário quanto a
maternidade. Minha história com os cavalos foi determinante para muita coisa, e
agora, 15 anos depois, uma nova etapa, uma nova revolução: a maternidade. Será
que estou influenciada pelo livro “Meus vários 15 anos”? Ou será que esse
período realmente tem algum significado nas fases que passamos?
E nesse meio tempo da
maternidade, acreditem, várias ideias já passaram por essa cabeçinha. Doula,
cake designer, empreendedora, um café-livraria-floricultura, jornalista
científica, free lancer de textos científicos, e aos poucos fui identificando
uma vontade de ser jornalista. De escrever as coisas que vem na minha cabeça. A
escrita sempre foi uma via de mão dupla para mim. Ao mesmo tempo que morro de
preguiça, outras vezes, escrever é a única solução para eu me entender e
organizar meus pensamentos um pouco.
Infinitas possibilidades como sempre...
Passei o dia 6 trabalhando, fazendo e assando panetones, chocotones e cookies. Confeitando bolos e cupcakes. No dia seguinte iria participar da Feira do Empreendedorismo Materno. Que significativo!
Passei o dia 6 trabalhando, fazendo e assando panetones, chocotones e cookies. Confeitando bolos e cupcakes. No dia seguinte iria participar da Feira do Empreendedorismo Materno. Que significativo!
Confisco o necessário, pois significar algumas coisas tem sido cada vez mais complexo.
Aos 15 ganhou um cavalo, aos 30, fez um bolo de cavalo. Sem mais divagações. Que venham mais 15 :)
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
a eterna busca
Sim, eu tenho uma eterna busca.
Saber o que tenho que fazer nessa vida.
As vezes me parece que até tenho prazer em saber dessa busca. Mas na maioria das vezes o que me dá é desespero mesmo.
Aquela coisa de ver a água subindo e não saber o que fazer.
Então hoje para ilustrar esse post, trago imagens da Revista Sorria, do projeto 365 Sorrisos.
E como diz a frase de Nemo Nox (não, não é Fernando Pessoa): "Pedras no caminho? Eu guardo todas. Um dia vou construir um castelo." , pensei que talvez eu deva usar essa pedra e começar alguma coisa.
Hoje sou fã de alguns bloggers que estão relacionados com esse assunto, e cujos escritos me fazem muito sentido, são eles: Cientista que virou mãe, Orelhas de vidro.
E tentando fazer o que diz a imagem, apesar de muitas vezes eu não fazer ideia de pra onde minha intuição aponta, pensei que como dedico muito tempo a este assunto, talvez eu tenha que investir nisso de outra maneira.
Pensei nisso depois de ler um texto que meu marido me recomendou: The disciplined pursuit of less, em tradução livre: "A disciplinada busca pelo menos". Mais uma vez, a tal busca.
Quando os três fatores exemplificados no círculo acontecem, segundo o autor, é quando temos o ponto mais alto de contribuição para a sociedade.
Eu tenho uma veia científica muito forte, não posso fugir disso. Acredito que mudanças profundas estão acontecendo. Só falta descobrir a minha paixão... Que é sempre onde fico parada.
Saber o que tenho que fazer nessa vida.
As vezes me parece que até tenho prazer em saber dessa busca. Mas na maioria das vezes o que me dá é desespero mesmo.
Aquela coisa de ver a água subindo e não saber o que fazer.
Então hoje para ilustrar esse post, trago imagens da Revista Sorria, do projeto 365 Sorrisos.
Sim, sempre há um caminho!
Eu já andei por vários, e o último que trilhei, decidi parar no meio, para reajustes.
Meus caminhos sempre tiveram a ver com ciência, evolução pessoal/espiritual, buscas, viagens e descobertas. Mas a danada da pergunta sempre esteve comigo, onde quer que eu estivesse.
Não sei, já achei que fosse muita coisa, e com isso vivi muitas experiências maravilhosas! Já trabalhei com cavalos, fiz um mochilão, morei em convento, terminei um mestrado, vendi cookies e cupcakes, trabalhei com flores, atravessei o atlântico para conhecer o amor da minha vida, comecei e desisti de um doutorado, tive um filho, e essa última experiência foi a mais marcante. A experiência do parto. Não tem um dia que não me lembre dos momentos que vivi antes do meu filho nascer.
Era isso que eu devia fazer, deixar ir as lembranças ruins... Mas não consigo. Os momentos que vivi depois que meu filho nasceu foram os mais importantes e felizes, mas o que aconteceu antes é uma "pedra no meu sapato".E como diz a frase de Nemo Nox (não, não é Fernando Pessoa): "Pedras no caminho? Eu guardo todas. Um dia vou construir um castelo." , pensei que talvez eu deva usar essa pedra e começar alguma coisa.
Minhas armas durante a gravidez foram a informação. Mas talvez eu tenha exagerado e meu neo-cortex tomou conta e não deixou algumas coisas acontecerem. Fato aceite, é hora de descobrir o que fazer com uma má experiência.
Hoje sou fã de alguns bloggers que estão relacionados com esse assunto, e cujos escritos me fazem muito sentido, são eles: Cientista que virou mãe, Orelhas de vidro.
E tentando fazer o que diz a imagem, apesar de muitas vezes eu não fazer ideia de pra onde minha intuição aponta, pensei que como dedico muito tempo a este assunto, talvez eu tenha que investir nisso de outra maneira.
Pensei nisso depois de ler um texto que meu marido me recomendou: The disciplined pursuit of less, em tradução livre: "A disciplinada busca pelo menos". Mais uma vez, a tal busca.
Quando os três fatores exemplificados no círculo acontecem, segundo o autor, é quando temos o ponto mais alto de contribuição para a sociedade.
Eu tenho uma veia científica muito forte, não posso fugir disso. Acredito que mudanças profundas estão acontecendo. Só falta descobrir a minha paixão... Que é sempre onde fico parada.
Mas não podia deixar de confiscar esse início de movimento, que me leva a ter esperança que meu passado e presente estão descortinando um futuro que já é quase possível prever.
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