Mostrando postagens com marcador violência. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador violência. Mostrar todas as postagens

sábado, 2 de julho de 2016

a mulher braba


E tudo com a nossa permissão.
O caos é oportunidade de nos aprofundarmos no caminho. Sem o caos há acomodação, natural na nossa humanidade.
Eu, no meio do meu caos, encontrei alguns lampejos. A Clarissa me devolveu. O livro: Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estes deveria ser leitura obrigatória, para homens e mulheres.
Através dos mitos e da sua escrita poética e profunda, vieram os vagalumes da compreensão.
Nem sempre é suave.


Mas é real, é verdadeiro, fica confiscado, fica apreendido. Ninguém tira.
Não é suave porque dói reconhecer a nossa sombra. Dói olhar para aquilo que não queremos. É torturante reconhecer nossas fraquezas, se sentir sufocada por elas. Reconhecer nossos erros e as coisas que perdemos por conta de atitudes inconscientes é dilacerante.
Com os mitos e a Clarissa já pude entrar em contato com duas "personagens" bastante significativas na minha história. O "Barba Azul" e a "Mulher Braba". 
"A mulher braba é aquela que um dia viveu num estado psíquico natural — ou seja, em perfeito estado mental selvagem — e que depois se tornou cativa de alguma reviravolta dos acontecimentos, passando, assim, a ser excessivamente domesticada e amortecida nos seus instintos próprios. Quando essa mulher tem a oportunidade de voltar à sua natureza selvagem original, quase sempre ela é vítima de todos os tipos de armadilhas e venenos. Como seus ciclos e seus sistemas de proteção foram manipulados, ela corre riscos naquele que costumava ser seu estado selvagem natural. Já não mais alerta e desconfiada, ela se torna presa fácil."
"Se você alguma vez foi capturada, se você alguma vez sofreu de hambre del alma, uma fome da alma, se você alguma vez se sentiu num alçapão e especialmente se você tem uma compulsão a criar, é bem provável que você tenha sido ou seja uma mulher braba. A mulher braba tem em geral uma fome extrema por algo profundo e, muitas vezes, pode ingerir qualquer veneno disfarçado na ponta de uma flecha, na crença de que ele é aquilo pelo qual sua alma anseia." 
Fome extrema por algo profundo.
Sim, essa sou eu.
E como me tornei uma mulher braba? Ainda não sei exatamente. Mas sempre senti dificuldade de ouvir meus instintos, meu coração, minha voz interior. Clarissa indica pistas, caminhos. Estou percorrendo alguns para ter uma compreensão mais ampla.
"A vida sombria ocorre quando escritoras, pintoras, bailarinas, mães, cientistas, místicas, estudantes ou artífices param de escrever, de pintar, de dançar, de cuidar dos filhos, de pesquisar, observar, aprender, praticar. Elas podem parar porque aquilo a que dedicaram tanto tempo não saiu como esperavam, não obteve o reconhecimento merecido ou por inúmeras outras razões. Quando quem cria pára pelo motivo que seja, a energia que chega naturalmente a ela é desviada para o mundo oculto, a partir do qual ela vem à tona quando e onde consegue." 
Quando e onde consegue. Ou numa metáfora que Debbie Ford no livro e documentário "O Efeito Sombra" usou muito bem: sabe quando tentamos manter bolas dentro da água em uma piscina? Com uma bola é fácil, duas, três... mas as bolas (nossas sombras) aumentam ao longo da vida, e fica difícil mantê-las todas dentro d´agua. E de repente, quando menos esperamos, elas sobem, bem na nossa cara. E a gente olha e se lamenta: Mas não era isso que eu queria!
"Quando a mulher começa a arrumar a sua vida para que caiba inteira num pequeno embrulho bem-feito, tudo o que consegue é forçar toda a sua energia vital para o lado da sombra. "É, estou bem", diz essa mulher. Olhamos para ela do outro lado do quarto ou no espelho. Sabemos que não está bem. Um dia, de repente, alguém nos diz que ela se juntou com um tocador de flautim e fugiu para Tippicanoe para tomar conta de um cassino. Ficamos nos perguntando o que aconteceu porque sabemos que ela detesta flautins e sempre quis ir morar nas ilhas gregas, não em Tippicanoe, e nunca chegou a mencionar uma palavra sequer a respeito de cassinos." 
O mito que representa a mulher braba é o dos Sapatinhos Vermelhos. Envolve inúmeras nuances da psique. Não é uma história que termina bem. Na verdade, é a mais atemorizante que li até agora. Por isso, digo como Matilde Campilho: Escute só, isto é muito sério. Ande, escute que isto é sério...  
"Quando estamos obcecadas pelos sapatinhos vermelhos, todo tipo de fato importante do ponto de vista cultural, pessoal ou ambiental é deixado de lado."
"Quando os instintos estão feridos, os seres humanos trivializam uma agressão após a outra, atos de injustiça e destruição que afeiam a elas mesmas, à sua prole, aos seres amados, à sua terra e até mesmo aos seus deuses."
Existem muitas mulheres brabas por aí, famosas e brilhantes. Quando Clarissa mencionou Janis Joplin tudo ficou mais claro. Na adolescência sentia uma atração inexplicável por essa cantora. Agora vejo que era na verdade uma identificação. Me via nela. Claro, ela era uma mulher braba!
"Não foi a música, o canto nem a vida criativa finalmente liberada de Janis Joplin que a mataram. Foi a falta de instinto para reconhecer as armadilhas, para saber quando basta, para criar limites para a defesa da saúde e do bem-estar, para entender que os excessos quebram alguns ossinhos psíquicos, depois outros maiores, até que finalmente todo o esqueleto de sustentação da psique cai por terra e a pessoa vira uma massa amorfa em vez de uma força poderosa."
E porque escrevo tudo isso?
Por causa da voz da mulher selvagem que anseia em ser ouvida.
"Só esse anseio, esse desejo já faz a pessoa prosseguir. Ele faz com que a mulher continue a procurar. E, se não consegue encontrar a cultura que a estimule, geralmente ela resolve criar, ela mesma, essa cultura. Isso é bom, pois, se ela a criar, outras que vinham procurando há muito tempo chegarão misteriosamente um dia, proclamando com entusiasmo o fato de estarem procurando por ela o tempo todo."

Por fim, o alento:

"Portanto, a mulher que perdeu o controle pela dança, que perdeu seu equilíbrio e seus pés e compreende esse estado de privação no final da história, tem um conhecimento especial e valioso. Ela é como um saguaro, um belo cacto gigante que sobrevive no deserto. Esses cactos podem ser perfurados por muitos tiros, podem ser entalhados, derrubados, pisoteados e ainda assim sobrevivem, ainda assim armazenam a água que dá vida, ainda assim crescem loucamente e se recuperam com o tempo. 
Apesar de os contos de fadas acabarem ao final de dez páginas, nossas vidas não acabam junto. Nós somos coleções de muitos volumes. Na nossa vida, mesmo que um episódio represente um desastre total, sempre há um outro episódio à nossa espera e depois mais outro. Há sempre outras oportunidades para acertar, para moldar nossa vida do jeito que merecemos que ela seja. Não percam tempo amaldiçoando alguma derrota. O fracasso é um mestre mais eficaz do que o sucesso. Ouçam, aprendam, insistam. É isso o que estamos fazendo com essa história. Estamos ouvindo sua mensagem antiqüíssima. Estamos aprendendo lições sobre modelos deteriorantes para podermos prosseguir com a força de quem sabe pressentir as armadilhas, arapucas e iscas antes de nos defrontarmos com elas ou de com elas nos envolvermos. "

Para fazer download do livro, clique aqui.


quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

ao longo do caminho

Agora nas mini-férias resolvi encarar e terminei de assistir a série do Netflix Narcos, sobre Pablo Escobar.
Assisti os primeiros episódios logo que foi lançado, e me causaram um transtorno mental imenso que me fizeram parar de assistir e refletir muito. Seja pela violência mostrada, que acredito não ter chegado perto do que realmente aconteceu. Seja por imaginar o sofrimento de todos, inclusive dos consumidores. Seja por me pegar torcendo para pegarem o traficante.
Não que isso não deva ser feito, por favor! Mas penso que aqui vale uma lógica mercadológica. Um produto só se sustenta se existe gente consumindo. Ou seja, se não houvesse tanta gente usando droga, não haveria tudo isso. Mas é muito mais fácil tratar o sintoma que atacar a raiz do problema. E neste caso, não tem como ser ingênua, a raiz do problema é extremamente profunda. Talvez seja essa profundeza que assuste. Então vamos pegar traficantes.
Ou você achou que se o Escobar tivesse sido capturado no seu auge o problema teria acabado?

Uma vez eu e minha irmã perguntamos ao meu pai como ele e minha mãe tinham feito para que nenhum de nós tivesse se envolvido com droga. Ele nos olhou, deu risada e falou: não sei, acho que sempre tentamos fazer com que vocês fossem felizes.
A despeito do fardo de carregar a felicidade de alguém nos ombros, não foi isso que meu pai quis dizer. Eu e minha irmã entendemos... Entendemos pois sabemos uma parte dos sacrifícios que eles fizeram para que nós estivéssemos felizes. Sem mimos, mas com oportunidade e presença, incondicional. A outra parte dos sacrifícios, só cabe no coração de cada um. Porque ser mãe e pai é também abrir mão. Com alegria e amor, mas é a escolha consciente e feliz, sem esperar nada em troca.
Claro que isso foi o que funcionou para nossa família. Não é uma regra, pois esse é mais um daqueles assuntos complexos demais para acharmos que temos a solução. Mas acho que todo mundo concorda que é muito mais difícil educar as pessoas a trocarem o seu prazer imediato (porque tem muita gente morrendo e sofrendo com isso, e não só), do que caçar traficantes. No estágio atual da nossa humanidade, e com toda minha ignorância, não vislumbro essa possibilidade. O que não significa que não devamos tentar!

Mas outra coisa que me chamou atenção foi como os personagens foram endurecendo ao longo (do caminho) dos 10 episódios. Não consigo me imaginar diferente, se estivesse no lugar deles. É coisa muito rara você conviver com "o mal" e não se deixar contaminar um pouco por ele. Viver em contato tão direto com tanta desgraça acaba te tirando um pouco do eixo, e você começa a achar normal certas coisas, e pior, começa a fazê-las também.
Óbviamente que isso não é só na ficção. E mesmo que a desgraça toda não esteja a sua volta, mas dentro de você...  Se você não criar coragem, olhar para ela e resolver fazer alguma coisa sobre isso, aos poucos ela vai te corrompendo, e de repente você é tomado por ela e tem atitudes que jamais pensou que teria.
Dependendo do seu grau de consciência, você não vai se perceber assim. A culpa vai continuar sendo dos outros, e isso vai te alimentando, e ao seu monstrinho, cada vez mais.
Por isso finalizo com Jung.


quarta-feira, 5 de março de 2014

12 anos de escravidão e um insight

Assisti nesse carnaval o filme 12 years a Slave (2013) ou 12 anos de escravidão.
Já tinha tido a oportunidade de assistir em outro momento, mas só de pensar em ver cenas de sofrimento, desisti. Só que no dia eu tinha lido que este filme tinha ganho o Oscar. Resolvi arriscar.

Não sei explicar, mas em muitos momentos eu fechei os olhos e em outros eu saí do quarto. Não consegui suportar ver tanto sofrimento. Ver e pensar que tudo aquilo realmente aconteceu, já que o filme é baseado numa história real bem documentada.

O que me chamou a atenção é que isso nunca tinha me acontecido. Lembro de ter assitido Sinhá Moça, e outras novelas/filmes que abordavam o tema mostrando bem a crueldade existente e não ter ficado assim. No máximo pensava no assunto por dois minutos e logo passava para frente.

O que aconteceu então?

Consigo identificar basicamente dois fatores: Sincronicidade e Maternidade.

Sincronicidade porque de repente, tudo que tinha lido e que de certa forma parecia desconexo, durante o filme percebi como estava tudo interligado. Leituras como Dalai Lama, Jung, Thich Nhat Hanh, Augusto de Franco, Campbell, Morin, Bauman, a bíblia, João Bernardes da Rocha Filho e Eckhart Tolle (por último), de repente se uniram e como num "boom" na minha alma, fizeram sentido. Não que antes não fizessem, mas desta vez hove a vivência de algo em específico.
Ganharam sentido porque mentalmente eu entendia o que diziam. Mas com este filme eu senti. Senti o que dizem sobre a dor do outro ser também a nossa dor, e a raiva e o mal do outro também serem o nosso mal.
A tal história de Gandhi, "seja a mudança que você deseja ver no mundo", e a outra que desconheço o autor "não deixe que o mal do outro provoque o seu mal", e por fim: de nada adianta querer mudar o mundo se não mudarmos a nós mesmos, pois fazemos todos parte de uma mesma rede, de uma mesma energia comum, somos filhos do mesmo pai, desdobramentos da mesma consciência universal suprema que tudo cria e tudo transforma.

Nossa, parece que vomitei um monte de coisa do que andei lendo. Mas deve ter sido isso mesmo, pois ao ver apenas uma pequena parte do sofrimento inflingido aos escravos mostrado pelo filme, e ao ver a ira e o ódio daqueles que provocavam esse sofrimento, eu me vi nos dois lados. Reconheci o meu mal nos olhos deles, e reconheci meu sofrimento no choro dos que apanhavam. Parece dramático e bizarro né? Também achei, mas foi assim mesmo que senti. E uma questão ainda maior surgiu: e todas as atrocidades que acontecem ainda hoje e que sequer tomamos conhecimento?? Mas parei por aqui para não surtar.

Sendo assim, uma questão continuava em aberto: Por que eu estava sentindo isso agora? Na hora já me veio a resposta: meu filho. A maternidade me abriu portas e janelas que eu simplesmente era uma completa ignorante. A questão sentimental é uma delas. Muitas vezes optei por ignorar certos sentimentos, na maioria das vezes, inconscientemente. Mas com o meu filho, simplesmente não consigo mais ignorar muita coisa. E isso para mim é uma benção!! Me traz um sentimento de gratidão que só me faz cada vez mais querer ser melhor como pessoa. Tudo isso, entre outros,  por causa de um sentimento com tamanho poder de transformação: o amor.

Confiscado.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

a reflexão dos 30

Começei a escrever isso em 29/10, e mais outras coisas até chegar o tal dia dos 30. Mas esse primeiro foi o mais perto que cheguei dos sentimentos e emoções que os "30" me trouxeram.

A reflexão dos 30.
Começo pelo passado. Uma das primeiras coisas que me veio em mente foram os meus 15 anos e um livro que li “Meus vários 15 anos”.
Aos 15, sonhava com uma festa “tradicional”, com vestidos deslumbrantes, jantar e valsa. Num típico delírio consumista deslumbrante. Mas ao mesmo tempo, meu lado “do contra” trocou a festa por um cavalo. E isso foi determinante. Aos 15, ganhei algo que mudou e determinou uma boa parte da minha vida. Iceberg, um cavalo meio sangue quarto de milha que me desafiou em inúmeros aspectos, e que hoje me provoca um misto de vergonha e agradecimento. Vergonha pois foi nesta época que achei que violência, com animais, resolveria alguma coisa. Vergonha por hoje perceber que o cavalo era um objeto que eu utilizava para descarregar minhas frustrações. Vergonha por ter demorado a perceber que mesmo eu batendo ou tentando “ensinar” alguma coisa a ele, isso não aliviava minhas frustrações. Vergonha por ter tentado ser uma boa amazona por tantos anos e não ter conseguido. Vergonha por inúmeras outras coisas que vivi com os cavalos e seu “meio moderno”.
Agradecimento por tudo que aprendi. Pelos dias que chorei por não ter conseguido. Pelas provas que perdi, pelas competições que participei, que tiveram um papel importantíssimo na aproximação de meu pai. Pelos lugares que conheci, pelas pequenas provas que fui tendo ao longo do caminho de que é possível fazer as coisas com animais sem usar a violência e que culminaram com a minha opção de me tornar vegetariana e aos poucos ir adquirindo o respeito à vida.
Ah, a violência. Em suas inúmeras formas de expressão. Que hoje através da maternidade tem mexido tanto comigo. Violência e exploração animal, violência infantil, o que há de comum? Em ambos os casos, é violência contra um ser que não consegue expressar seus desejos de uma maneira clara para nós “adultos civilizados (?!)”. Um ser que nem sempre obedece nossas vontades e nós, na nossa megalomania do ego, achamos que deveriam ter praticamente força de lei, pois nós somos os adultos e temos o poder.
Aos 30, formada, com marido e filho, feminista recém descoberta, empreendedora tímida, contestadora, ou como diria minha mãe: procuradora de cabelo em ovo.
Na confusão dos 15, sonhava que com 30 tudo estaria resolvido ahahahahhahahahahhahahhaahahahaaaaaaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh
É engraçado e me deixa desesperada ao mesmo tempo. Contraditório, como sou em muitos aspectos.
Portadora de uma subjetividade que me engole, num emaranhado de possibilidades cada vez mais complexas. Até descobrir a complexidade de Edgar Morin e me sentir um pouco compreendida (por mim mesma, vejam bem).
Aos 30 posso assumir que dentro de mim, meu grande desejo “material” sempre foi o da maternidade. Por mais que eu tentasse ter um grande desejo na carreira profissional, como é o esperado nos dias de hoje: ser alguém bem sucedido, isso não me satisfez. Até que após o mestrado, com 25 anos, assumi que não sabia o que fazer da vida. Assumi minha dificuldade de me encontrar e prover o meu próprio sustento. Assumi minha incapacidade de abandonar o lar e cair no mundo na luta desenfreada da sobrevivência. Com uma faculdade e uma mestrado nas costas, fui fazer cookies e cupcakes e fazer bico em empresa de decoração de casamento. No meio tempo conheci meu futuro marido, que morava em Portugal. Portugal?! Nunca pensei em ir a Portugal. O mais perto que cheguei foi o clube Português e o tradicional bacalhau. Pensei em voluntariado, o sangue sagitariano bateu forte e rumei além mar. Para mais uma vez me descobrir incapaz. Descobrir e sozinha criar coragem para assumir o fracasso e a necessidade de uma vida menos aventureira ou mais confortável. Meu outro sonho de cair no mundo fazendo voluntariado foi se embora no Montijo, a beira do Tejo.
Mais uma vez tive que me reinventar e dessa vez, buscando começar minha própria família, fui contra meus instintos, numa tentativa de me enquadrar no padrão da sociedade cuja pressão eu sentia como: tens que trabalhar e ganhar dinheiro. Fiz o que eu sabia fazer, fui estudar. É o que faço melhor, não tenho grandes dificuldades, vou ter um salário e essa parte vai ficar tranquila para eu poder cuidar das outras. Eu estava imensamente feliz por ter encontrado meu esposo e aceitei profundamente agradecida a oportunidade de cursar um doutorado.
Veio a maternidade e desmoronou tudo que eu vinha tentando construir na tentativa de me enquadrar na sociedade. Ainda numa última tentativa, deixei meu filho numa creche, indo contra todos os meus instintos que bradavam vorazmente contra isso. Não funcionou. Me armei até os dentes e bati o pé: para a creche meu filho não volta.

Assumi, porque agora já nãe era só a mim que influenciava, era alguém que nutro profundo amor, alguém simbiótico, meu filho. Encarei os julgamentos alheios, a não concordância do meu esposo, e a perda da “independência financeira”. Eu precisava do meu filho e ele de mim. Era isso que eu sentia, claro! E a lucidez que de  tempos em tempos me visita bateu palmas de felicidade. “Ela conseguiu ouvir seu coração”, aleluia! Obrigada filho, por me dar forças no seu sofrimento, para que eu conseguisse tomar uma decisão.

Aos 30, me descubro feminista. Me descubro intolerante. Me descubro caminhante. Me descubro uma meia-ativista. Descubro que pequenas coisas que vão acontecendo ao longo dos anos tem um poder (que não lhes foi dado) de destruir coisas grandes. E que quando as percebemos destruidas, não sabemos dizer o que a destruiu. Não é como uma chuva forte que destelha uma casa. É como uma chuva mansa, que vai se infiltrando na terra e faz cair o barranco. E aí você olha e diz: mas estava chovendo tão fraquinho, como isso foi acontecer?
Fragmentos...
Aos 30, nunca imaginei tamanha revolução ou significado. Pela primeira vez me cantaram parabéns e não fiquei envergonhada. Estava inexplicavelmente a vontade. 
Esses dias, depois de assistir um vídeo (http://vimeo.com/66058153), ao ouvir a palavra “blessed”, foi como se uma porta tivesse se aberto. Me lembrei do texto que escrevi na aula de Public Speaking, onde falei sobre Joseph Campbell e sobre encontrar sua “bem aventurança” ou bliss. No auge da minha necessidade de encontrar uma...

Não sei onde foi parar o texto agora, talvez esteja perdido em alguma conta de e-mail ou em algum caderno jogado entre as mudanças que fiz. O fato é que tive um insight, ou pelo menos pareceu um: minha bliss é a maternidade. Isso é o que sempre quis! Pronto, assumi. Levei 30 anos para descobrir (?!). Talvez seja uma das minhas bliss, mas essa eu sinto do fundo do meu coração que é. Também assistindo um outro vídeo li a frase: “Maternidade: Uma ruptura existencial” o que também me fez muito sentido! Nada na minha vida até hoje foi tão revolucionário quanto a maternidade. Minha história com os cavalos foi determinante para muita coisa, e agora, 15 anos depois, uma nova etapa, uma nova revolução: a maternidade. Será que estou influenciada pelo livro “Meus vários 15 anos”? Ou será que esse período realmente tem algum significado nas fases que passamos?
E nesse meio tempo da maternidade, acreditem, várias ideias já passaram por essa cabeçinha. Doula, cake designer, empreendedora, um café-livraria-floricultura, jornalista científica, free lancer de textos científicos, e aos poucos fui identificando uma vontade de ser jornalista. De escrever as coisas que vem na minha cabeça. A escrita sempre foi uma via de mão dupla para mim. Ao mesmo tempo que morro de preguiça, outras vezes, escrever é a única solução para eu me entender e organizar meus pensamentos um pouco.
Infinitas possibilidades como sempre...
Passei o dia 6 trabalhando, fazendo e assando panetones, chocotones e cookies. Confeitando bolos e cupcakes. No dia seguinte iria participar da Feira do Empreendedorismo Materno. Que significativo! 
Confisco o necessário, pois significar algumas coisas tem sido cada vez mais complexo. 
Aos 15 ganhou um cavalo, aos 30, fez um bolo de cavalo. Sem mais divagações. Que venham mais 15 :)

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

sobre criar filhos e a ignorância

Esses dias saiu uma matéria no facebook do estadão apontando que a ignorância é a principal causa da mortalidade infantil. Mais detalhes aqui.
Fiquei pensando bastante no assunto e queria extrapolar a simples "ignorância escolar" digamos assim, pois segundo a pesquisa é o analfabetismo que tem um impacto significativo nos índices de mortalidade. Mas e a ignorância velada? Aquela que consentimos. Essa também me deixa preocupada.

Alguns podem achar que é besteira, que eu deveria me ocupar do meu filho só e pronto. É verdade, até certo ponto... porque o meu filho vai conviver com os filhos das outras pessoas, e dessa forma, o "ambiente" tem uma certa influência no meu filho. Por isso acredito que vale a pena escrever sobre isso que tenho em mente.
Para outros posso parecer insistente ou intrometida, o que também pode ser verdade, mas pode ser também que alguém só esteja precisando de umas poucas informações para começar a pensar diferente, então vou ser provocativa e dizer que se você acha que está fazendo tudo bem na criação do seu filho, pode parar a leitura por aqui.

Isso não quer dizer que vou te apontar o que está errado, porque sinceramente, ninguém teria esse poder a não ser você mesmo de julgar e perceber o que está errado para você. Só quero dizer que, bem, deixa eu parar de enrolar e falar logo.

Em várias ocasiões já disse que a ignorância é uma benção! No caso de partos, quando me tornei vegetariana, ou quando decidi parar de trabalhar para cuidar do meu filho, entre outros. Tudo isso porque quando decidi parar de ignorar as informações que chegavam até mim, eu tive muito mais trabalho! E hoje o que menos queremos ter é trabalho a mais.
O que acontece por exemplo, quando uma mãe resolve não ignorar os benefícios da amamentação e toda aquela história que tentam colocar na nossa cabeça de que não temos leite suficiente (entre outras)? Acontece assim:
"Mas 38 dias, 2 mastites e 230 tentativas depois (obrigada calculadora do mac!) consegui finalmente fazer a Alice mamar no peito."
O engraçado foi que essa mãe, falou da ignorância também:
"Queria eu ser ignorante. Dessa forma, eu não saberia dos benefícios da amamentação, e desistiria logo, e minha vida teria sido bem mais fácil. Amamentar faz bem a todos os bebês, mas o que me impulsionava ainda mais a não desistir é saber como a estimulação dos músculos do rosto e a criação de defesas que o leite proporciona são benéficas para a Alice, sob a ótica da SD."
A Alice tem Síndrome de Down (SD) e conheci sua história no blog que sua mãe tem: Nossa vida com Alice.

Eu tive um problema na amamentação, quando o Dudu tinha 1 ano e 1 mês mais ou menos. Seus dentinhos superiores cresceram e me incomodavam bastante na hora da amamentação, ficava a marquinha até. E digo, o mais fácil para mim teria sido desmamá-lo. Mas vendo a necessidade que ele ainda tem do peito, do aconchego, e sabendo que vai ter vezes que ele ficará doente (como agora) e a única coisa que ele quer saber é peito... como eu poderia desmamá-lo? Busquei ajuda, me informei, tentei várias coisas. Mas não resolveu por completo o problema, então eu percebi que teria que me adaptar caso quisesse continuar a amamentá-lo.
Não sei se já repararam, mas toda caixinha de leite tem um aviso do Ministério da Saúde sobre manter o aleitamento materno até 2 anos de idade ou mais. E porque o governo teoricamente trabalha no sentido da amamentação prolongada e os médicos no sentido contrário, ao introduzir alimentos antes dos 6 meses e ao prescrever complementos? E porque a Sociedade Brasileira de Pediatria é patrocinada pela Nestlé? Não acredita? Olha aqui: http://www.sbp.com.br/ no canto direito superior.
Pode ser "teoria da conspiração", mas porque uma sociedade médica precisa de patrocínio de uma grande empresa produtora de alimentos ditos "infantis" (leia-se leite artificial e papinhas e suplementos entre outras desnecessidades para bebês)? Os médicos não deveriam prescrever o que for melhor para os bebês?
Então, vamos ignorar essas informações e acreditar que o seu leite não é suficiente? Afinal foi o pediatra que disse! Já ouvi inúmeras explicações do porque se está oferecendo complemento ao bebê, mas nunca ouvi até agora ninguém dizendo que o pediatra encaminhou a uma conselheira de amamentação ou a um programa de apoio ao aleitamento materno. Você acha mesmo que um leite industrializado é melhor que o seu?
As pessoas lutam por um emprego com unhas e dentes, fazem das tripas coração para desenvolver um projeto para o trabalho, demonstram garra, coragem, questionam, buscam. Mas na hora que o assunto é o seu filho, confia-se cegamente no médico e rapidamente abandona-se o desejo inicial de amamentar a cria.
É realmente absurdo ter que "lutar" para amamentar. A pressão vem de todos os lados. Por isso, veja bem o que você vai decidir ignorar.

Continuando no tema de o que decidimos ignorar, encontrei esse outro texto em que a autora diz:
"É muito cômodo escolher o caminho fácil quando não temos informação, ou quando elas nos chegam de forma parcial. E naquela época, eu queria me cercar de facilidades."
É um texto bem interessante, sobre quem errou, assumiu o erro e resolveu mudar. Quem quiser ler, está aqui.

E para não me alongar mais, o que quero dizer agora é ainda mais delicado e polêmico: violência infantil.
Quando ouço histórias de crianças que apanharam dos pais na infância, preciso amarrar um monstro dentro de mim para não me deixar dominar pela revolta.


E não, ele não é tão simpático como esse aí do desenho, como podem observar pelo teor dos meus questionamentos.
Antes de começar a ler sobre o assunto eu, na minha ignorância, achava que um tapinha na bunda de vez em quando não fazia mal. Mas depois de conhecer sobre disciplina positiva, depois de me informar sobre as consequências da violência infantil, criação com apego... eu digo: um tapinha faz mal sim.
É bem capaz que se alguém vier me contar de como apanhou na infância eu comece a chorar e tenha sérias dificuldades em olhar para seus pais com os mesmos olhos. O tema me revolta!
Lembro claramente de uma cena quando era criança. Estávamos brincando e uma menina se machucou. Sangrava bastante seu joelho, então falei, vamos mostrar para sua mãe. E ela mais do que depressa, com um olhar assustado diz: não! Ela vai brigar comigo!
Oi?!
Lembro que aquilo me causou uma grande confusão. Por que ela iria brigar com a menina por ter se machucado?? Não me fazia sentido e até hoje não faz... e quantas histórias assim eu já não ouvi!
Por que brigar com uma criança que se machucou, quando o mínimo seria cuidar dela, que, lembrando, é seu filho?!

Um dos argumentos que mais me chamou a atenção quando comecei a ler sobre o assunto foi: se um amigo ou seu companheiro(a) se comporta mal, comete algum erro, faz aquela besteira, você daria "um tapinha" nele para ensinar que isso está errado? É muito provável que não! E por que então é aceito que se faça isso com crianças? Porque elas não conseguem se defender? Porque é preciso "educá-las"?
Que tipo de educação terá uma criança que aprende que ao fazer uma coisa errada o que acontece é uma surra? Será que ela vai reproduzir esse comportamento na escolinha? Afinal "lá em casa é assim"...
Pare um pouco, se coloque no lugar da criança.
No livro Besame Mucho - Como criar seus filhos com amor, o pediatra espanhol Carlos González faz uma reflexão muito interessante sobre o assunto. Recomendo.
Você acha mesmo que provocar o medo (de apanhar, de gritos, de bronca) é a melhor maneira de ensinar o certo e o errado?
Como você faria se fosse um adulto?
"Ah, mas as crianças não entendem."
Tem certeza? E quantos adultos também não entendem e repetem o erro? E você bateu neles por causa disso?
Meu esposo disse uma coisa que tem um certo sentido. As pessoas batem no ímpeto, mas aí aquilo funciona: Dei-lhe um tapinha e nunca mais fez aquilo! Então cria-se um método. Que vai depender de quanto a criança te tira do sério. E de tapinha passa para chinelada, para cintada, e quando se vê, tem crianças sendo literalmente espancadas (sob o manto de proteção da "educação"), por aqueles que deveriam protege-las, seus pais!
Mas tem gente que fala muito melhor sobre o assunto do que eu, por isso vou citá-los.
"Então, se você acha que tudo bem dar palmadas para ensinar (palmadas que assustam, humilham, envergonham e ferem, dia a dia, a autoestima de uma criança); se você acha que tudo bem deixar chorar até dormir (e produzir aflição e sensação de abandono e desamparo em um bebê que acabou de chegar ao mundo e que, tão cedo, está aprendendo que não adianta chamar porque sua mãe e seu pai não o atenderão); se você acha que tudo bem trocar o peito por mamadeira ainda que você tenha total condição de amamentar (deixando de permitir que seu filho se alimente de você e tenha momentos da mais pura intimidade, cumplicidade e conexão); se você acha que tudo bem marcar sua cesariana antes que seu bebê esteja pronto para nascer, se você acha tudo bem tudo isso, saiba: você está no seu direito. Mas isso não faz desaparecer tudo o que sabemos hoje. Isso não anula o futuro. Isso não protegerá seu filho de algo importante: más consequências. Frutos de más escolhas não dele, mas de seus pais." 
E aqui sobre estudos científicos a respeito do assunto. 
"Essa semana foram publicados, no periódico PNAS (Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America) os resultados de um estudo que mostra que o bom cuidado materno na infância leva ao aumento de uma estrutura cerebral chamada hipocampo. Estudei bastante as funções do hipocampo em meu mestrado e no meu primeiro doutorado, quando estudei a neurobiologia da ansiedade e da depressão. De acordo com esse estudo, há uma clara relação entre os fatores psicossociais da infância e alterações no tamanho do hipocampo e da amígdala, estruturas cerebrais relacionadas à memória de curto e longo prazo e ao comportamento emocional, respectivamente. Isso mostra que existe, realmente, uma ligação entre as experiências afetivas que a criança vive na infância e a forma como seu cérebro se desenvolve. Os pesquisadores estudaram, por meio de técnicas de neuroimagem que permitem visualizar o cérebro sem procedimentos invasivos, as características cerebrais tanto de crianças em idade pré-escolar deprimidas quanto de crianças emocionalmente saudáveis. E concluíram que o cuidado materno recebido na primeira fase da infância teria, sim, ligação com o tamanho do hipocampo, o que levaria, inclusive, a diferentes padrões de respostas ao estresse. Crianças emocionalmente saudáveis apresentaram hipocampos maiores, quando comparados às crianças deprimidas, e isso pôde ser relacionado ao grau de cuidado materno recebido quando eram menores. Embora quase a totalidade dos cuidadores do estudo tenham sido mães, os autores acreditam que isso possa ser extrapolado para qualquer cuidador que seja o principal responsável pelos cuidados afetivos com a criança (mãe, pai, avós ou outros)."

Teria uma lista de argumentos mostrando as vantagens de criar o seu filho com amor e sem violência. Mas aprendi que muitas vezes de nada adianta vir o próprio Cristo na Terra para nos falar do amor, se não estivermos dispostos a ouvir, como bem cantou Roberto Carlos: Todos estão surdos.


É preciso que a farpa da dúvida nasça no nosso coração para então irmos atrás, desafiarmos nossas ignorâncias, nossos preconceitos, assumirmos o erro das nossas escolhas e possamos então mudar nosso rumo.
Que tanto eu quanto você que me lê possamos apreender isso, sem nunca deixar escapar o amor, a paciência e a compaixão.